ARTIGO: POLÍTICA E COMUNICAÇÃO DIGITAL: CONEXÃO DIRETA E DIREITA DE NIKOLAS FERREIRA NO INSTAGRAM

Isabela Barbosa

Nos últimos dias, a internet passou por um momento de apreensão causado pela disseminação de informações falsas sobre suposta taxação de transações realizadas pelo Pix. O rumor, que ganhou força no primeiro fim de semana de janeiro, transitou entre o Instagram e o X, antigo Twitter, em um ritmo alarmante. No dia 15 de Janeiro, o deputado que votou contra a isenção de impostos para cestas básicas, Nikolas Ferreira, publicou no Instagram, um vídeo apelativo à classe trabalhadora sobre o caso. Em menos de 24h, o vídeo atingiu 100 milhões de visualizações. Além de evidenciar a vulnerabilidade do público diante das redes sociais, a situação alerta para outro ponto: em relação ao impacto que figuras de direita alcançam no meio digital, a esquerda não se adaptou com a mesma força.

Nikolas Ferreira utiliza o ambiente digital para consolidar sua influência política criando uma conexão direta com seus seguidores do Instagram que, atualmente, são 15.9 milhões. Em um país com 216 milhões de habitantes, o reels de 4 minutos do deputado teve, até o momento de escrita, 314 milhões de visualizações, mais de 8 milhões de curtidas e cerca de 780.000 comentários, entre eles diversos “Impeachment já!” e outros tantos “meu futuro presidente”. No vídeo em questão, Nikolas pergunta “Percebeu a consequência de um voto mal dado?”, e, analisando as últimas 12 postagens em vídeo de Nikolas, 7 delas são críticas ao presidente Lula.

Além disso, no perfil do deputado, existe um link para venda de cursos que leva a uma página repleta de frases engatilhadas como “essa é uma oportunidade única para quem não aceita ser manipulado”, “o site corre o risco de sair do ar a qualquer momento” e o botão de ação “Quero saber a verdade!”. Isso tudo para dizer que, ao utilizar recursos apelativos, o deputado do PL tem uma comunicação política que alcança o público em grande escala e se fortalece pelas mídias digitais. Assim como o ex-coach Pablo Marçal, que tentou uma candidatura à Prefeitura de São Paulo, Nikolas se vale das redes sociais e do algoritmo para criar engajamento em larga escala, ditar narrativas e mobilizar massas.

Do outro lado do espectro político, a esquerda parece presa a um paradoxo. Há uma nítida preocupação com a qualidade e o profissionalismo dos conteúdos produzidos, mas, mesmo assim, – e, talvez, por isso – figuras como Erika Hilton (3,3 milhões de seguidores) e Guilherme Boulos (2,4 milhões de seguidores) não alcançam níveis de engajamento
comparáveis aos da direita. Essa disparidade expõe um problema estrutural: no meio digital, enquanto a direita cria e lidera narrativas pelo apelo, a esquerda, muitas vezes, se limita a responder a essas narrativas e fake news levantadas pela direita.

Um exemplo disso está no presente caso sobre o Pix, em que a deputada Erika Hilton publicou seu vídeo-resposta três dias depois do reels de Nikolas. Além do próprio algoritmo que não será abordado aqui, é necessário explorar os possíveis causadores da problemática. Assim, os processos formais de produção já conhecidos podem ser um empecilho quando o assunto é mobilização pelas redes sociais, que requer agilidade e fluidez, como indica a pesquisadora Issaaf Karhawi ao estudar os influenciadores digitais. Karhawi aponta que o meio digital exige autenticidade, velocidade e estratégias cocriadas com o público, características que precisam ser abraçadas para ocupar o espaço digital de forma mais eficaz e enfrentar a desinformação.

O mesmo movimento acontece no jornalismo, que, ao não abrir mão de processos arcaicos e já consolidados, deixa de lado a adaptação às novas redes de comunicação. A era de desinformação é inegável, visto que hoje as pessoas se informam por aplicativos de mensagens, redes sociais e não procuram averiguar os fatos. No entanto, a responsabilidade de informar não é do público, mas do jornalista – e, nesse aspecto, a imprensa precisa urgentemente repensar suas estratégias de produção e distribuição de conteúdo para alcançar e, principalmente, informar o público com veracidade. Enquanto a adaptação não acontece, as notícias falsas tomam conta da atenção popular.

O caso envolvendo Nikolas Ferreira e a disseminação de informações falsas sobre o Pix é um alerta duplo. Ele revela, de um lado, a fragilidade do público diante de desinformações, e, de outro, a dificuldade da esquerda – e do jornalismo – em adaptar-se ao dinamismo do meio digital. Essa dificuldade em rever métodos e se adaptar ao dinamismo e à fluidez do meio digital deixa um espaço perigoso: aquele que é rapidamente ocupado pelas narrativas mais apelativas, que promovem a desinformação e o extremismo.


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Edição: Arthur Raposo Gomes

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