ARTIGO: DITADURA MILITAR NO BRASIL: POR QUE NEGAR UM FATO HISTÓRICO SE TORNOU TÃO COMUM?

Késsia Carolaine

No dia 7 de novembro de 2024, o novo filme de Walter Salles, “Ainda estou aqui” estreou no Brasil. O longa rapidamente conquistou o brasileiro e levou mais de três milhões de pessoas para diversas salas de cinema do país. No filme, conhecemos a família Paiva, que em um determinado momento vê tudo mudar, quando Rubens Paiva, o patriarca interpretado por Selton Mello, é levado pelos militares e nunca mais é visto.

A partir daí, acompanhamos Eunice Paiva, que é interpretada pela talentosa Fernanda Torres, tendo que criar os cinco filhos sozinha, além de lidar com os sentimentos e incertezas que tomam conta de si após o desaparecimento de seu esposo. 

A ditadura militar foi um regime autoritário que perdurou de 1964 até 1985. Durante esse regime, foram declarados diversos atos institucionais, entre eles, o AI – 5, marcado por grandes repressões, tortura e censura à imprensa. Neste período diversas pessoas (principalmente aquelas que se opunham ao golpe) foram perseguidas, torturadas, sequestradas e mortas. Até hoje, não se sabe em qual local algumas pessoas foram mortas e enterradas.

O período de redemocratização foi lento e gradual. Em 1979, foi promulgada a “Lei da Anistia”, que cedia perdão aos políticos que foram presos e exilados. Apesar dessa lei ter sido importante para a libertação de diversos indivíduos, estavam incluídos também, os militares responsáveis por torturas e mortes. Sendo assim, até hoje, uma parte desses militares não foram julgados e muito menos condenados pelos crimes cometidos. E é a partir daqui que o negacionismo em relação à ditadura militar começa.

Não é honesto a comparação de tratamento histórico que a escravidão e a ditadura militar tiveram nesse país, já que foram fatos históricos completamente distintos. Mas, apesar disso, há algo em comum entre esses dois horrores. Eles caíram no esquecimento e são tratados como algo que já passou e não deve ser relembrado. Além disso, é comum ouvir pessoas falando coisas como: “eu vivi na época da ditadura e não era tão ruim”, “naquela época as coisas eram melhores”. Se é ruim ouvir tais frases de pessoas comuns, imagine um político exaltando um torturador em pleno senado? Foi o que aconteceu em 2016, quando o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro foi votar para o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff. Quando declarava seu voto, ele exaltou o Coronel Brilhante Ustra, o torturador de Dilma. Apesar da gravidade de sua fala, Bolsonaro sempre deixou explícito sua admiração pelo período ditatorial e claro, pelos militares.

Antes mesmo de chegar à presidência, Bolsonaro sempre deixou claro em diversas entrevistas que enxergava a ditadura militar como uma “revolução”. Assim que foi empossado no dia 1° de janeiro de 2019, mal sabíamos (alguns talvez), que o negacionismo de Jair Messias em relação ao golpe militar, se estenderia aos seus ministros, aliados e, claro, seus eleitores. O cenário que era ruim, iria piorar

Ano passado, no dia 31 de março, o golpe militar de 1964 completou 60 anos. O presidente Luís Inácio Lula da Silva foi duramente criticado por não ter se pronunciado sobre o assunto. Agravando ainda mais o silêncio covarde, o presidente ainda vetou atos e cerimônias que iriam homenagear as vítimas da ditadura e relembrar do qual sombrio foram aqueles anos.

Apesar da gravidade dos atos citados anteriormente, me parece que a direita e extrema-direita vem usando um artifício de forma inteligente: as mídias sociais. O “Brasil Paralelo”, que é uma empresa de entretenimento e educação, é conhecido por produzir conteúdo em diversos formatos, possui um site e um canal no YouTube, com diversos milhões de acessos.

A empresa prega que trabalha com conteúdo de “bons valores”. A verdade é que a tal produtora cria conteúdos que distorcem fatos históricos, como a história da “Lei Maria da Penha”, da escravidão e claro, da ditadura militar. O vídeo intitulado “1964 – O Brasil entre armas e livros” tem duas horas e dezessete minutos e, até o presente momento, possui onze milhões de visualizações. Com fontes não confiáveis, o vídeo inteiro é um poço de fatos distorcidos sobre o golpe de 1964, além da exaltação aos militares.

Apesar do descaso que ainda tratam um golpe onde milhares de pessoas foram torturadas e mortas, poucas ações foram feitas em prol da permanência da memória. Em dezembro de 2011, Dilma Rousseff, presidente do Brasil naquela época, e que também foi torturada durante a ditadura, sancionou a lei que estabeleceu a Comissão da Verdade, que foi aberto um período de investigação de mortes e desaparecimentos de pessoas durante a ditadura militar. Após dois anos e meio de investigação, veio à tona que 377 agentes foram responsáveis por torturas e mortes; 434 pessoas desapareceram ou foram mortas.

Apesar do grande feito da ex-presidente Dilma e todo o trabalho da Comissão da Verdade, nada foi o suficiente para que os responsáveis fossem punidos. Se não fosse grave o negacionismo do país em relação à ditadura militar, a falta de punição dos responsáveis deixa uma impressão de que tudo aqui é permitido, inclusive ferir os direitos humanos. Em um país que nega a qualquer custo revisitar sua história, filmes como “Ainda estou aqui” são importantes. E enquanto estivermos aqui, deveremos nos lembrar daqueles que se foram defendendo a democracia.  


Todos os textos opinativos publicados no portal Notícias del-Rei são identificados como tal – não refletindo, necessariamente, a opinião editorial do coletivo.

Edição: Arthur Raposo Gomes

Deixe um comentário