Yanni Paula Santana
A ascensão de governos populistas e conservadores ao redor do mundo, como o de Javier Milei na Argentina e Donald Trump nos Estados Unidos, oferece semelhanças interessantes com regimes autoritários clássicos, como os de Adolf Hitler (Alemanha) e Francisco Franco (Espanha). Embora os contextos históricos sejam diferentes, é possível traçar paralelos na maneira como os padrões femininos são manipulados e controlados para consolidar um poder político e social. Esses líderes modernos, embora não governem com a mesma repressão direta vista em ditaduras do século XX, ainda assim, através de discursos e políticas conservadoras, exercem um controle implícito sobre as mulheres, desafiando as conquistas feministas e promovendo uma moralidade patriarcal.
Nos regimes autoritários do passado, como os de Hitler e Franco, o controle sobre as mulheres foi uma das estratégias centrais para estabelecer uma ordem social. Na Alemanha nazista, por exemplo, as mulheres foram colocadas como pilares da reprodução da “raça ariana”, com incentivos para a maternidade e a promoção de valores tradicionais de família. A mulher ariana idealizada deveria ser submissa, virtuosa e dedicada ao lar, em um modelo de feminilidade que limitava suas possibilidades fora desse escopo, de acordo com estudos de Ian Kershaw. Na Espanha de Franco, a figura feminina também foi associada à moralidade cristã, com o regime buscando preservar a mulher como guardiã dos valores familiares e religiosos, tornando-a submissa ao marido e relegando-a ao espaço doméstico, como retrata a série “As Telefonistas” da Netflix.
Esses exemplos clássicos mostram que, sob regimes autoritários, o controle sobre os padrões femininos não é apenas uma questão de moralidade, mas uma tática explícita para consolidar a ordem social e política desejada. As mulheres eram vistas como agentes de reprodução e preservação da ideologia oficial, com suas liberdades, desejos e direitos profundamente limitados. A repressão de movimentos feministas e de qualquer forma de dissidência, como foi o caso tanto na Alemanha nazista quanto na Espanha franquista, também era uma forma de garantir que os valores impostos pelo regime se perpetuassem.
No entanto, a história não é tão linear. O fenômeno populista atual, representado por figuras como Miley na Argentina e Donald Trump nos Estados Unidos, embora não se configure em uma repressão explícita como a observada nos regimes autoritários clássicos, também revela uma tentativa de controlar os padrões femininos, agora de forma mais indireta e, muitas vezes, disfarçada sob o discurso da “liberdade”. Miley, por exemplo, em sua eleição na Argentina, se posiciona contra políticas progressistas como a legalização do aborto e critica a chamada “ideologia de gênero”. Sua retórica apela para uma moralidade tradicional, onde as mulheres seriam, em última instância, vistas como responsáveis por preservar a moral e a família em uma sociedade econômica liberal, observada nos discursos proferidos pelo presidente. A pressão que ele exerce sobre as mulheres vai além de uma repressão aberta, mas se manifesta na negação dos avanços conquistados no campo dos direitos reprodutivos e da igualdade de gênero.
Trump, por sua vez, representa uma figura que, embora tenha governado sob a bandeira de uma democracia, usou de um discurso populista para enfraquecer os direitos das mulheres e reverter avanços nas questões de gênero. A revogação do Roe v. Wade, que garantiu o direito ao aborto nos Estados Unidos, é um exemplo claro de como sua administração promoveu políticas que submeteram as mulheres à moralidade conservadora e ao controle do Estado sobre seus corpos. Ao mesmo tempo, Trump reforçou a imagem de uma mulher subordinada a um modelo tradicional, exaltando figuras femininas que se encaixavam em uma visão conservadora de feminilidade, ao passo que desqualificava e atacava publicamente mulheres de destaque, como Hillary Clinton e Elizabeth Warren, que não se alinhavam com seus valores.
O ponto em comum entre Miley e Trump com Hitler e Franco está, principalmente, na utilização da mulher como um símbolo de moralidade e controle social. No entanto, enquanto os regimes autoritários clássicos impunham essas normas de forma explícita e repressiva, os líderes contemporâneos operam dentro de um sistema democrático onde o controle sobre as mulheres é feito de maneira mais sutil. Em vez de estabelecer uma ditadura absoluta sobre o corpo feminino, essas figuras políticas promovem uma retórica de “libertação” que, na prática, acaba limitando os direitos das mulheres. Ao atacar movimentos feministas, ao enfraquecer políticas públicas voltadas para a igualdade de gênero e ao pressionar por um retorno a valores conservadores, Miley e Trump criam um ambiente em que as mulheres são novamente forçadas a lutar por direitos já conquistados, mas sob um disfarce de “liberdade” e “tradição”.
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Edição: Arthur Raposo Gomes
