ARTIGO: ENTRE A VIRALIZAÇÃO E A CONEXÃO: COMO O CANTOR JÃO SE DESTACA ATRAVÉS DA FIDELIDADE E IDENTIDADE ARTÍSTICA

Lívia Fernandes de Araújo

Três shows no estádio Allianz Parque esgotados, mais de 140 mil ingressos vendidos e nenhuma de suas canções presente na lista das 50 músicas mais tocadas nas plataformas de streaming de 2024. A trajetória do cantor américo-brasiliense João Vitor Romania Balbino, o Jão, é um exemplo claro de que investir em uma base leal de fãs pode ser tão eficiente quanto construir uma presença viral nas redes sociais. Em vez de seguir tendências passageiras, o artista consolida sua relevância com álbuns conceituais e espetáculos grandiosos, que mobilizam multidões e evidenciam o poder do engajamento genuíno sobre métricas instantâneas.

O cenário atual da indústria musical está profundamente imerso em uma busca incessante por atenção, seja em plataformas de streaming, seja nas redes sociais. O TikTok, em particular, tornou-se um grande impulsionador das músicas em alta no país. Um relatório de 2020 da Martech Winnin, empresa especializada em ciência de dados voltada para o mercado de influência e tendências, revelou que sete das dez músicas mais ouvidas naquele ano no Spotify haviam viralizado primeiramente no TikTok. O problema surge quando produções e composições se tornam reféns das estratégias de viralização dessa plataforma, caracterizada por vídeos curtos onde as músicas frequentemente desempenham um papel secundário, servindo apenas como trilha sonora para formatos já estabelecidos, como coreografias, desafios, dublagens e vlogs. Essa adaptação às exigências do formato limita a criatividade e a autenticidade artística, resultando em uma padronização sonora.

Embora relevantes, as métricas de streaming nem sempre refletem o poder de mobilização de uma base sólida de fãs ou a importância artística de um cantor. Nesse contexto, Jão segue um caminho oposto. Desde o lançamento de seu álbum de estreia, Lobos (2018), ele adota uma estratégia voltada para composições profundas que geram identificação em seu público-alvo. Pensando a longo prazo, o artista estruturou seus álbuns com base nos quatro elementos: Lobos (2018) – Terra, Anti-Herói (2019) – Ar, Pirata (2021) – Água, e SUPER (2023) – Fogo, reforçando uma narrativa linear que cativa e fideliza seus admiradores.

Além de suas composições, Jão, junto ao diretor criativo Pedro Tófani, constrói uma atmosfera única em torno de seus lançamentos. Durante a era SUPER, por exemplo, a comunicação começou por meio da “Toca do Lobo”, um site onde o cantor publicava pequenos textos sobre o processo de criação e sua rotina naquele momento. Essa estratégia de pré-lançamento foi mais do que marketing; representou uma maneira de criar um vínculo em que o público não era apenas espectador, mas participante da jornada artística. Tal construção contribuiu para que o álbum alcançasse a marca de 8,5 milhões de streams em 24 horas, tornando-se a maior estreia da história do Spotify Brasil.

No entanto, os shows de Jão vão além dos números. Suas apresentações tornam-se experiências memoráveis, quase como o reencontro com um amigo distante, devido à conexão íntima que seus fãs sentem com ele, somada à grandiosidade de suas performances. As apresentações são imersivas e combinam elementos visuais impressionantes, como estruturas gigantescas, pirotecnia e cenários simbólicos. Essa grandiosidade, aliada à emoção que o artista transmite, transforma seus shows em eventos que transcendem o entretenimento, proporcionando um senso de pertencimento ao público.

Por outro lado, artistas como Zé Felipe exemplificam um modelo distinto de sucesso. Nos últimos quatro anos, ele alcançou o primeiro lugar no Spotify Brasil em sete ocasiões, com músicas virais que dominam o TikTok. No entanto, sua popularidade digital não se traduz na mesma medida para o universo dos shows ao vivo. Segundo o colunista Daniel Nascimento, do jornal O Dia, o cantor precisou cancelar uma de suas apresentações por não conseguir vender nem 30 ingressos. Isso levanta uma questão relevante: como a realidade da viralização digital se reflete fora das telas?

De um lado, a lealdade do público presencial e o apelo emocional; de outro, a força da era digital e o consumo instantâneo. O contraste entre Jão e Zé Felipe ilustra as múltiplas possibilidades do mercado musical contemporâneo. Apesar da forte presença do mundo virtual na sociedade atual, muitas vezes a realidade ainda se distancia dos algoritmos.


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Edição: Arthur Raposo Gomes

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