Carlos Carvalho
São João del-Rei é uma cidade que se encontra no limiar entre o sagrado e o profano. Quando o assunto envolve as ricas igrejas históricas, ou as tradicionais escolas de samba e blocos carnavalescos, os ânimos da cidade se agitam, deixando poucos realmente apáticos sobre o assunto.
Não foi diferente em 2025, quando a imprensa local noticiou que o carnaval da cidade, intitulado pela gestão Aurélio Suenes de “Carnaval Cultural”, teria restrições quanto aos gêneros musicais permitidos nos blocos na festa deste ano. Moradores da cidade criticaram a decisão nas postagens das notícias e a discussão acalorou.
A decisão parte do Guia Organizador do Carnaval 2025, documento disponibilizado pela Secretaria de Cultura e Turismo de São João del-Rei no dia 09 de janeiro. Nele, estão listadas as especificidades que os blocos de rua deverão cumprir para integrar a festa deste ano. Dentre as exigências, está o respeito aos gêneros musicais tradicionais, delimitados como samba, pagode, marchinhas e axé. Ou nas palavras do secretário, Caio Andrade, “no máximo um axé”, quando falou em entrevista à Rádio Emboabas no dia 10 de janeiro.
Blocos como o “Eletrobloco”, com músicas eletrônicas, e “Gaiola das Loucas”, destinado ao público LGBTQIAPN+, com músicas de funk e pop internacional foram ameaçados pela decisão. Na postagem da Rádio São João del-Rei, intitulado “Blocos tradicionais de carnaval de São João del-Rei podem se inscrever para a festa de 2025”, seguidores criticaram a decisão, apontando-a como regresso. Uma internauta afirmou ainda que o carnaval “deve ser um espaço para todos, do samba ao funk, do axé à eletrônica. Proibir blocos populares não é sobre segurança ou organização, é sobre poder. E contestar esse poder é garantir que a maior festa brasileira continue celebrando a verdadeira diversidade do povo, do NOSSO POVO”.
É interessante analisar o uso da adjetivação da festa intitulando-o como “cultural”, visto que a festa já é por si própria uma manifestação cultural. O termo junto aos discursos dos gestores da cidade traz um tom de “cultura tradicional”, mas salpicada de uma celebração ao antigo sem espaço ao novo. Novos estilos musicais (nem tão novos assim) como o funk, são levados ao espaço de uma cultura desvalorizada – algo comum a discursos conservadores sobre esses ritmos que surgiram na periferia.
O uso do “cultural” no título do carnaval tenta mascarar o conservadorismo, que muitas vezes é substituído por “tradicionalismo” para amenizar o discurso de políticos de direita. As manifestações culturais se dividem nesses discursos entre a cultura erudita (da elite intelectual, mais refinada e menos palpável) e cultura popular (do povo, menos refinada e mais palpável).
Porém, vale lembrar que os ritmos permitidos pela atual gestão são-joanense, bem como o carnaval de rua, surgiram do popular. No início do século XX, o samba surgiu no subúrbio carioca, tendo heranças da África Ocidental e da cultura afro-brasileira. Mais tarde, o pagode surge como uma derivação do samba, entra o final da década de 1970 e início dos anos 1980, a partir dos sambas feitos nos “fundos de quintal”. Com o funk não foi diferente, o ritmo também carioca, surgiu, assim como o samba e pagode, da comunidade suburbana, das favelas do Rio de Janeiro nos anos 1980. Hoje, o ritmo é bem mais popular que no final do século XX, mas ainda sofre com estigmas.
Olhando para trás, a cultura popular foi absorvida pela cultura erudita em alguns ambientes e regiões, como é o caso de São João del-Rei. Figuras públicas que hoje delimitam e distanciam o que é cultura já ocuparam espaços dentro do samba e do carnaval, como o secretário Caio Andrade, que já foi presidente da escola do bairro Tijuco, a “Vem Me Ver”, campeã do carnaval de 2024.
Enquanto a Prefeitura não se posiciona sobre quais blocos serão permitidos, e se o funk, a eletrônica, o pop e diversos outros ritmos que rodam o Brasil integrarão o Carnaval “Cultural”, fica a cidade dividida entre os adeptos à diversidade musical e àqueles que buscam uma tradição excludente, como já foram com o samba, pagode, as marchinhas e aquele que fica no limite para a prefeitura, o axé.
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Edição: Arthur Raposo Gomes
