ALÉM DAS TELAS: CONHECENDO MAURO KERSUL E SUAS INSPIRAÇÕES

Amanda Vitória, Gabriela Bastos e Lívia Moreira

O ateliê do artista Mauro Kersul é um espaço que exala criatividade e história. É um ambiente que reflete a essência do artista: telas espalhadas em diferentes estágios de criação e pincéis organizados. Às repórteres, Mauro garante uma acomodação com simpatia e compartilha sua trajetória, entre histórias de inspiração e desafios, ele revela os bastidores de sua arte e a força de sua visão criativa.

Raízes e Descobertas

Mauro Marques Kersul, artista plástico autodidata, nascido em São João del Rei, Minas Gerais, veio de uma família marcada pela diversidade cultural. Seu pai, admirador de filosofia e arte, sempre incentivou Mauro a explorar sua criatividade.

Mauro conta que aos 12 anos enfrentou um momento marcante: levou um desenho para uma professora e recebeu desdém como resposta. Apesar da decepção, seu pai que sempre o encorajou disse: “você é artista; ela não”.

Com a perda da mãe aos 13 anos, ele se mudou para São Paulo, onde começou a trabalhar como auxiliar boy em uma agência de propaganda. Esse ambiente o aproximou ainda mais do universo criativo. Aos 17 anos, ele se tornou diretor de criação na empresa, o que o levou a desenvolver sua criatividade e crescer profissionalmente.

Mesmo após anos bem sucedidos na área da publicidade, ele se sentiu insatisfeito com o ritmo acelerado de São Paulo, o que o levou a tomar a decisão de retornar a Minas Gerais em busca de equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.

De volta a São João del-Rei, Mauro fundou uma pequena gráfica e passou a atender na cidade. Mauro também atuou na Funrei (Fundação de Ensino Superior de São João del-Rei), hoje UFSJ, prestando serviços de comunicação e design, ocupando a função de assessor de comunicação. Apesar de encontrar estabilidade, Mauro percebeu que a rotina burocrática não combinava com seu espírito criativo.

“Eu sou muito agitado e gosto de correr atrás de projetos, explorar ideias. Na universidade, tudo era mais calmo, metódico, e isso não fazia sentido para mim”, explica. Após cerca de um ano e nove meses, Mauro decidiu pedir demissão para focar na sua agência.

Em 2016, Mauro teve a oportunidade de participar de uma exposição na Urban Arts, em Belo Horizonte. Quando voltou da viagem, sua esposa, Elisabeth, o incentivou a fechar sua empresa e a focar apenas em sua carreira como artista.

A consagração e os desafios de um artista autodidata

No mesmo ano da exposição, foi convidado para sua primeira exposição internacional. “Na época, eu tinha uma agência de propaganda e gráfica, mas ainda não tinha feito nenhuma exposição como artista. Foi quando me chamaram para representar o Brasil na Europa. A partir daí, os convites não pararam de chegar”, conta. Mauro começou a marcar presença em galerias e eventos culturais por todo o continente.

Durante a pandemia, um marco importante destacou ainda mais sua carreira. Ele foi escolhido para criar um selo artístico em Liechtenstein, na Europa, país conhecido pela valorização das coleções de selos como verdadeiras obras de arte. “O selo que criei, chamado A Arca da Vida, carrega mensagens de união e preservação. Outro projeto meu, One Love, ganhou destaque na época da Copa, promovendo a reconciliação e a luta contra preconceitos”. Ambas as obras hoje estão em grandes museus da Europa.

Apesar do reconhecimento, o caminho nem sempre foi fácil. Aponta sobre as diferenças entre um artista nacional do interior com as grandes cidades brasileiras, como São Paulo e Belo Horizonte. E com gratidão reflete: “a arte é um movimento pulsante, especialmente em lugares como Paris. Mas, no Brasil, precisamos superar muitos desafios estruturais para que artistas tenham condições reais de expor seus trabalhos”.

Arte como Expressão e Cura

Para Mauro, a arte não é isolada, ela dialoga com os ambientes e histórias ao seu redor, como demonstrações de seu envolvimento com a comunidade local. Ele a utiliza como uma forma de expressão e reflexão sobre as suas experiências de vida, tanto positivas quanto negativas.

Outro ponto é que Mauro reflete profundas conexões com questões humanas e ambientais. Ele aborda, por exemplo, festas populares como a Folia de Reis e temas relacionados às relações humanas, como conflitos interpessoais, sempre com um toque de crítica social. Para ele, a arte é um meio de tocar as pessoas, mesmo que isso cause desconforto. “A arte é para incomodar, para fazer pensar”, afirma.

Além das artes visuais, Mauro também se dedica à escrita, com projetos que incluem livros de poesia e histórias infantis. Esses trabalhos ampliam sua forma de comunicação artística, possibilitando explorar diferentes públicos e formatos narrativos.

 Mauro expressa críticas ao capitalismo, evidenciando como ele molda tanto a arte quanto a vida das pessoas. Em relação à originalidade, suas obras são marcadas por um estilo pessoal e uma fusão de elementos da cultura popular com reflexões contemporâneas.

Entre pinturas, livros e experimentações criativas, Mauro Kersul segue construindo um legado que transcende técnicas ou estilos. Isso demonstra sua versatilidade criativa e o desejo de atingir diferentes esferas da sociedade com sua arte.


Edição: Arthur Raposo Gomes

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