Júlia Diniz e Lívia Antoniazzi
Joel Marcos da Silva tem 52 anos e é guia turístico de São João del-Rei há mais de 30 anos. Mas nem sempre foi assim. O são-joanense conta à reportagem que antes de sua atual profissão já recolheu muito papelão da rua e com o passar dos anos, a escolha de contar a história de sua cidade natal, surgiu de sua observação do trabalho de outros guias enquanto lavava carros, outro emprego que teve antes de se encontrar no turismo. “Eu vi os guias e eles chegavam com mais dinheiro que eu estava lavando carro, daí eu falei, vou aprender isso aí e comecei a estudar”, revela.
A trajetória de Joel para se tornar guia não foi fácil – apesar de ter interesse, os desafios foram muitos já que ele parou de estudar na oitava série. Entretanto, a paixão pela história falou mais alto e foi um fator crucial em sua escolha. “Eu já gostava da história, né? Então combinou muito bem”, explica. Ele se formou no curso oferecido pela Secretaria de Turismo e pelo SENAI.
Para Joel, aprender a história de sua cidade foi importante para sua realização pessoal, já que segundo ele, não plantou nada para ter um bom destino e mesmo assim é feliz dentro de sua profissão. “Eu não plantei nada de destino, não tenho nada a cobrar dele. Então ele vai me dar o que ele quiser. Ainda consegui esse escape de guia, que, graças a Deus, para mim é uma profissão muito boa e eu vou morrer nessa”, reflete.
Durante a entrevista, Joel destaca que seu ponto turístico e o que mais tem orgulho de mostrar para os turistas é a Igreja São Francisco porque é um cenário lindo e muitos clientes passam por lá. “Aqui é o meu lugar”, diz ele com um sorriso no rosto. Ao tocar nesse assunto, o guia começou uma verdadeira aula de história, explicando a importância e curiosidades sobre sua igreja favorita da cidade.
De acordo com ele, São Francisco de Assis é a igreja mais rica em arte barroca do Brasil e também é a mais bonita da cidade. Ela dispõe com elementos do estilo da derrama, de um período que já não tinha tanto ouro no Brasil. Porém, os nobres e portugueses não gostavam da arte barroca, preferiam o neoclássico, que por fora é mais simples, mas por dentro é cheio de ouro e prata. “Quando não tinha ouro mais, que veio esse estilo mostrando que riqueza não é só o ouro e a prata, mas que a arte também é riqueza. As pessoas se impressionam quando entram na São Francisco, porque ela não é de ouro, mas tem a imponência do barroco, que é rico em arte, não em ouro e prata.”, pontua. Além das igrejas, o guia diz que os outros pontos que mais gosta de trabalhar são o pelourinho, a casa onde morou Tancredo Neves, a Maria Fumaça e a igreja do Pilar.

(Foto: Júlia Diniz)
Apesar da alegria em praticar a profissão, Joel cita alguns desafios enfrentados no dia a dia de um guia turístico na cidade dos sinos. Segundo ele, São João del-Rei está com as portas fechadas para receber os turistas. Tiradentes, ao contrário, está com os braços abertos para receber o povo. “Lá é tudo mais caro, mas quem viaja, quer passear”, observa.
Ele ainda acrescenta: “a gente tenta puxar o pessoal de Tiradentes para visitar São João del-Rei. Quando tem a Maria Fumaça é mais fácil, até mesmo porque a gente explica que a Maria Fumaça é daqui de São João del-Rei e não de Tiradentes. Aqui também tem muito mais coisa, mais museus do que Tiradentes, então é uma pena que não tenha tanto movimento pra cá quanto pra lá, falta divulgação”. Joel também fala que trabalhar com o público em si é muito desafiador, e menciona que lidar com pessoas difíceis é a parte mais complicada da profissão. “Tem que ter o dom, tem que saber”, argumenta.
Joel não esconde o espírito livre e sonhador que possui. “Eu gosto de passear, andar de moto. Sou motociclista e eu só paro porque tenho que trabalhar senão eu ia até o fim do mundo”.
Quando perguntado sobre a motivação para continuar, ele, que costuma guiar as pessoas pela cidade, conta que também possui um guia: “o Senhor é meu pastor e nada me faltará. Esse que me guia’’ e completa dizendo que assim vai até o fim da vida.
Edição: Arthur Raposo Gomes
Suporte: Bruno Nézio
Imagem de destaque: Júlia Diniz
