Erick Azevedo e Juarez Cruz
Apelidada de “a menorzinha do Brasil”, Santa Cruz de Minas é conhecida por ser a menor cidade em extensão territorial do país. Apesar de sua pequena área de 3.6 km², a cidade se destaca no setor industrial, através da extração de areia de quartzo e pela produção de móveis artesanais. Antes pertencente a Tiradentes, a cidade teve sua emancipação apenas em 1995. Deste momento em diante, Santa Cruz se deparou com um novo cenário, agora mais permissivo para que figuras locais se ascendessem politicamente.
O processo de emancipação foi resultado de pressões políticas, da Igreja e de interesse da população. A movimentação começou em setembro de 1991, com a presença do então prefeito de Tiradentes, Nivaldo Andrade, dos vereadores Luiz Sávio Moreira, José Antônio dos Santos (o Padre) e Wilson José Calçavara, além da comunidade local. Paralelo ao processo burocrático, houve uma forte campanha realizada entre moradores a favor do “sim”. Entretanto, foi apenas em novembro de 1995, depois de um longo processo, que Santa Cruz conseguiu sua emancipação, permanecendo sua administração vinculada à Tiradentes até final de 1996, quando houve a primeira eleição da cidade recém criada.
No decorrer do período pós emancipação, o município presenciou a alternância de partidos como PSC, PP, PT e PL, através dos seus respectivos prefeitos eleitos, assim como de algumas pessoas. O Padre (José Antônio dos Santos), por exemplo, figura presente na emancipação do município, foi também o primeiro prefeito eleito, em 1996, e reeleito em 2000. Em 2004 foi a vez de Paulo César de Almeida, conhecido como Didico da Ambulância, eleito pelo Partido Social Cristão (PSC). Já em 2009, o Padre voltou à gestão da prefeitura, agora pelo Partido Progressista (PP).
| Ano | Partido do prefeito eleito |
| 2000 | PFL |
| 2004 | PSC |
| 2008 | PP |
| 2012 | PT |
| 2016 | PT |
| 2020 | PL |
| 2024 | PRD |
Em 2012, Sinara Campos, à época filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT), foi a primeira mulher eleita a prefeita da cidade, tendo recebido 3.069 votos, pouco mais de 59% dos votos válidos e concorrendo contra os dois ex-prefeitos, o Padre e o Didico. Em 2016, a então prefeita se reelegeu com 2.962 votos (57,65% dos votos válidos), porém agora, em disputa mais acirrada com o Padre, desta vez, candidato do PSDB.
Em 2020 Wagner Almeida, chamado de Wagner do Didico e então filiado ao Partido Liberal (PL), venceu a eleição e assumiu a prefeitura em 2021. Ele é filho do ex-prefeito Didico da Ambulância e foi o vereador mais votado do município nas eleições de 2016. Apesar da alternância, é possível notar que o grupo político no poder permanece o mesmo.
Nas eleições deste ano
Já nas eleições de 2024, Wagner do Didico, desta vez no Partido da Renovação Democrática (PRD) e tendo Padre como vice, se reelegeu com 4.167 ou 84,56%, uma votação expressiva contra seu adversário Claudney Valério Bambu (Mobiliza), com 761 votos ou 15,44%. Na Câmara Municipal, seis dos nove vereadores foram reeleitos, entre eles estão Victor Manoel (PV), Marcelo do Laudinor (PRD), Fillipe Xuxu (PCdoB), Didico da Ambulância (PRD), Leco do Jiu-jitsu (Mobiliza) e Jonas Resende (PSB). Já os novos vereadores eleitos são Pivete (PSDB), Kito Motorista (PSB) e Wilson da Joaninha (PL).
O pleito de 2024 em Santa Cruz de Minas teve 5.462 votos no total. Destes, 534 foram brancos e nulos, cerca de 9,7%. A abstenção foi de 978 eleitores, ou 15,19% do total de eleitores no município. Os dados revelam que, apesar da votação expressiva de Wagner do Didico, os votos nulos e brancos somados à abstenção chegam a 1.512, cerca de 23,4% dos eleitores, uma quantidade significativa considerando a população da cidade.
Saúde e educação
Os setores de Saúde e Educação receberam os maiores investimentos no último ano de 2023. A Secretaria de Saúde contou com quase R$24 milhões de reais, enquanto a Secretaria de Educação com R$18 milhões. Os valores, embora pareçam altos, não foram suficientes para resolver os problemas estruturais do município. Ainda é bastante comum ver pessoas indo buscar tratamento em outras cidades da região ou até na capital, Belo Horizonte. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o município conta com apenas quatro estabelecimentos de saúde, sendo duas clínicas públicas e duas privadas, especializadas em atendimento ambulatorial, todas inclusas no Sistema Único de Saúde (SUS). O município não possui nenhum leito de internação disponível ou sequer atendimento de emergência.
Na educação, a situação é semelhante. Santa Cruz conta com três escolas, sendo duas para o Ensino Fundamental e uma para o Ensino Médio, por isso, muitos alunos acabam indo estudar na vizinha São João del-Rei.
Meio ambiente
A pequena cidade de Santa Cruz, assim como as demais cidades da região, tem sofrido constantemente com as mudanças climáticas. A histórica cachoeira do Bom Despacho, destino de muitos turistas e aventureiros, sofreu com o último período de estiagem e secou completamente no mês de setembro, seu solo pôde ser observado pelos moradores que, costumeiramente, vão se banhar e aproveitar o local.
No entanto, não é só o clima que tem afetado a questão ambiental do município. A ausência de uma rede de tratamento de esgoto põe em risco a qualidade de vida da população.
Durante entrevista, o professor de História e Geografia e ex-vereador de Santa Cruz de Minas, Alexandre Silva Nascimento, explica que todo o esgoto é direcionado e despejado no Rio das Mortes, prejudicando a fauna e a flora da região. O professor também critica o método utilizado para asfaltar as ruas: “infelizmente, aqui na nossa região, há uma necessidade dos políticos, dos prefeitos, em asfaltar todas essas ruas da cidade. E, lamentavelmente, isso prejudica muito a infiltração do lençol freático”.
À reportagem, o vereador reeleito, Fillipe Xuxu (PCdoB), também comenta sobre a questão do saneamento: “a gente não tem tratamento de esgoto e abastecimento de água. Hoje o município é somente abastecido com águas de poços artesianos e tem alto consumo da população – Nossa ideia é colocar um reservatório para fazer uma melhor gestão, com os poços abastecendo esse reservatório, automaticamente vai ter um descanso para recuperação dos lençóis freáticos”, argumenta.
Os próximos anos
Com maioria na Câmara, o segundo mandato de Wagner deve manter a governabilidade da cidade sem grandes desafios e podendo implementar seus projetos de campanha. A oposição por parte de alguns vereadores à esquerda é moderada e privilegia a conciliação, como explica Fillipe Xuxu: “não adianta fazer uma oposição por quatro anos ferrenha e ‘bater de frente’ com o prefeito”, afirma o vereador.
A respeito do próximo mandato, o vereador pontua que sua prioridade será buscar recursos através de emendas, a fim de ampliar os investimentos na saúde do município:“vou tentar bater o recorde de emenda, trazer mais emenda parlamentar do que trouxe no primeiro mandato. Fortalecer ainda mais a saúde, nossa parceria público-privada e continuar as atividades de atendimento do SUS e nos exames ofertados pela Secretaria de Saúde”, defende.
O vereador, que se auto-declara recordista de emendas parlamentares durante o mandato de 2020-2024, também ressalta a importância de parceria com deputados para a viabilidade de projetos para a cidade.“É importante a gente possa ter parceria com alguns deputados que não vão vir ao município só em época de eleição, mas que vão estar assistindo o município durante os quatro anos também, caminhando junto” – destaca.
Perguntado sobre suas parcerias, o vereador cita o deputado estadual Doorgal Andrada e o deputado federal, Lafayette Andrada, fazendo ressalvas de que possui contato com diversos deputados: “a gente vai de gabinete em gabinete pedindo recursos para o município”, conta.
Questionado a respeito da relação entre os vereadores da cidade, Xuxu pontua que a relação é harmoniosa e pautada pelos interesses da população: “projetos que são polêmicos e que a gente vê que vai gerar mais discussão, a gente vota contra. O que vai trazer melhorias e qualidade de vida, a gente vota a favor”.
Sem retorno
A reportagem entrou em contato com o prefeito reeleito Wagner do Didico e com os vereadores eleitos Marcelo do Laudinor e Pivete, no entanto, não obteve resposta.
Edição: Gabriel Rios e Arthur Raposo Gomes
Imagem de destaque: Scarlet Freitas / Notícias Gerais
