MULHERES NA POLÍTICA: O ATUAL CENÁRIO FEMININO NA POLÍTICA DE SÃO JOÃO DEL-REI

Bruno Nascimento e Giovana Muniz

A vereadora de São João del-Rei, Lívia Guimarães, relata suas experiências e perspectivas sobre o atual cenário político do município. Em entrevista dada à reportagem, a parlamentar filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT), afirma que continuará na política – seja com ou sem mandato. Ela é graduada em Jornalismo pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e, até dia 31 de dezembro de 2024, exerce seu terceiro mandato no Poder Legislativo municipal.

Lívia disputou o cargo de prefeita nas eleições de 2024, ficando em terceiro lugar com 7.474 votos (14,91% dos votos válidos). A ex-candidata não saiu vitoriosa nessa primeira disputa eleitoral a um cargo majoritário, mas acumula ampla experiência na política local, tendo sido eleita pela primeira vez em 2012, ano em que o ex-reitor da UFSJ, Helvécio Reis, do mesmo partido, foi eleito prefeito da cidade.

Em vias de encerrar seu último mandato, a vereadora conta que, embora tenha ficado triste com a derrota, respeita a escolha da população e espera que o candidato eleito, Aurélio Suenes (PL), faça uma boa gestão. A jornalista ressalta ainda que mesmo sem mandato na câmara pelos próximos anos, não deixará de cobrar a nova gestão como cidadã.

Perguntada sobre como serão os próximos anos, ela responde que, no primeiro momento, pretende descansar, mas revela que recebeu propostas para continuar na política e está analisando: “independente disso, minha vida partidária continua. Minha vida de movimento social continua” – enfatiza a vereadora, acrescentando ainda que, o que muda é a trincheira. “Antes eu estava exposta na trincheira da câmara, agora vou estar em outras”, completa.

Os últimos anos do PT

O ex-prefeito e ex-companheiro de partido, Helvécio, fez uma gestão com ações lembradas até hoje em dia (tal como o plano de cargos e carreira dos servidos públicos municipais), mas também teve momentos de desgaste de imagem (tal como o embate quanto a asfalto no centro histórico), não tendo sido candidato a reeleição quatro anos depois. Naquela época, Lívia fez parte da base de seu governo. Já em 2016, com a eleição de Nivaldo Andrade, atual prefeito, a entrevistada passou a fazer oposição. Questionada sobre como enxerga ambas as gestões, a parlamentar explica que, hoje, percebe coisas que poderiam ter sido diferentes na gestão do ex-correligionário e também no próprio primeiro mandato.

Para ela, a gestão de Helvécio foi “muito mais ética e séria” do que os dois mandatos do atual prefeito, Nivaldo. A vereadora salienta a importância de separar as pessoas dos partidos, enfatizando que não é porque as pessoas são do mesmo partido, que elas pensam igual. “Política cada um faz de um jeito, eu faço de um jeito muito diferente do que ele (Helvécio) fez a gestão dele”, explica.

Em 2016, a então vice-prefeita Maria Cristina Lopes assumiu a cabeça da chapa majoritária do PT na disputa pelo Poder Executivo local, tendo sido acompanhada pelo então secretário, Rogério Bosco, enquanto candidato a vice-prefeito. Naquele ano, marcado também na história do Partido dos Trabalhadores por causa da interrupção do mandato presidencial de Dilma Rousseff, Maria Cristina obteve 5,47% dos votos válidos. Já em 2020, o assessor parlamentar Ancil Pinto foi o candidato a prefeito do partido, quando recebeu apenas 2,42% dos votos válidos, ao lado do candidato a vice-prefeito, Sálvio Penna. Ao ser perguntada se considera que a baixa votação do PT também foi sentida no pleito de 2024, Lívia discorda: “acho que a gente pode olhar tanto o copo meio cheio, quanto meio vazio. Em 2016 a votação foi ruim, em 2020 também, mas em 2024 a gente ficou com praticamente 15% do eleitorado”, reflete. Lívia, neste ano, foi acompanhada pela educadora e escritora Dani Muffato, que foi a candidata a vice-prefeita.

Ela destaca ainda o fato de a cidade ter muitos eleitores conservadores e que, além do antipetismo, há uma polarização em relação ao bolsonarismo: “ou eu sou um ou sou outro”.

A direita e as redes sociais

Perguntada sobre como o apoio do deputado federal bolsonarista Nikolas Ferreira (PL) ao candidato Aurélio Suenes impactou sua vitória, Lívia minimiza. Para a jornalista, o apoio do deputado não pesou na vitória de Aurélio. “Eu vi muita gente deixando de votar nele por conta do Nikolas e do apoio do Bolsonaro”.

Outro questionamento foi em relação ao crescimento da direita na “geração Z” e, de acordo com a vereadora, isso se atribui ao uso das redes sociais. Para ela, o uso das redes pela direita e extrema-direita simplifica debates complexos e foca no engajamento, sem o pudor de fazer debates de 30 segundos sobre assuntos delicados para ganhar visualizações. Complementa ainda com uma análise quanto a composição da próxima legislatura são-joanense: vários dos eleitos são “blogueiros” e que, citando o exemplo de Nikolas Ferreira, seus objetivos não são discutir assuntos de interesse público, mas sim fazer conteúdo para as redes sociais em detrimento da política.

Mulher na política

Lívia é a única mulher na atual legislatura que apresenta pautas progressistas: outras vereadoras, como Rosinha do Moto-táxi e Mara Protetora dos Animais são mais identificadas com o campo conservador. De acordo com a parlamentar, a partir de 2025, apenas a vereadora eleita, Cassi Pinheiro (PT), apresenta perfil de esquerda e pode trazer pautas do campo progressista.

Entrevista ocorreu no gabinete que Lívia ocupa na Câmara Municipal até dia 31 de dezembro de 2024 (Foto: Bruno Nascimento)

Sobre a sub-representação das mulheres na política, Lívia inicia contextualizado que, no primeiro mandato recebia perguntas frequentes como seu namorado deixa você ser vereadora?”. E continua: “as mulheres são ensinadas a não ocupar espaços de destaque, de liderança” – acrescentando ainda que o avanço do conservadorismo hoje, refletirá na diminuição da representatividade amanhã.

A vereadora desabafa contando que, em seu primeiro mandato, considerava um desafio ser mulher na política, mas após se tornar mãe em 2020, piorou: “é muito mais difícil ser mãe na política”.

De acordo com ela, o tratamento recebido na Câmara criou sua fama de “brava”, já que ela passou a reagir às tentativas de impedir o exercício de seu mandato através do silenciamento, intimidação e ataques. Como exemplos, ela cita a mudança do horário de reuniões para as onze e meia da manhã e até a apropriação de seus projetos. “Se eu não tiver uma rede de apoio, eu tô em casa fazendo almoço pro meu filho ir pra escola. O ambiente empurra a mulher para fora da política, principalmente as mães”, garante.

Além disso, a vereadora compartilha as ameaças e ataques sofridos, em razão do gênero e de suas posições políticas. Ao falar sobre o assunto, visivelmente emocionada, Lívia afirma que seu “calcanhar de Aquiles” é seu filho e que todos sabem disso. “Ler que seu filho devia morrer porque, supostamente, você defende o aborto é desanimador”, comenta ela em referência aos ataques sofridos após se abster na votação do projeto que instituía o dia do nascituro, ocorrida em outubro de 2023.

Avaliação

São João del-Rei é uma cidade onde a maioria dos políticos eleitos são de partidos conservadores, mas ainda assim, Lívia acreditou na possibilidade de ganhar as eleições. “Até o último momento, a gente acreditava que era possível” – mesmo sem ter feito aliança com grupos de centro-direita – “era uma possibilidade pequena, mas existia”, avalia. Ela revela ainda que, antes de se candidatar a prefeita, ouviu conselhos para se candidatar novamente ao cargo de vereadora, a fim de garantir sua reeleição, mas que preferiu candidatar-se à prefeitura e explica: “não faço política só para ganhar”.

Na visão da vereadora, o antipetismo foi um dos fatores que a impediram de firmar uma aliança mais ampla, juntamente com a questão financeira – uma vez que outros partidos, dispunham de mais recursos. De acordo com ela, não foi possível competir contra candidatura que oferecia bancar todas as despesas dos partidos que o apoiassem.

Jânia Costa e a(s) disputa(s) pela(s) prefeitura(s)

A eleição de 2024 em São João del-Rei foi marcada por campanhas intensas e disputas acirradas, com muita agitação nas ruas. Jânia Costa, candidata pelo Partido da Renovação Democrática (PRD), teve o apoio do deputado federal Dr. Frederico e se destacou como favorita em certos momentos. Ex-vereadora por três mandatos, a candidata chegou a presidir a câmara municipal entre os anos de 2009 e 2010, sendo a primeira mulher a ocupar a cadeira. Além disso, ocupou o cargo de secretária de Saúde na cidade de Tiradentes na gestão Nilzio Barbosa (MDB). Jânia já havia concorrido pelo Poder Executivo são-joanense em outras eleições (1996, 2016 e 2020), bem como também pela Prefeitura de Santa Cruz de Minas (2004) – nunca tendo sido eleita.

Com um discurso voltado à experiência na gestão pública e, principalmente, na área da saúde, pela qual é conhecida, Jânia obteve 16.888 votos (33,69% dos votos válidos) e ficou em segundo lugar na disputa. Mesmo sem conseguir a vitória, sua candidatura alcançou diversos apoios entre atuais vereadores. Contactada pela reportagem por semanas, a ex-vereadora não quis dar entrevista.

Após o resultado confirmado no dia 6 de outubro, no entanto, Jânia publicou em suas redes: “optei pelo caminho do acolhimento e da união. Lutei contra o preconceito, o ódio e a indiferença, mas não venci. Acreditei que o compromisso, o diálogo e a presença constante seriam suficientes, mas o resultado foi outro”.

Na mesma publicação, a candidata desejou sorte ao prefeito eleito e defendeu que ele governe pensando no bem de todos.

Foto: reprodução / rede social


Edição: Gabriel Rios e Arthur Raposo Gomes

Imagem de destaque: Bruno Nascimento

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