Ana Luiza Fagundes e Késsia Carolaine
Em 2024, segundo o Portal Vote LGBT+, no Brasil, houve cerca de 540 candidaturas de representantes da comunidade LGBTQIAPN+ disputando a eleição, tendo sido eleitos 237 nomes. No caso de cidades do Campo das Vertentes, em cidades como São João del-Rei, a direita saiu vitoriosa com grande vantagem, com a eleição de Aurélio Suenes (PL), que foi umas das figuras apoiadas por Nikolas Ferreira. A Câmara de Vereadores terá ampla base conservadora, já que das 13 vagas, a maior parte é ligada a pautas tradicionais e a partidos de direita. No entanto, foi eleita a arquiteta Cassi Pinheiro, de 38 anos, filiada ao PT, e que é assumidamente lésbica. Formada pela Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP) e com mestrado em Geografia Urbana pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), Cassi recebeu 1.261 votos e deve ser uma liderança em defesa de grupos minorizados na Casa Legislativa de São João del-Rei.
Algumas candidaturas que representam a comunidade LGBTQIAPN+ não tiveram sucesso eleitoral nas urnas. O jornalista Carlos Bem Gonçalves, 40 anos, formado em Jornalismo pela UFSJ, é mestre em Letras pela mesma instituição e em 2024 obteve o título de doutor em Linguística pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Carlos é uma das lideranças do “Movimento Gay do Campo das Vertentes”. Já foi candidato em outras eleições, sem êxito. Em 2024, candidato pelo PSOL, recebeu 262 votos. A professora Marina Campos, também do PSOL, foi outra candidata ligada à comunidade: ela recebeu 433 votos e também não foi eleita. Lunna Beaumontt (PT), mãe de santo e mulher trans, se candidatou pela primeira vez, e obteve 271 votos, tendo terminado o pleito como suplente da federação “Brasil da Esperança” (constituída, em São João del-Rei, pelo Partido dos Trabalhadores e o Partido Verde).
Num cenário cada vez mais conservador, que deu ampla maioria para candidatos de direita que defendem a pauta de costumes que retomou o slogan “Deus, Pátria e Família”, aqueles que se colocaram na disputa na defesa dos direitos de grupos minorizados e das pautas identitárias enfrentaram dificuldades.
Lunna
Candidata a vereadora durante as eleições municipais de 2024, Lunna Beaumontt comenta que, inicialmente, a pauta principal que a ingressou nesta eleição foi a de mobilidade urbana: “quando precisamos de representação política não encontramos, tínhamos aliados, mas nem todos fizeram algo”.
A sacerdotisa já atuou e atua em diferentes áreas, tendo uma relação de longa data com donos de aplicativos de entrega e motoqueiros da cidade. Entretanto, também aflorou a questão do gênero que estava adormecida desde sua militância com o movimento “Levante”, fazendo com que sua candidatura levantasse a bandeira de uma proposta menos caricata, das propostas de candidaturas de travestis na cidade.

Apesar da imaginada “imparcialidade” do ganhar realizar um mandato na Câmara para todos, é comum que os candidatos entrem na corrida eleitoral com suas pautas e ideais. “No fim das contas, todo mundo por interesse próprio, e isso reverbera na forma política ao longo do tempo e é estruturado politicamente ao longo do tempo”, pontua Beaumontt, que cobra pela real “representatividade” e “inclusão” nos partidos e outras instâncias políticas.
A deputada federal Duda Salabert (PDT-MG), em suas entrevistas expressou seu desejo de que seu mandato vá além das pautas identitárias. “Esses debates, no ponto de vista moral, estão reproduzindo uma lógica de nos reduzir, de nos caricaturar e de nos colocar exclusivamente para debater temas como Nikolas, que é um tema pequeno”, afirma Salabert em entrevista à “Folha de São Paulo”.
A congressista eleita em 2022, foca sua luta em três nichos: o da educação, o ambientalista e o dos direitos humanos. Duda é professora de formação e acredita que a educação pode levar não somente os membros da comunidade LGBTQIAPN+ a outros patamares, mas também pavimentar um Brasil melhor.
Marina
A professora de Geografia Marina Campos se candidatou esse ano para vereadora pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). À reportagem, ela narra o próprio início histórico na política. “Eu nasci e cresci na roça e na roça eu já aprendi bastante sobre os trabalhos coletivos. Então a gente, meu pai era sindicalista e rural e os processos produtivos na roça eram bem coletivos, sabe? Então, eu lembro que o arroz, por exemplo, a gente sempre plantava, cuidava em coletivo, com a comunidade ao redor, lá na roça. E sempre era a colheita em conjunto, essa colheita de arroz sempre era em conjunto”.
Além disso, ela relata também outro fato familiar: parte de sua família fundou o Partido dos Trabalhadores (PT). Sua avó, foi a primeira candidata à prefeita pelo PT no município de Coronel Fabriciano, localizado a cerca de 387 quilômetros de São João del-rei. Apesar do histórico político em sua família, Marina revela que nunca quis pleitear um cargo político alto. “E nunca foi, da minha parte, uma alta indicação para pleitear um cargo. Sempre foi uma síntese coletiva da necessidade que a gente tem mesmo de trazer as nossas pautas urgentes de sobrevivência cotidiana para o cenário político”, explica.
Ela ainda complementa: “então, como a gente falou na militância, tarefa dada é tarefa cumprida. Então, mais do que um desejo pessoal ou individual de estar ocupando um cargo político, é o reflexo da escolha que as próprias lutas coletivas que eu faço parte colocam enquanto necessidade de um lugar a ser ocupado, importante de ser ocupado”.

Desde 2018, quando Jair Bolsonaro ganhou a corrida para presidente do Brasil, muitos discursos vieram à tona como “ideologia de gênero”, “banheiro unissex” e a “doutrinação de estudantes” nas escolas. As agressões verbais e físicas em professores infelizmente começou a se tornar rotineira.
Marina, diz que que não sofreu nenhuma represália por suas ideologias políticas, porém, sofreu agressão moral por outros motivos. “Eu não tive problema, nesse sentido, com a escola. Já tive problemas em outras ocasiões, de trabalhar em escola e sofrer assédio moral por fazer greve, ou por conseguir mobilizar a greve na escola que trabalhei há dois anos: uma escola que não tinha greve há mais de 20 anos, e a gente conseguiu fechar a escola, com uma greve contra o (governador Romeu) Zema (NOVO), com uma direção extremamente bolsonarista, que perseguiu mesmo, ficou indignado. Mas, do ponto de vista das eleições em si, eu não passei por isso dentro de sala de aula, na escola em que eu trabalho, pelo contrário, as pessoas foram muito, mesmo as de opiniões contrárias, foram muito fraternas em relação a esse processo eleitoral”, relembra.
São João del-Rei é uma cidade extremamente religiosa, colonial e, consequentemente, a população tende a ser mais conservadora. Para Marina, um dos maiores desafios de sua campanha eleitoral, foi se manter firme nas pautas que acreditava como a legalização do aborto, mesmo com o avanço da extrema-direita.
Carlos
À reportagem, Carlos Bem narra que seu interesse na política começou anos atrás, quando fundou o “Movimento LGBTI+ de São João del-Rei e Região Campo das Vertentes”: a intenção de ter uma organização em prol dos direitos da população LGBTQIA+ foi em consequência de uma agressão que um amigo sofreu por ser gay. Recentemente, o movimento completou 18 anos e continua sendo símbolo de resistência e luta.
Um dos tópicos que a política vem trazendo nos últimos anos, principalmente a esquerda, é o identitarismo. Segundo o “Politize”, o identitarismo tem o significado de “agrupação de pessoas com características similares como orientação sexual, etnia, classe social entre outras lutas”. O identitarismo surgiu nos anos 70, criado por um grupo feminista, denominado “Comabhee River Collective”. O coletivo era formado por mulheres negras e lésbicas que sentiam que suas pautas não eram representadas pelo movimento feminista da época, que era predominantemente branco.
No Brasil, o identitarismo começou a entrar em discussão devido a movimentos sociais globais como, Black Lives Matter e o Mee Too. Em 2018, a discussão se fortaleceu devido às eleições e os debates políticos que estavam sendo pautados naquele ano. Quando se discute pautas identitárias, a maior crítica é a possível segregação que causa: ao invés de lutarem por uma causa que abrange à massa, as lutas acabam sendo separadas.

Para Carlos Bem, a esquerda, atualmente, continua não querendo lutar pelas causas identitárias, principalmente em cidades do interior, onde a população tende a ser mais conservadora. Discursos como “pessoas LGBTQIA+ vão destruir as famílias”, distribuição de “kit gay” nas escolas, além do uso da religião para enfatizar um discurso de ódio contra essas pessoas, foi uma “grande carta na mão que a extrema-direita usou e ainda usa em períodos eleitorais”, e o discurso não permaneceu apenas no âmbito nacional e estadual, mas também, municipal.
Como mencionado anteriormente, neste ano, foram eleitas 237 pessoas da comunidade, sendo 233 parlamentares e 3 chefes de Executivo municipal, de 19 partidos políticos. O Partido dos Trabalhadores (PT), Partido Social Democrata (PSD) e o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) lideram o ranking. Segundo os dados levantados pela organização “Vote LGBT”, 50,4% (ou seja, 119 pessoas) são da esquerda; 29,7% (70 pessoas) são do centro e, por fim 19,9% (47 pessoas), são de direita.
A direita na política é conhecida pelo conservadorismo e a valorização da família tradicional. Quando se trata dos direitos da população LGBTQIA+, a direita ou se abstém ou muitos são contrários. Na visão de Carlos Bem, pessoas LGBT+ da esquerda não conseguem ter um diálogo com pessoas LGBT+ do centro e da direita e que isso é um empecilho pela luta de causas em comum.
Walesca
Após o fim da Ditadura Militar (1964-1985) no país, houve o surgimento dos primeiros partidos e o sentimento coletivo de que agora vivemos em uma democracia onde todos temos voz. Entretanto, somente em 1992 houve a primeira vereadora trans eleita, Kátia Tapety no Piauí e anos mais tarde viria demais candidaturas eleitas como Duda Salabert (PDT) e Erika Hilton (PSOL).
Atualmente, temos visto mais frequentemente, grupos minorizados se lançarem publicamente atrás de defender seus ideais, porém pouco se fala da violência que os acompanha para chegar a este ponto. Walesca Teixeira (PT) recebeu 513 votos sendo eleita vereadora em Dores dos Campos, se tornando a primeira parlamentar transgênero da câmara da cidade e segunda mais votada no pleito.

Segundo a costureira, o enfoque das pautas discutidas nunca era direcionado às classes marginalizadas: por isso, sua principal luta, a partir de janeiro de 2025, é construir políticas públicas que não chegaram a ela, porém espera que chegue para uma nova geração, que irá ocupar esses espaços futuramente: “desejo fazer políticas públicas que dão apoio e assistência para essas pessoas”. Walesca conta que, devido à falta de estrutura e acolhimento, ela teve que abandonar a escola, resultando em uma evasão que ela corre atrás para recuperar. Sobre esse assunto, é importante pontuar que ela não está sozinha.
Uma pesquisa realizada pela Rede Nacional de Pessoas Trans no Brasil, de 2017, apontou que 82% dos transexuais no país abandonam o Ensino Médio entre os 14 e 18 anos, entre as principais causas estão o preconceito e as agressões sofridas por estudantes. Este percentual se agrava em cidades menores, onde persevera discursos conservadores e uma população que não está aberta ao diálogo.
Ao ingressar no meio político, suas competências foram questionadas e colocadas a prova. Durante a corrida eleitoral, Walesca enfrentou desafios, sendo constantemente atacada – não somente pela sua escolaridade, mas principalmente por ser quem é. “Faltou muita coisa, faltou dinheiro, faltou apoio, houve muitas faltas […]. Sofri ataques constantemente e pensei em desistir”, desabafa. Ela mostra à reportagem, então, mensagens recebidas durante o período de campanha.
Além das agressões morais, muitos obstáculos podem aparecer durante uma campanha política. Segundo a pesquisa da organização não-governamental “Vote LGBT+”, a maior dificuldade das candidaturas de pessoas LGBTQIA+ é o apoio financeiro que não é suficiente. Além disso, muitos partidos tentam limitar essas pessoas às pautas da comunidade, porém, esses candidatos se eleitos, por não terem tido acesso a direitos básicos, centralizam suas lutas para a saúde, educação, moradia.
Pergunta sobre os próximos passos, Walesca diz estar fazendo cursos, estudando melhor sobre leis municipais, para que assim, ela possa realizar um mandato positivo em prol da população de Dores de Campos. “Sei que a luta só começou. Mas de uma coisa eu entendo muito bem que é a necessidade da população. Estarei dentro da Câmara Municipal dando voz a todos e lutando para que toda a nossa comunidade tenha uma vida melhor e sejam melhor representados”, afirma.
Cassi
Em São João del-Rei, o resultado das eleições surpreendeu algumas pessoas, enquanto outras nem tanto. Na Câmara Municipal, por exemplo, apenas duas candidatas de partidos progressistas conseguiram cadeiras. A arquiteta Cassi Pinheiro, foi uma das eleitas com 1.261 votos.
À reportagem, ela relata que, no dia da eleição, apesar da vitória e de ter ficado feliz, houve também o sentimento de luto, pois a esquerda não conseguiu tantas cadeiras na câmara. “Na verdade, foi um misto de emoções, porque ao mesmo tempo em que a gente ficou muito feliz com a eleição, com a votação expressiva, a gente viu que por outro lado, a gente não tinha conseguido ganhar o partido (com mais cadeiras e votos)”, comenta.

Além da vitória de um candidato do Partido Liberal na Prefeitura de São João, a Câmara Municipal também não se distancia muito do cenário conservador, sendo a maioria candidatos do centro e da direita, o que pode dificultar a aprovação de pautas mais polêmicas. Cassi diz que, apesar disso, continuará defendendo pautas em que acredita e que sente que não está sozinha, já que muitas pessoas acreditam nela.
Edição: Arthur Raposo Gomes
Imagem de destaque: reprodução / Freepik


