Geovane Carvalho e Lucas Reis
As eleições municipais de 2024 aconteceram no dia 06 de outubro, trazendo algumas mudanças no cenário político de São João del-Rei e preservando a atuação de nomes conhecidos na Câmara Municipal. Sete dos atuais vereadores foram reeleitos para o mandato de 2025 a 2028, consolidando a continuidade de boa parte do Legislativo.
No executivo, a impossibilidade de reeleição do atual prefeito, Nivaldo de Andrade, após dois mandatos consecutivos, abriu espaço para uma nova liderança. Aurélio Suenes (PL) foi eleito com 50,40% dos votos, superando Jânia Costa (PRD), que obteve 33,69%, e Lívia Guimarães (PT), promessa da esquerda local, que conquistou 14,91% dos votos.
O resultado reflete a força da direita e do centro no município, com a esquerda enfrentando dificuldades tanto no executivo quanto no legislativo. Apenas duas das 13 cadeiras da Câmara Municipal serão ocupadas por representantes de partidos alinhados a um campo progressista: Sinara Campos (PV) e Cassi (PT). Esse cenário é similar ao da gestão atual, em que apenas Lívia Guimarães e Rogério Bosco (PT) representam essa vertente.
As eleições também suscitam reflexões sobre a influência política da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e seu impacto nas disputas locais. Embora parte de professores, técnicos e estudantes esteja associada a movimentos políticos de esquerda, essa representatividade não se traduz em poder político significativo no município.
Segundo dados do TSE, apenas 11,96% do eleitorado de São João del-Rei possui ensino superior completo, o que corresponde a 8.465 eleitores, enquanto 6,56% (4.645 pessoas) têm ensino superior incompleto. É importante notar que nem todos pertencem à UFSJ ou ao Uniptan Afya, e, dentro desse grupo, há diversidade ideológica.
Ainda assim, prevalece no imaginário popular a ideia de que universidades federais, especialmente a UFSJ, são espaços predominantemente alinhados à esquerda. Esse estereótipo alimenta debates na cidade sobre a real influência política da instituição.
Lívia Guimarães: da UFSJ à Câmara Municipal
São João del-Rei é, historicamente, uma cidade de política conservada, entretanto, alguns nomes se destacaram e receberam apoio de uma ala de movimentos universitários. Helvécio Reis, professor universitário apresentado e ex-reitor da UFSJ, foi prefeito entre 1° de janeiro de 2013 e 31 de dezembro de 2016, pelo PT. Outro nome representante do PT é Lívia Guimarães, que termina seu terceiro mandato consecutivo na Câmara em 2024 (mandato este conquistado sendo a candidata mais votada nas eleições de 2020).
Em entrevista, ao ser perguntada sobre a aproximação da vereadora com a parcela de esquerda da UFSJ durante sua campanha política em 2024, Lívia responde que a proximidade é uma consequência de sua trajetória política e como ex-aluna da instituição, além das políticas e do trabalho realizado nos últimos anos.
Ela explica que não recebeu apoio da UFSJ enquanto instituição, mas sim de alguns integrantes dela, que são parte importante do seu eleitorado. Enfatiza, ainda, o impacto negativo da greve que ocorreu no início do ano para seu projeto de campanha, com a conturbação do prazo de transferência e da própria campanha eleitoral, e a nova data das férias, com seu término muito próximo à data da eleição.
A vereadora defende a universidade de críticas, apontando que a cidade não aproveita o potencial da universidade. Ela conta que, por diversas vezes, chega a escutar que falta indústria para desenvolvimento da cidade, mas afirma que a UFSJ pode exercer essa função, por ser “a que mais emprega, mais traz pessoas para cá, e a que mais faz girar o orçamento alto para São João del-Rei”.
Lívia observa um cenário positivo para a cidade nos próximos anos com a mudança de currículo nos cursos de graduação que torna obrigatório a participação de alunos em projetos de extensão, pois julga que será uma forma eficiente de melhorar a percepção local sobre a UFSJ, devido à maior participação dos universitários nos órgãos públicos e privados da cidade. Mas ressalta que essa atuação da UFSJ já existe na cidade, ao elencar projetos que beneficiaram instituições e organizações de São João, como a Associação dos Catadores de Material Reciclável (ASCAS) e o Hospital Nossa Senhora das Mercês, onde acontece o plantão pediátrico, com participação de estudantes da universidade.
Entretanto, Lívia reforça a necessidade de uma participação maior da universidade, para além dos projetos de extensão. Ela defende a necessidade de maior participação política dos universitários na cidade ao afirmar: “se você mora aqui, você deve votar aqui”. A jornalista exemplifica que as reclamações em relação à infraestrutura, como transporte e saúde, são reforçadas pelos alunos, porém, muitos ainda não votam na cidade.
Livia traz a importância do voto não apenas para a eleição do Poder Executivo, mas para formar um Legislativo que representa mais estes alunos. Afirma que com uma participação maior da parcela de esquerda da universidade, mais candidatos do campo progressista poderiam ser eleitos, o que influenciaria a conjuntura da Câmara Municipal. Frisa que além dos resultados eleitorais, isso representaria um aumento do capital político deste campo, pois teriam uma quantidade maior de pessoas respaldando um projeto.
Apesar de todos os benefícios positivos, o que mantém esse estranhamento da população local com a UFSJ? Para Lívia, isso acontece, em parte, por diferentes linguagens de comunicação. Enfatiza que o meio de comunicação mais consumido pelos moradores da cidade é o rádio. Entretanto, Lívia aponta que a comunidade universitária estaria focando mais nas redes sociais e sites institucionais, plataformas que não dialogam tanto com os cidadãos, e que esse problema pode ser atenuado com novas estratégias de comunicação. Ela ainda aponta outra perda nessa relação entre universidade e são-joanenses, o “Inverno Cultural”, que não teve edição neste ano. Segundo informações divulgadas pela organização do evento, o motivo para tal decisão foi a falta de orçamento institucional.
Com o fim de seu mandato, Lívia diz que irá descansar por um período da política institucional e da vida pública, já que havia dedicado muitos anos a ela até agora. Mas reforça que, após esse período, continuará atuando politicamente, agora de outras formas, através de movimentos sociais e do próprio partido.
Nova promessa da esquerda são-joanense
Em entrevista, Cassi, vereadora eleita de São João del-Rei, ressalta sobre sua trajetória durante a campanha, especialmente sobre a proximidade com a Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e como a instituição e seus movimentos estudantis desempenharam um papel crucial no processo eleitoral.
Cassi elenca fatores para sua eleição, como a transferência do eleitorado de Lívia Guimarães, por já possuírem uma certa relação política. Para ela, a parcela que votava em Lívia para a Câmara “ficou um pouco órfã de representação política”. A futura vereadora também pontua que sua relação com a UFSJ foi outro fator que deu força à sua candidatura. Ela lembra que realizou mestrado em Geografia na instituição e participou ativamente na militância em movimentos como a “UFSJ pela Democracia”. Cassi também aponta outro ponto forte para sua vitória nas urnas, sendo o vínculo político com a deputada federal do PT, Ana Pimentel, professora de Medicina da UFSJ.

Diferente de Lívia, Cassi não nasceu na cidade, mas acredita que desde que chegou em São João del-Rei, a aproximação com a universidade e os movimentos políticos formaram o caminho para chegar ao cargo de vereadora. A vereadora do PT revela que o distanciamento entre universidade e comunidade são-joanense foi uma pauta da sua campanha. Assim como Lívia, ela afirma que a universidade sustenta a cidade de diversas formas, seja economicamente, ou incentivando o turismo e desenvolvendo conhecimentos revertidos para a cidade. “São João não seria São João sem a UFSJ”, garante.
Cassi adianta que já esteve em conversa com o prefeito eleito, Aurélio Suenes, e que pensaram em possibilidades de aproximar a prefeitura e a universidade, criando uma aliança que seja benéfica para ambos os lados.
“Eu me coloco um pouco nesse papel de tentar fazer essa ponte, entender e propor políticas que ajudem a fazer essa parceria se formalizar”, declara. A vereadora eleita também reflete quanto a importância da obrigatoriedade nos currículos de formação dos cursos de graduação das horas de extensão. Para ela, a prefeitura, se estiver disposta, pode aproveitar desse momento para beneficiar a comunidade.
Cassi enxerga que sua formação como mestre em Geografia e sua graduação em Arquitetura e Urbanismo são traços seus que irão influenciar em sua atuação na Câmara. Ela afirma: “a cidade está completamente carente de política pública para o urbanismo, de fato, desenvolvimento urbano, desenvolvimento urbano sustentável” e que na área há um “universo de possibilidades e de demandas para a universidade”.
A instituição enquanto agente político
Atual presidente do Sindicato de Docentes da UFSJ (ADUFSJ S.Sind.) e professora no curso de Ciências da Computação, Carolina Xavier aponta que, neste ano, a entidade sindical foi uma das organizadoras do debate eleitoral entre candidaturas que concorreram pela Prefeitura de São João del-Rei. Nesse momento, para ela, a UFSJ foi colocada em certa centralidade no cenário político da cidade. Essa ação foi vista por Carolina como uma oportunidade para estabelecer um vínculo mais estreito entre a comunidade universitária e aqueles que ocupariam cargos executivos no município, ao contrário do que ocorre na gestão atual.

Sobre a percepção de um distanciamento entre a UFSJ e a comunidade, Carolina reconhece a existência de um “vácuo”, mas acredita que a inserção de atividades de extensão obrigatórias nos cursos tende a diminuir essa lacuna. Para ela, é fundamental que as universidades se tornem mais acessíveis e abertas à sociedade, ressaltando a importância da convivência e interação entre ambos os mundos. Como ela afirma, “existe muita pesquisa encastelada e que não entende que a gente precisa da sociedade para existir”, demonstrando a importância que a atual presidente do ADUFSJ agrega para uma participação ativa, ouvinte e participante em relação às comunidades.
Durante a conversa, ela é perguntada sobre a estigmatização das universidades enquanto instituições de esquerda e qual sua visão sobre o assunto. Além da perceptível variedade de posicionamentos dentro do espectro político, seja dos estudantes, seja dos servidores e trabalhadores das instituições, ela afirma que a instituição em si não tem um posicionamento, muito menos é partidária. Carol traz a reflexão de que este rótulo é dirigido a eles devido às pautas com maior adesão dentro das instituições de ensino, que são questões de identidade e direitos humanos, por exemplo, e que estas pautas costumam ter mais visibilidades que outras, até mesmo por não se restringirem apenas à universidade. Ela considera que para que este estigma mude, é necessário muito debate. Contudo, “sem tolerar o intolerável”, se referindo a discursos de ódio.
Ela acredita que existe um cenário propício para uma maior participação da UFSJ na vida da comunidade, tal como ajudar na idealização de políticas públicas, mediante levantamento e análise de dados, por exemplo, de maneira científica, com pesquisadores que dominam os assuntos, combatendo o crescimento de um pensamento anticientífico, como ela mesmo afirma. É possível ainda levar conhecimento técnico e científico para a população. Carolina finaliza apontando que a partir do momento que este espaço de diálogo for aberto e consolidado, será muito benéfico para ambos.
Movimentação estudantil: da universidade para as ruas
Lucas Antunes é militante do “Levante”, organização da juventude do Partido dos Trabalhadores (PT) e discente do curso de História da UFSJ. Perguntado sobre a relação ao resultado das eleições, o estudante afirma que a conjuntura atual não se mostra favorável para uma atuação efetiva da vereadora eleita Cassi, também do PT. E que, além de uma Câmara Municipal majoritariamente conservadora, a saída de Lívia Guimarães da política institucional também afeta a atuação nos próximos anos. Para Lucas, Lívia tinha um bom diálogo com o público universitário mais à esquerda e já dispunha de certa influência na Câmara.
Lucas também aborda o papel do Movimento Estudantil nas eleições e na política de São João del-Rei, ressaltando que as juventudes organizadas têm sim o poder de influenciar as discussões políticas. Para ele, é fundamental que as pautas da juventude saiam dos muros da universidade e sejam discutidas de maneira mais ampla, com um público maior.
Ele menciona o trabalho realizado pelo “Levante” durante as campanhas de Lívia Guimarães para a prefeitura e de Cassi para o Legislativo, destacando que o movimento estudantil foi responsável por organizar debates e propor um projeto popular voltado para as questões da juventude são-joanense.
“Debatemos em plenária aberta um projeto popular para a juventude são-joanense”, afirma, destacando a importância do engajamento ativo dos estudantes nas discussões políticas locais.

(Foto: Lucas Reis)
Edição: Arthur Raposo Gomes
Imagem de destaque: reprodução / ADUFSJ
