“MORALIZAR E PROFISSIONALIZAR A ADMINISTRAÇÃO” É UMA DAS METAS DO PREFEITO ELEITO DE SÃO JOÃO DEL-REI; CONFIRA A ENTREVISTA EXCLUSIVA

Laura Brêtas e Maria Luiza Maia

O empresário Aurélio Suenes (PL) foi eleito em 06 de outubro de 2024 prefeito de São João del-Rei, com 25.265 votos (50,40%), derrotando as candidatas Jânia Costa (PRD) e Lívia Guimarães (PT). Mas não é um estreante na vida pública. Tem uma longa trajetória política na sua cidade natal, Resende Costa, onde já foi vereador, prefeito em duas gestões (2013 a 2016 e 2017 a 2020), e já se candidatou a deputado estadual pelo Democracia Cristã (DC), em 2022, sem êxito, quando somou 15 mil votos. Atuando no ramo imobiliário na região e em São João del-Rei, resolveu dar uma guinada na sua carreira política, com a candidatura pelo PL, do ex-presidente Jair Bolsonaro, à prefeitura são-joanense. Abandonou o tom mais moderado de centro-direita de suas outras campanhas e assumiu uma postura mais conservadora de direita, alinhada a figuras com grande visibilidade no cenário político nacional e estadual, como a do deputado federal Nikolas Ferreira, que foi um de seus apoiadores, e do próprio Bolsonaro.

Acompanhando de perto os trabalhos da equipe de transição, o prefeito eleito Aurélio Suenes (PL) e o vice eleito Rogério Cury (também do PL) receberam a reportagem, para falar das prioridades da sua gestão que se inicia em 1º de janeiro de 2025, dos desafios que terá pela frente e também um pouco da sua trajetória política.

Durante a entrevista, ele reforçou que pretende implantar políticas públicas voltadas para questões que são hoje cruciais para a cidade e que foram bandeiras na sua campanha, como os problemas relacionados à área da saúde, que funciona de forma precária no município, bem como resolver tanto a falta de abastecimento como a qualidade da água da cidade, hoje a cargo da DAMAE.

“Moralizar a administração municipal”

Aurélio afirma que uma das prioridades é “moralizar a administração municipal”, com pessoal qualificado. “Moralizar e profissionalizar a administração pública: colocar as pessoas certas no lugar certo. Os desafios são gigantescos, por isso precisamos ter pessoas comprometidas que tenham uma visão de fazer as coisas acontecerem”, comenta Aurélio. O prefeito e sua equipe pretendem iniciar o mandato com uma organização da “casa”, aplicando a ideologia de direitos e deveres: é dever deles prover os direitos básicos à população, ao mesmo tempo que a população deve cumprir com o seu papel.  

Outro ponto ressaltado pelo prefeito eleito diz respeito à relação entre direitos e deveres, que, na sua opinião, não é obrigação apenas de quem está no poder, mas deve ser estendida à população, já que impacta em problemas estruturais da cidade como o abastecimento de água e o setor de saúde. “O principal desafio é romper uma cultura enraizada dentro da população onde não se precisa cumprir horário, onde não se tem compromisso com nada e tudo parece muito desorganizado e bagunçado, e ninguém está nem aí pra isso. […] É preciso tomar as rédeas da cidade e da administração. […] E trazer a população para cumprir com as suas obrigações, como a inadimplência do DAMAE de mais de 40%”, frisa.

O DAMAE, que é o Departamento Autônomo Municipal de Água e Esgoto, é um dos principais alvos de insatisfação dos moradores da cidade. Isso ocorre devido à falta de abastecimento em diversos bairros, além da má qualidade de tratamento da água. Na ocasião, os representantes eleitos à próxima gestão afirmam que o trabalho para recuperação do DAMAE será difícil, podendo levar mais de um mandato.

“Eu acho que o maior desafio é estrutural, precisa ter um novo sentimento. Tanto interno quanto de pertencimento externo. Hoje, você ouve a própria população falando mal do governo e até da própria cidade; isso é falta de pertencimento. Agora, pontualmente, os desafios passam por todas as áreas. O primeiro deles é saúde, temos um problema sério de organização do setor de saúde, falta de investimento e estratégia. […] Precisa-se de muito mais que isso, geração de renda e emprego, mobilidade urbana, saneamento, o lixão a céu aberto”, comenta Aurélio.

Questionado sobre as ações voltadas à área de saúde, o prefeito eleito destaca que é necessário maior investimento financeiro e organização. Ele defende que é preciso investir na promoção e prevenção da saúde, organizar as Unidades Básicas de Saúde (UBS), adotar estratégias da saúde de família e comunidade que atinja mais territórios do município, ao mesmo tempo em que habilita mais profissionais. “Colocar tudo para funcionar plenamente, fazer o dever de casa porque hoje a maioria dos atendimentos que a UPA faz não deveria ser na UPA, mas sim nas UBS. O grande problema começa por aí, a falta de atendimento que cabe ao município já que isso é o básico. É claro que é preciso mais investimento na saúde”, diz o prefeito. Apesar de falar de implementar mudanças, não chegou a citar de que forma pretende levantar recursos para os investimentos, se serão do próprio município ou se precisarão de apoio de emendas parlamentares ou de outras fontes.  

Postura ambígua em relação ao nivaldismo

Na entrevista, apesar de fazer críticas explícitas à atual gestão, sem mencionar o nome do prefeito, constata-se uma postura ambígua em relação aos políticos tradicionais de São João, como é o caso de Nivaldo Andrade, que hoje exerce o seu quinto mandato à frente do Executivo Municipal.

Aurélio, ao longo de sua campanha, negou qualquer aproximação com o atual prefeito. Ao contrário, para manter a imagem de ser uma chapa de direita que reforça a distância da política tradicional, ele e sua equipe chegaram a fazer postagens e dar entrevistas reforçando que não tinha qualquer vínculo com o nivaldismo. Mas, agora eleito, deverá contar com o apoio do filho do prefeito, Weriton Andrade (PSD), que foi reeleito, com mais de 1.700 votos. Mesmo durante a campanha, parlamentares historicamente ligados a base nivaldista apoiaram Aurélio, que também teve apoio do PSDB, partido atual de Nivaldo.

Nivaldo Andrade já está no seu quinto mandato à frente da Prefeitura de São João del-Rei. E, ao longo de 20 anos à frente do Executivo, o que se constata é que a cidade enfrenta problemas estruturais nas áreas de saúde, educação, infraestrutura, sem contar na falta de políticas públicas voltadas para a cultura e o turismo. Em todas as gestões, tem sido alvo de ações seja por parte de vereadores ou mesmo do Ministério Público. No atual mandato, foi convocado a participar da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre alimentos vencidos na Casa Lar, envolveu-se em polêmicas nas redes sociais – colocando em jogo o nome da cidade, e quase teve seu mandato cassado pela Justiça.

A população são-joanense votou em Aurélio com e expectativa de renovação não somente dos quadros políticos da cidade, mas de mudanças na gestão do município. O prefeito eleito quis deixar claro que ele tem um perfil diferente do atual prefeito. “Nós (Aurélio e Nivaldo) temos perfis diferentes: a gente (chapa Aurélio e Rogério do PL) conduz de um jeito e ele de outro. Eu penso que temos que ser mais construtivos, chamar a população para a responsabilidade”, diz Aurélio.

Apesar de apontar divergências em relação à forma como Nivaldo administra a cidade, Aurélio já assume uma posição mais conciliadora, sem querer criar polêmicas com o atual prefeito. “Se a gente ficar olhando para o atraso, para o que foi de errado, a gente vai perder o foco de olhar as oportunidades que podemos oferecer à população”, finaliza Rogério. 

Aurélio: de centro moderado à direita

Aurélio Suenes é o novo nome para a prefeitura de São João del-Rei. Eleito com 25.265 votos (50,40%), Aurélio e o vice, Rogério Cury, ambos do Partido Liberal (PL), prometem renovar a cidade. Com uma longa trajetória política, principalmente em sua cidade natal, Resende Costa, onde foi vereador, prefeito em duas gestões, Aurélio Suenes já passou por vários partidos – PSDB, PRTB, PSD, DC – até se filiar ao PL. Depois de ingressar no Movimento “Direita Minas”, conheceu o seu próximo vice, Rogério Cury, e articularam a chapa que disputou e venceu a eleição em São João, ao contar com apoio de forças da direita, como Jair Bolsonaro, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) e o deputado estadual Bruno Engler (PL).

Aurélio Suenes nasceu em Resende Costa, onde se tornou empresário e empreendedor no ramo imobiliário. Começou a sua trajetória política em 2004, como vereador mais votado. Em 2008, aliou-se ao Doutor Paulo (PSDB), como vice, para a prefeitura de Resende Costa, mas não foram eleitos. Já em 2012, Aurélio tentou novamente a prefeitura, dessa vez como prefeito, e foi eleito pelo Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB), colocando-se como a “terceira via” em relação à polarização existente tanto no Brasil como na cidade entre PT versus PSDB. Após a conclusão de seu mandato, em 2016, ele foi reeleito pelo Partido Social Democrático (PSD). O atual prefeito de São João tentou candidatura para deputado estadual nas eleições de 2022 pelo Democracia Cristã (DC), mas ficou como suplente.

A guinada à direita veio com a participação do Movimento “Direita Minas”, quando também conheceu o seu futuro vice Rogério Cury, ex-policial civil, que é de Belo Horizonte, mas também se mudou para São João del-Rei. Ele começou a participar ativamente da política como militante em 2016, após conhecer as propostas e ideais de Jair Bolsonaro. Após se aposentar, Rogério tornou-se coordenador do “Movimento Direita Minas”, onde conta ter trabalhado nas campanhas de Júnior Amaral, eleito deputado federal, Bruno Engler, eleito deputado estadual, e de Bolsonaro como presidente, em 2018. Dois anos depois, em 2020, também apoiou a candidatura para vereador de Nikolas Ferreira como o 2º vereador mais votado em Belo Horizonte. Em 2022, com o crescimento do PL, em função de Bolsonaro, Rogério recebeu o convite para ser presidente do partido em São João del-Rei.

O prefeito e vice eleitos se conheceram no segundo turno das eleições de 2022. Porém, apenas em março de 2023 que o “Movimento Direita Minas” aproximou Suenes e Cury iniciando o planejamento de uma possível chapa para as eleições deste ano. Quando perguntados o que atraiu ambos para São João del-Rei, respondem acreditar que a Prefeitura veio como um propósito de Deus, mas entendem que enfrentarão grandes desafios.

“No meu caso, eu sou de Belo Horizonte e, depois que me mudei pra cá (São João del-Rei) e me aposentei, vi as mazelas que foram me desagradando. A questão de obras […], a Avenida 31 de março, onde eu moro, a questão da saúde, se precisar de uma saúde não tinha. […] Então, assim, é meio que um protesto que precisamos mudar isso daí.”, diz Rogério. É uma reclamação geral da população são-joanense que a saúde pública na cidade é precária. Da mesma forma, as obras intermináveis na Avenida Leite de Castro e Avenida 31 de março, além da má qualidade das vias, prejudicam a mobilidade urbana na cidade.  Embora Rogério participe ativamente de projetos políticos tanto regional quanto nacional, ele afirma nunca ter pensado em se candidatar ao cargo de prefeito da cidade.

“Nunca pensei em ser prefeito. Eu acho que é muito importante ter uma pessoa que já foi prefeito, porque do jeito que vamos encontrar a Prefeitura, se eu fosse o prefeito poderia perder talvez um ou dois anos. Com a experiência que o Aurélio tem e a capacidade de gestor, eu acho que São João del-Rei está muito bem representada”, revela.

Pluralidade de partidos: qual é o posicionamento de Aurélio?

É fato que Aurélio possui uma trajetória extensa e já se filiou a partidos de posicionamentos diferentes, variando entre centro e extrema direita. Foi filiado a partidos de centro, como PSDB e PSD, mas também já pertenceu a siglas de direita, considerados partidos nanicos, como o PRTB e o DC. Em 2008, foi candidato pelo PSDB; já em 2012, pelo PRTB; e, em 2016, pelo PSD; em 2022, disputou uma vaga na Assembleia Legislativa, pelo DC. Com postura moderada, não assumia posições alinhadas a uma direita mais articulada, até há alguns anos e, principalmente, depois de ingressar no PL em 2023, quando passou a defender bandeiras mais alinhadas ao bolsonarismo.

Ao ser perguntado pela reportagem sobre o que o aproximou do Partido Liberal, o prefeito eleito diz que manteve o seu posicionamento conservador, ligado às políticas de direita e liberal na economia. “A direita estava espalhada nos partidos, de forma geral. Com o surgimento do Bolsonaro, o posicionamento dele ficou mais claro com relação ao que era a direita mesmo. Então, ele se posicionou dentro do PL e as pessoas que se identificam com o tipo de política de direita também se posicionaram dentro da sigla PL”, afirma Suenes.

Apesar de possuir ideologias semelhantes às de Bolsonaro, Aurélio destaca que a sua postura e de Rogério dentro da prefeitura será equilibrada e republicana, dialogando com vereadores e deputados de todos os partidos, incluindo a oposição dentro da Câmara de São João del-Rei, por exemplo as vereadoras Cassi (PT) e Sinara (PV), e o vereador Gustavo Acacio (Podemos).  Nesse sentido, a chapa eleita diz que já houve uma conversa com todos os vereadores e que pretende priorizar o bem-estar da população são-joanense acima da briga partidária.

Educação: existirá um vínculo da Prefeitura com a UFSJ?

A Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) possui três campi na cidade mineira, promovendo desenvolvimento direto da região, além de fomentar a ciência, tecnologia e inovação na cidade. O vínculo entre a sociedade são-joanense e a instituição de ensino superior traz movimentações locais, uma vez que os mais de 3.500 alunos usufruem das diversas vertentes do comércio, entre eles o imobiliário. Além de oferecer a oportunidade da cidade se beneficiar dos projetos sociais de extensão.

“Um programa que nós criamos em Resende Costa, e pretendemos criar aqui logo no começo do mandato, é o programa de estágio remunerado em todas as áreas. Isso foi muito bom na época, chegamos a ter 12 estagiários remunerados. […] É uma grande oportunidade, tanto para a prefeitura quanto para os alunos que precisam dessas horas”, relata o Aurélio. Ele defende que é preciso investir na base da educação (escolas primárias, construção de creches e cursos técnicos) antes de investir no ensino superior.


Edição: Arthur Raposo Gomes

Imagem de destaque: reprodução / rede social

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