PERFIL DAS VEREADORAS ELEITAS EM SÃO JOÃO DEL-REI EM 2024 REVELA DIVERSIDADE IDEOLÓGICA E DESAFIOS PARA UMA MAIOR REPRESENTATIVIDADE FEMININA NA POLÍTICA

Camila Ferraz e Danielly Faustino

A representatividade feminina na Câmara Municipal de São João Del-Rei apresentou estagnação nas eleições municipais deste ano. Assim como no pleito anterior, apenas três mulheres conquistaram uma cadeira no Legislativo Municipal, ocupando parte das 13 vagas disponíveis. Ainda que seja um número relativamente baixo, as eleições de 2024 trouxeram maior diversidade ideológica entre as vereadoras, representada por Cassi Pinheiro (PT), Sinara Campos (PV) – ambas as vereadoras foram eleitas para o seu primeiro mandato na Câmara – e Rosinha do Mototáxi (Republicanos) – reeleita para o seu quarto mandato.

A reportagem traçou um perfil das três vereadoras eleitas em 2024 para o mandato de 2025 para 2028 e buscou entrevistá-las para saber o que pensam sobre o papel no Legislativo, a relação com o prefeito eleito e as prioridades dos mandatos, além das questões relativas à importância de maior participação feminina na política. Foram entrevistadas as vereadoras eleitas Cassi Pinheiro e Sinara Campos. Rosinha do Mototáxi não quis dar entrevista.

Reunião semanal na Câmara Municipal (Foto: Camila Ferraz)

Diversidade marca a representação feminina na Câmara

A cidade é marcada por uma forte presença religiosa, especialmente do catolicismo. Esse contexto contribui para um conservadorismo que influencia tanto os costumes quanto a política local.  Para analisar a sub-representação das mulheres na Câmara de Vereadores, é essencial observar os dados das eleições municipais dos últimos anos. A trajetória da presença feminina demonstra uma relação direta com os movimentos políticos nacionais.

As eleições de 2012, por exemplo, marcaram um avanço significativo na inclusão de mulheres na Câmara. Naquele período, o Brasil vivia sob o governo de Dilma Rousseff (PT), primeira mulher presidente do país. Na época, na disputa pela Prefeitura de São João del-Rei, foi eleito o professor Helvécio Reis (PT), que foi reitor da UFSJ em duas gestões, e derrotou Nivaldo Andrade, que já tinha sido prefeito da cidade em três mandatos. No Legislativo Municipal, houve um avanço na representatividade feminina, com a eleição de quatro vereadoras. No campo progressista, com a defesa de pautas feministas, foram eleitas Vera Polivante e Lívia Guimarães, ambas do PT. Na linha conservadora, conquistaram o mandato Jania Costa (PRTB) e Rosinha do Moto-Táxi (DEM). O número expressivo significou um índice de 30,76% de representatividade feminina, número relativamente elevado em comparação ao padrão nacional.

Em 2016, com o impeachment de Dilma e a ascensão de Michel Temer (PMDB), houve um recuo nas pautas progressistas no cenário nacional. Esse movimento se refletiu na política local, com uma queda significativa na presença feminina na Câmara, que passou a contar com apenas uma vereadora, Lívia Guimarães, ligada ao PT. Nivaldo Andrade (PSL) elegeu-se novamente prefeito para o seu quarto mandato. No governo de Jair Bolsonaro, em 2020, houve um leve aumento na representatividade feminina, com a eleição de três mulheres. Entretanto, essa representatividade era predominantemente conservadora: Rosinha do Moto Táxi (PSC) e Mara Protetora dos Animais (PSC). Somente Lívia Guimarães foi reeleita pelo PT.

Inserção das mulheres na política tem sido uma batalha histórica

A presença feminina na política é marcada por desafios históricos, mas também por trajetórias inspiradoras que revelam a força e a resiliência das mulheres em ocupar espaços de poder. Cassi Pinheiro ilustra bem essa jornada. Sua caminhada até a Câmara Municipal reflete uma construção política enraizada na militância social e no compromisso com a representatividade.

“Desde que eu cheguei aqui, fui me envolvendo com os movimentos sociais. Eu engravidei logo após minha chegada, e isso me levou à militância pelo parto humanizado. Minha avó materna também teve grande influência, e, com o tempo, me aproximei dos movimentos feministas, ajudando a fundar o Fórum de Mulheres das Vertentes”, relembra Cassi, evidenciando como sua vivência pessoal se entrelaçou com as causas coletivas.

O envolvimento com os movimentos sociais abriu portas para a militância partidária. A filiação ao PT, em 2018, foi um marco decisivo, especialmente ao lado de Ana Pimentel, professora efetiva na Universidade Federal de São João del-Rei e também uma figura ativa nos grupos feministas e do partido, que se elegeu deputada federal em 2022. A parceria com Ana Pimentel amadureceu, culminando na participação de Cassi como assessora regional do mandato da deputada eleita em 2022.

“Foi aí que eu, de fato, comecei a trabalhar mais efetivamente com política partidária”, conta. Durante esses anos, Cassi percebeu a importância de transformar as lutas sociais em ações concretas por meio da ocupação de espaços institucionais de poder. “Nossa luta na militância ganha muita força e tem muito mais sentido quando conseguimos ter representação nesses espaços. É onde podemos concretizar as pautas que defendemos”, destaca.

A decisão de disputar uma vaga na Câmara também se conectou a um projeto político mais amplo para a cidade. Com a possibilidade de Lívia, outra liderança importante no PT local, disputar a prefeitura, a candidatura de Cassi para o Legislativo Municipal se desenhou como um movimento natural para consolidar as pautas feministas e sociais no âmbito municipal.

Sinara Campos, do Partido Verde (PV), destaca-se por sua experiência na gestão pública e seu compromisso com pautas ambientais e sustentáveis. Desde jovem, destacou-se em movimentos locais voltados para a preservação ambiental e a educação sustentável. Antes de ingressar na política institucional, liderou iniciativas de mobilização popular, como mutirões de limpeza e projetos de educação ambiental em escolas.

O ingresso de Sinara na política ocorreu em Santa Cruz de Minas, quando disputou, em 2008 como candidata a vice-prefeita, sem sucesso. Nas eleições seguintes (2012 e 2016), foi eleita e reeleita prefeita do município limítrofe de São João del-Rei. Depois disso, chegou a ser secretária de Educação de Tiradentes (2021) e, atualmente, é secretária de Saúde de Barbacena.

Nas eleições de 2024, acredita que sua vitória foi impulsionada por uma plataforma que combina sustentabilidade, fortalecimento das políticas públicas para mulheres e ampliação dos espaços de participação cidadã. Agora vereadora, Sinara busca implementar propostas que reflitam os princípios de justiça social e ambiental defendidos pelo Partido Verde, ao mesmo tempo em que atua como uma voz feminina representativa em um cenário político predominantemente masculino.

“O PV tem feito um esforço para apoiar mulheres candidatas. É um movimento que busca trazer mais autonomia e representatividade para nós nesse processo de discussão política”, comenta.

Impacto da representatividade feminina no cenário conservador

Tendo em vista que a próxima legislatura será marcada pela composição majoritariamente feita por homens, Cassi e Sinara expõem a dificuldade de introduzir e colocar em prática pautas que abordam luta das mulheres, igualdade de gênero e sustentabilidade.

Cassi, que se considera uma militante de pautas feministas, denuncia a forma como as propostas voltadas às mulheres são vistas como secundárias em detrimento das demais. “De maneira geral, as políticas são pautadas nas demandas e nas necessidades de um sujeito universal, que é o homem […]. Quando chega a época de campanha eleitoral ou mesmo durante os mandatos, as demandas das mulheres são colocadas em caixinhas como se a gente tivesse demandas específicas, e as outras demandas que são entendidas como naturais e universais”, afirma.

A ativista elucida a complexidade da situação, já que, muitas vezes, os projetos envolvem uma política municipal de cuidados, que auxiliam, por exemplo, maior acessibilidade das mulheres no mercado de trabalho, como a universalização do acesso às creches. Entretanto, são propostas barradas por conta de verba.

Como presidente do diretório são-joanense do PV, Sinara também destaca os desafios enfrentados por uma parlamentar ao propor iniciativas sustentáveis em um legislativo majoritariamente masculino e alinhado à direita. “São pautas que são ditas progressistas e a gente tem aí muitas pessoas conservadoras. Mas eu acho que o desafio maior é cultural. Penso que, quando você consegue trazer a população para junto dessas discussões e a população entende a importância disso, não tem esquerda e direita que vai conseguir combater ou ir contra esses tipos de projeto”.

Na visão de Sinara, a sustentabilidade ainda enfrenta o desafio de não ser amplamente discutida e valorizada, entretanto, ela assegura que vai manter uma postura aberta ao diálogo e à transparência, buscando construir soluções coletivas para a cidade.

O que as vereadoras trazem para o debate público?

A entrada de mulheres na Câmara de Vereadores de São João del-Rei não representa apenas um avanço numérico na política local, mas também uma transformação qualitativa no debate público. Em um espaço historicamente dominado por homens, as novas parlamentares imprimem um olhar mais atento às demandas que afetam diretamente a vida das mulheres, frequentemente negligenciadas nos processos de tomada de decisão.

A vereadora Cassi Pinheiro (PT) é um exemplo claro dessa mudança de perspectiva. Em sua atuação, ela tem como foco a luta pela centralidade das mulheres na política. Segundo Cassi, a estrutura política atual opera com base em um “sujeito universal, que é o homem”, ignorando que são as mulheres que, muitas vezes, sustentam a sociedade em múltiplas frentes.

“A mulher sustenta de fato a vida, quem cuida das crianças, quem cuida da casa, quem tem as suas jornadas duplas, triplas. (…) A luta da mulher não pode ser secundária, ela tem que ser prioritária. Porque, quando as mulheres caminham bem, a sociedade caminha bem, as crianças caminham bem, os homens caminham bem”, afirma a vereadora.

A proposta de Cassi da criação de uma Secretaria de Mulheres, por exemplo, reflete sua preocupação em institucionalizar políticas que atendam às demandas femininas de forma estruturada. No entanto, a resistência por parte do novo prefeito eleito demonstra o longo caminho que ainda precisa ser percorrido. “Enquanto a sub-representação for uma realidade, a gente não vai conseguir fazer essa inversão de prioridades na política”, pontua Cassi, destacando que mulheres ocupam menos de 20% das cadeiras nos espaços de poder no Brasil.

Para Sinara, a transformação começa pela estrutura interna de seu futuro gabinete, composto majoritariamente por mulheres. A escolha reflete um compromisso com a inclusão e o fortalecimento da representatividade feminina nos bastidores da política.

“Acho que é a primeira forma da gente tentar, por exemplo, convencer as pessoas de estarem nesses espaços”, afirma Sinara. “Hoje a Câmara de Vereadores é totalmente excludente. (…) As reuniões acontecem às 16h00, então já é muito difícil que as pessoas participem. As mulheres têm jornadas triplas. Mais difícil ainda essa participação.”

Sinara destaca a importância de estar nas ruas, ouvindo a população e tornando o debate político mais acessível. Seu compromisso com a sustentabilidade é parte central de sua atuação, mas ela faz questão de desmistificar conceitos muitas vezes distantes do cotidiano das pessoas, como “cidade verde” ou “cidade inteligente”.

“Eu tento sempre simplificar a forma de falar essas pautas. Sustentabilidade. Cidade verde. Cidade inteligente. O que significa isso no nosso dia a dia? Acho que é trazer uma linguagem mais simples também, para que as pessoas possam se interessar pela política”, explica.

Entre suas propostas, Sinara defende a criação de um conselho municipal forte que trabalhe tanto as pautas femininas quanto as questões ligadas ao desenvolvimento sustentável. Para ela, é fundamental que o debate político vá além do período eleitoral, conectando-se continuamente às realidades e demandas da população.

O desafio de ser mulher na política

Enquanto a Câmara de São João del-Rei se prepara para mais um mandato, as três vereadoras eleitas representam uma nova etapa na trajetória política da cidade. Suas visões diversas, com pautas por vezes antagônicas, trazem a promessa de debates mais amplos e inclusivos em um espaço majoritariamente masculino e de raízes tradicionais.

Cassi Pinheiro, além de ser mulher, enfrenta desafios adicionais por integrar publicamente a comunidade LGBTQIAPN+. Segundo ela, a violência que sofre não é necessariamente explícita, mas presente em pequenas atitudes que reforçam sua inferiorização. “A gente encontra essa violência. Ela não é aquela violência explícita, sabe? Mas a gente encontra. Não vou dizer diariamente, mas no nosso cotidiano, na política, é muito recorrente você sentir que é violentada, sentir que te colocam num lugar inferior”, afirma.

Cassi também destaca que o machismo não é exclusivo de campos políticos opostos, mas persiste mesmo em espaços progressistas. “Inclusive durante a campanha, e não só por pessoas que estão em campos politicamente divergentes, mas inclusive entre companheiros do mesmo campo progressista”. Ela reforça que, para mulheres, o caminho até os espaços de poder é mais difícil e demanda uma rede de apoio. “Eu só consegui chegar aonde eu cheguei porque eu vim me organizando com a militância e tive um apoio muito grande de muitos companheiros e companheiras que acreditavam no meu projeto e no que eu podia trazer”.

Sinara Campos compartilha que, inicialmente, não percebia as barreiras impostas por ser mulher, mas ao longo de sua trajetória, passou a identificar o preconceito enraizado na sociedade. “Às vezes você tem que falar a mesma coisa quatro ou cinco vezes para ser ouvida por um homem que vai dizer exatamente o que você falou e ser levado a sério”.

Ela também relata casos explícitos de discriminação, como quando um colega questionou por que ela deveria receber o mesmo salário ao assumir seu cargo. “Ele falou: ‘Você não pode ganhar o mesmo tanto que eu. Você é mulher’. Para ele, isso era natural, normal”. Sinara destaca ainda a pressão estética para se adequar a padrões masculinos. “Eu tinha que estar de salto alto para eles me ouvirem, enquanto os prefeitos podiam ir de chinelo. Por que eu tinha que estar desconfortável para ser respeitada?”


Edição: Luiz Ademir de Oliveira e Arthur Raposo Gomes

Imagem de destaque: fotos publicadas nas redes sociais / reprodução – montagem: Notícias del-Rei

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