Sarah Resende
Desde a eleição presidencial de 2018, no Brasil, com a vitória do então candidato Jair Bolsonaro, na época filiado ao PSL, partido nanico, tem sido cada vez mais recorrente o uso estratégico das redes sociais, principalmente, pelas forças políticas direita, em diferentes países. E, no caso brasileiro, desde disputas de abrangência nacional, até as eleições proporcionais para deputados federais e estaduais e pleitos municipais, como pôde ser verificado em 2024. Em 2022, Nikolas Ferreira, então vereador de Belo Horizonte, filiado ao PL de Bolsonaro, conseguiu com a força das mídias sociais se tornar o candidato mais votado para a Câmara dos Deputados com mais de 1,5 milhão de votos. Com a defesa de “Deus, Pátria e Família”, o uso das cores da bandeira do Brasil, a extrema direita vem se fortalecendo.
Em 2024, em São João del-Rei, na “onda” dos candidatos de direita, o empresário Aurélio Suenes, recém-filiado ao PL, recorreu tanto ao discurso conservador como as estratégias de uso das redes sociais para emplacar a sua candidatura. Apesar de ter uma trajetória política extensa, com um tom moderado, tendo sido prefeito de Resende Costa, no Campo das Vertentes, em dois mandatos (2013 a 2016 e 2017 a 2020), Suenes, em 2023, aderiu ao Movimento “Direita Minas” e deu uma guinada à direita para se lançar candidato desta vez à Prefeitura de São João del-Rei. Saiu vitorioso com 50,40% dos votos, derrotando as candidatas Jânia Costa (PRD), também de linha conservadora, e a candidata petista Lívia Guimarães.
A ascensão da direita no cenário político brasileiro é um fenômeno que se intensificou nos últimos anos e as redes sociais desempenham um papel fundamental nesse processo. A figura de Jair Bolsonaro, por exemplo, soube explorar o potencial das plataformas digitais para construir uma base sólida de apoiadores e consolidar sua imagem como líder de um movimento conservador. Desde então, novas figuras surgiram e hoje se fala na “Geração Z da extrema-direita”, com políticos jovens e radicais, como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) e o deputado estadual Bruno Engler (PL), que disputou o segundo turno da eleição à Prefeitura de Belo Horizonte, mas foi derrotado por Fuad Noman (PSD).
Os dados sobre o uso das redes sociais por candidatos nas eleições de 2024 corroboram essa análise. A direita demonstra um domínio maior das plataformas digitais, com um número expressivo de usuários e candidatos utilizando ferramentas como Instagram, Facebook e TikTok. Essa presença digital expressiva da direita reflete sua capacidade de mobilizar eleitores e construir narrativas que ressoam com um público específico.
Prova disso é que o PL, Partido Liberal, foi o que elegeu o maior número de prefeitos nas 103 maiores cidades do país. Dos 516 prefeitos eleitos, fez dez nos principais centros urbanos do país, sendo seguida pelo União Brasil, que fez nove. Entre estes, está Aurélio Suenes de Resende, prefeito eleito na cidade de São João del-Rei, MG. Empresário e político, Aurélio tem 45 anos e é formado em Administração de Empresas. Iniciou sua trajetória em administrações municipais ao ser eleito prefeito de Resende Costa, em 2012, quando tinha apenas 33 anos. Também venceu as eleições de 2016, pelo segundo mandato consecutivo em sua cidade natal. Além disso, Aurélio foi vereador por um mandato.
Com mais de 50% de aprovação, tendo 25.265 votos, Aurélio Suenes foi eleito novo prefeito de São João del-Rei. É difícil mensurar o que leva um candidato a ser eleito, ainda mais em uma disputa com mais de duas pessoas, mas alguns parâmetros podem ser analisados para explicar o favoritismo de Aurélio. Até 2022, quando construiu a sua carreira política na sua cidade natal, Resende Costa, Aurélio Suenes transitou entre partidos de centro e de centro-direita, mas num tom mais moderado, como PSDB, PSD e até siglas consideradas nanicas de direita, como PRTB e DC. Em 2023, depois de se filiar ao PL e formar chapa com Rogério Cury, liderança do Movimento “Direita Minas”, Aurélio assumiu um perfil e estratégias bem alinhadas à direita.
Isso pode ser verificado na sua atuação nas redes sociais, como Instagram. Hoje, o perfil de Aurélio Suenes no Instagram tem 13,4 mil seguidores, com 505 publicações, sendo que 117 postagens foram referentes à disputa eleitoral de 2024, o que representa 23% do total. Até 08 de outubro, ele tinha 11 mil seguidores, o que aponta um rápido crescimento depois da vitória, conquistando mais 2,4 mil seguidores. Quanto às postagens de campanha, incluem vídeos, fotos e design gráfico, entre os dias 16 de agosto e 6 de outubro, período de propaganda eleitoral. Assim, contrasta com as 279 postagens de Lívia Guimarães (PT), terceira colocada na corrida eleitoral, com 14,11% dos votos, e as 152 postagens de Jânia Costa (PRD), segunda colocada com 33,59% dos votos.
Ao desenvolver uma análise em relação ao número de postagens ao longo de cada semana do período eleitoral, observa que Aurélio Suenes manteve uma média, em geral, de 2 a 3 postagens por dia, só intensificando na reta final da campanha. Na semana anterior ao pleito, de 30 de setembro a 06 de outubro, foram 28 posts, com uma média que oscilava entre 4 a 6 mensagens/dia. De 23 a 29 de setembro, também foram 21 posts. Já nas semanas anteriores da campanha eleitoral, oscilou entre 10, 12 e 15 por semana, numa média de 2 por dia. Passada a eleição, com a vitória, constata-se um número bem menor de mensagens no Instagram. Desde então, ao longo de quase 50 dias, foram apenas 23 postagens.
Apesar de perder em quantidade de publicações para as duas adversárias, Aurélio tem dois elementos que trabalham a seu favor na distribuição de conteúdo: o suporte técnico, provido pelos quase R$ 1,3 milhão de bens declarados além do teto de recurso eleitoral munido pelo PL; e as temáticas que retrata, suscetíveis à viralização e, consequentemente, à dinâmica das redes sociais.
Em relação ao suporte técnico, Aurélio apresenta, durante o tempo de campanha, peças audiovisuais da melhor qualidade e investimento em tráfego pago.

Somado a isso, a lógica de funcionamento dessas plataformas, baseada em algoritmos que visam maximizar o engajamento do usuário, favorece conteúdos que provocam reações emocionais intensas, como a raiva e o medo. Essa dinâmica torna os discursos de ódio, que exploram essas emoções, altamente eficazes em atrair a atenção e se espalhar rapidamente.
Nesse sentido, a extrema direita tem se beneficiado desse mecanismo, utilizando as plataformas digitais para disseminar seus ideais e criar um clima de polarização e hostilidade. Ao explorar o medo e a insegurança, esses discursos conseguem mobilizar e radicalizar um grande número de indivíduos.
Em um de seus atos, Aurélio convidou, durante dois momentos, o deputado federal Nikolas Ferreira, para participar de carreatas pela cidade e divulgar os ideais da campanha. Nikolas, uma das principais personalidades da extrema direita no país e conhecido por falas problemáticas, reafirmou o desejo de “endireitar o país”, de modo a seguir os valores cristãos e tradicionais da cultura brasileira.
Na ocasião, o convidado ligou por chamada de vídeo para o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, para que assim, pudesse realizar falas para a população presente na carreata, evidenciando o laço entre o novo prefeito e as principais figuras do conservadorismo brasileiro contemporâneo.

O apoderamento dos valores cristãos e tradicionais
O discurso da extrema direita brasileira, frequentemente, apropria-se de elementos religiosos, especialmente do cristianismo evangélico, para legitimar suas ideias e mobilizar seus seguidores. Para o jornalista e professor Vinicius Borges de Gomes, que é doutor em Comunicação pela UNIP e hoje trabalha na PUC-Minas, a construção de uma identidade nacional baseada em valores morais conservadores, frequentemente associados a interpretações específicas da Bíblia, é uma característica marcante desse discurso. Para o pesquisador, a extrema direita conseguiu captar sentimentos latentes nesse público, sobretudo com relação aos avanços morais.
“Alguns setores do cristianismo, seja no catolicismo ou no protestantismo, têm uma visão extremamente preconceituosa contra alguns avanços progressistas que são naturais da sociedade. E essas pessoas acabam nutrindo um certo medo de que aquilo que tinham como valores supremos, consolidados, se desconstrua. A extrema direita captou isso e vendeu como pânico moral -a esquerda vai destruir a família tradicional, a esquerda vai destruir os nossos valores”, afirma Vinícius Borges.
Para o professor Vinicíus Borges, vivemos hoje uma crise da democracia liberal, o que leva os cidadãos a viver de forma esperançosa com a vida política. A partir disso, busca em discursos simplificados e radicais abrigo, porque são ideais que ajudam a explicar o mundo de uma forma mais simplista, mais imediatista. De alguma forma, usam dessas revoltas muito latentes no coração de muitas pessoas para difundir seus discursos.
Edição: Arthur Raposo Gomes
Imagem de destaque: print do Instagram de Aurélio Suenes / reprodução


