“SAPATEIA PRA NOSSA SENHORA!”: UM MERGULHO NA FESTA DO ROSÁRIO DA COMUNIDADE SÃO DIMAS

Gabriel Rios

No domingo, dia 8 de setembro, a comunidade São Dimas, em São João del Rei, comemorou a Festa de Nossa Senhora do Rosário, realizada pela Associação Guarda Moçambique e Catopé de N. Senhora do Rosário e São Benedito, ou Congado de Maria. A manifestação acontece todo ano, nela, celebra-se o reinado de Nossa Senhora do Rosário e se inicia uma semana antes, no dia 1º de setembro.

A festa tem origem na África e faz referência ao cortejo que os súditos realizavam ao rei congo. O sincretismo, que define a mistura de elementos do catolicismo com as religiões de matriz africana, acontece como uma forma de resistência, já que as pessoas trazidas do continente africano para serem escravizadas, não podiam manifestar a sua fé.

No primeiro dia, o festejo começa com a lavação da capela N. Senhora do Rosário, em seguida são erguidos os 3 mastros em celebração à devoção a Santa Efigênia, São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. Após erguer os mastros a manifestação segue para a coroação dos reis e rainhas na comunidade e conta com café da manhã e almoço comunitário aberto a todos. Todo o ritual ocorre em meio ao batuque dos tambores e chacoalhar dos chocalhos que envolvem todos os presentes em músicas e danças contagiantes.

No dia 8, acontece a derradeira festa, que reúne diversas bandas de congado da região, cada uma com seus cantos, danças, músicas e vestimentas próprias. O dia começa com a alvorada, em seguida é servido o café da manhã antes do almoço, ambos gratuitos para a comunidade. Depois do almoço ocorre a caminhada do reisado, a missa afroinculturada e a procissão.

As diferentes danças e músicas encantam a comunidade, com fios coloridos nas vestimentas e os cantos entoados que competem com trepidar dos tambores. É impossível resumir este acontecimento em palavras ou imagens, é necessário estar lá.

A historiadora da Universidade Federal de São João del Rei, Simone Assis, explica em seu artigo intitulado “Diáspora africana e a memória congadeira em São João del-Rei: a Congada vem mesmo da raça negra”, que a importância do Congado na preservação da história é multifacetada e envolve a transmissão de histórias, lendas e experiências coletivas passadas por gerações através dos rituais, músicas e danças que permitem a sobrevivência da história da comunidade.

Além disso, o Congado representa uma expressão cultural afro-brasileira e incorpora elementos do banto e das tradições africanas, que fazem parte da identidade da comunidade e proporcionam o pertencimento, bem como a reflexão sobre a história e as injustiças enfrentadas no passado e no presente pelos descendentes de pessoas escravizadas.

Ou seja, o Congado não apenas preserva a história, mas também a revitaliza e garante que as vozes e experiências das comunidades vindas de África continuem a ser ouvidas e valorizadas.

Nota da reportagem:

Gostaria de deixar um agradecimento à Guarda Moçambique e Catopé e à toda a comunidade de São Dimas pelo acolhimento e pela festa encantadora que realizam todo ano.


Edição: Vanessa Maia

Imagem de destaque: Gabriel Rios

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