Bianca Martins
Como surgem os sonhos? De onde nascem os talentos? Para Beatriz Sacramento Sales, eles nascem na família. Moradora de Santa Cruz de Minas, uma das menores cidades de Minas Gerais, a jovem começou a jogar nas ruas do lugar, junto com os primos e sem grandes pretensões. E sempre jogou com garotos, desde os familiares até os colegas da escolinha que o próprio pai coordenava.
Foi quando ela completou 15 anos que começou a dividir o campo com outras mulheres. Ao conhecer o projeto desenvolvido por Teresinha, carinhosamente chamada de Dona Teresa por Bia, junto do clube XV de Novembro, Beatriz entrou para o time feminino e começou a treinar junto com as mulheres do time adulto do clube. E foi então que o caminho para os campeonatos profissionais e o desejo da profissionalização começou.
Saindo de Santa Cruz de Minas acompanhada pelos pais, Bia foi para diversas cidades participar das famosas “peneiras”. Mas além da distância da família, a menina enfrentava outro problema. Sua altura era um empecilho para os treinamentos dos times profissionais. Com a diferença entre ela e as outras jogadoras, por muitas vezes não conseguia continuar com os treinamentos nos times.
Após passar na peneira do São Paulo e não conseguir ingressar no time por conta da idade, Beatriz foi indicada pela equipe técnica para o Ceilândia, time de Brasília. Foi neste grupo que ela participou do primeiro campeonato profissional. Desde então, participou de diversos outros campeonatos de base em vários times, principalmente de Minas Gerais. Seu maior destaque dentro do estado foi no Atlético Mineiro, onde participou dos campeonatos brasileiros sub-18 e profissional.
Atualmente, Beatriz está jogando pelo time de futebol feminino da Hutchinson Community College, no Kansas, Estados Unidos. Além de participar como atleta, está estudando na universidade com uma bolsa de 100% e vê essa como uma oportunidade única. Depois de jogar em campeonatos de base e profissionais no Brasil, a menina que saiu de Santa Cruz de Minas começa seus caminhos na carreira internacional.

Pelo XV de Novembro, time e clube que lhe acolheu no começo da sua vida esportiva, a jovem de 21 anos afirma ter apenas gratidão pela oportunidade que recebeu e pelo apoio no projeto social que agora desenvolvem. À Dona Teresa, grande apoiadora do futebol feminino e de Beatriz, a garota fala com carinho e demonstra sua gratidão por todo apoio no caminho que levou a jovem até os jogos profissionais.
- Como foi entrar para o time do XV como jogadora?
“Eu jogava com meninas mais velhas. Mas sempre foi um lugar onde eu tinha que me desafiar todos os dias para poder jogar, para conseguir dar o meu melhor ali. Estar ali era algo muito prazeroso para mim.”
- E retornar ao time como “treinadora”?
“Retornar ao time como treinadora das meninas mais novas, com esse novo projeto que a Dona Teresa idealizou e eu fui junto com ela, é algo muito, muito, muito, muito, muito gratificante pra mim, sabe? Poder dar para as meninas recursos para elas treinarem, pra elas saírem das ruas, pra elas praticarem esportes, pra elas saírem das ruas. Ter um amor assim pelo esporte é algo que transforma vidas, que transformou a minha vida. Voltar como treinadora é voltar realizando um desejo do meu coração.”

- Você já esteve jogando em times profissionais. Como foi chegar nesses times?
“Chegar nesses times não foi fácil. Eu tive muito apoio da minha família, do meu pai, da minha mãe. Eles me pegavam e a gente ia de carro para tudo quanto era teste que eu podia fazer. E não foi fácil. Toda vez que eu ia, eu passava, só que depois, por causa do meu tamanho, eu não ficava.”
- Hoje você está indo para fora do país, seguindo sua carreira dentro do futebol. Como surgiu essa oportunidade?
“Essa oportunidade eu consegui através do meu treinador do Atlético Mineiro, o meu treinador da base, Eduardo Serafim, que me ensinou muitas coisas além do futebol. Ele fez com que eu abrisse os meus olhos, o Senhor permitiu que eu conhecesse ele para abrir os meus olhos para essa oportunidade de estudar aqui e jogar futebol. […] Ele enviou o meu vídeo jogando para treinadores daqui e eu pude ser escolhida por essa escola, recebi uma bolsa de 100% e estudando.”
- Qual o sentimento de estar seguindo carreira internacionalmente?
“Tem sido uma experiência muito, muito diferente, muito incrível, viver num ambiente 100% de uma língua que eu não conheço tanto, mas eu tô aprendendo, conhecendo outra cultura, outro tipo de pessoas, outro jeito de jogar. Então tem sido uma experiência incrível, uma experiência muito agradável e eu tô muito feliz pelo que o Senhor tem feito na minha vida aqui.”

- Qual o sentimento que você tem pelo XV hoje?
“O sentimento que eu tenho pelo XV de Novembro hoje é de gratidão. O sentimento que eu tenho pela Dona Teresa é de gratidão. Por ela não ter desistido, por ela não ter parado, sabe? Gratidão pelo clube que sempre abriu as portas pro futebol feminino, que tem nos ajudado com estrutura pra gente continuar com o projeto social.”
Edição: Vanessa Maia
Imagem de destaque: Marina Peron
