Paulinho Veloso
O sol ainda estava por nascer. Este domingo de inverno prometia ser um dia muito bonito, quente e ensolarado. De repente, não mais que de repente (salve, Vinícius) o silêncio que antes imperava na Rua Tomás Gonzaga, em Lavras-MG, dá lugar ao barulho de passos que parecem destinados a um só lugar. Chegam os primeiros músicos da Euterpe Operária à sua casa de ensaios, já uniformizados, se aglutinando para a viagem musical do domingo.
Outros músicos, de outras localidades das Vertentes, também se prepararam para a viagem. Em São João del Rei, os músicos da Sinfônica do Matosinhos e da Banda Salesiana Meninos e Meninas de Dom Bosco. Em São Sebastião da Vitória, distrito de São João del-Rei, a conduzir os músicos da Banda Aquiles Rios estava o regente Mário Élson. Os artistas de Piedade do Rio Grande tiveram que acordar mais cedo: a Banda Santa Cecília viajou por 1h30 para percorrer os 110 km que a separam da cidade anfitriã.

Ibituruna foi a cidade do Encontro de Bandas no domingo de 06 de agosto. A cidade é considerada o mais antigo lar da pátria mineira. Em 1674, o bandeirante Fernão Dias já andava por aquelas paragens. Pátria Mineira, bandas… Minas é o estado brasileiro com maior número de Bandas Musicais – 810, segundo cadastro da Funarte (Fundação Nacional de Artes do Ministério da Cultura). Dez delas marcaram um encontro em Ibituruna.

Santa Cecília é a padroeira dos músicos e da Banda de Ibituruna. Nossa Senhora do Carmo protege a Corporação Musical de Carrancas. Macuco de Minas é do distrito de Itumirim, lá a banda reza para São Sebastião. Fora uma ou outra, as bandas andam precisando de um maior incentivo dos poderes públicos. Haja reza para conseguir pagar o salário do professor de música, fazer a manutenção dos instrumentos, garantir que as bandas participem de eventos e outros. Pratos são instrumentos de percussão importante nas bandas, mas “pires na mão” não combina com a importância cultural das entidades musicais.

Voltemos à Ibituruna porque já é hora do café. Aqui em Minas, o café celebra a amizade. Olha lá, quem vem lá? É o pessoal da Lira Perdoense, com as cores amarelo e azul da cidade de Perdões. Eles se juntam ao pessoal da Banda Musical José Pontes de Oliveira Júnior, de Itutinga. O pessoal de Ibituruna preparou um “cafezão” para as bandas. A boa conversa corre solta. “O que significa a palavra Ibituruna’?_ pergunta a simpática musicista Heloisa, de Lavras. “Ibituruna é uma palavra de origem tupi (ybytyrauna) que significa “serra negra”, (ybytyra →”serra/montanha”, un → “negro/preto” e a → sufixo substantivador).” _ responde uma atenta musicista ibiturinense. Aliás, Serra Negra é o nome do Clube Social que serviu de lugar para o primeiro encontro do dia. Ouve-se um canto de parabéns acolá: a clarinetista Mariana Bessa fez aniversário nesta semana e está sendo homenageada por seus amigos da Sinfônica do Matosinhos. “O que significa comemorar seu aniversário em um Encontro de Bandas?” “Eu vim com eles pra cá e sei que haveria este tipo de coisa, cantar os parabéns…”_ responde a musicista cercada de amigos. Parabéns, Mariana!

As primeiras partilhas e interações entre os músicos já acontecem no ambiente amigável do café. Mário Élson é um dos regentes da Banda Aquiles Rios de São Sebastião da Vitória. Ele se une ao regente Lázaro da Euterpe Operária de Lavras para elogiar o espírito de confraternização entre as bandas. Segundo eles, já houve um tempo que os Encontros de Bandas era um evento de competição, com ganhadores e perdedores. Em um evento como o de Ibituruna, haverá a oportunidade de trocar partituras, arranjos, e até mesmo a participação de músicos em duas ou mais bandas.


A jovem presidente da Euterpe Operária de Lavras, Marina Luz, propõe que seja disponibilizado um espaço nos Encontros de Bandas para que os gestores das corporações partilhem suas dificuldades e problemas já solucionados. Segundo ela, as políticas públicas para a manutenção das bandas são insuficientes: “o que falta para as bandas é o apoio, geralmente, financeiro”. Para Josué, presidente da Banda de Carrancas, o Encontro de Bandas vai além do espírito de confraternização, serve como incentivo e autoavaliação. Percebe-se que os gestores de bandas estão ligados nos modernos conhecimentos de administração.

Café tomado, o momento é de se organizar para o desfile individual. Neste intervalo, pudemos conhecer um pouco mais das características pessoais dos integrantes. As jovens de Piedade do Rio Grande destacaram o quanto é importante integrar uma banda de música. Paula (nome fictício) foi mais além, partilhou conosco o motivo de ter entrado para a banda: superar um trauma. “Eu tinha depressão. Praticar um instrumento fez com que eu tivesse confiança em mim mesma. (…) Na banda eu pude conhecer pessoas legais, fiz amizades que na escola eu não fazia”. O grupo de jovens musicistas de São Sebastião da Vitória ressaltou o aumento da amizade, a união e a sensação de estar desenvolvendo uma bela arte. Quando Heloísa nasceu, a Euterpe Operária já tinha mais de 30 anos. Ela se sente, aos oitenta anos, avó dos novos integrantes e confessa que a atividade musical tem sido fundamental para dar um ”chega-prá-lá no alemão” (como ela chama a doença de Alzheimer). Iracilda Maria, de Perdões, viajou ao lado do marido e realçou a importância de estar junto de amigos que partilham do mesmo apreço cultural. O etarismo não tem vez na convivência entre os músicos de bandas.


O público de Ibituruna e cidades vizinhas aguardavam ansiosos o desfile das Bandas. A primeira a descer a Praça dos Bandeirantes em direção à Praça Fernão Dias foi a Sinfônica do Matosinhos. “Avante, Camaradas” foi o dobrado executado para o desfile. Dobrado? Importante saber que o Dobrado é um gênero musical brasileiro, inspirado no passo dobrado das marchas militares europeias. Popularizou-se a partir da metade do século XIX. Os dobrados tornaram-se símbolo de comemoração, festa e solenidade nas cidades. “A festa em que não tiver banda, não é festa”, sintetizou José Teixeira (65), morador de Ibituruna.


A Banda Salesiana Meninos e Meninas de Dom Bosco, de São João del Rei, encerrou a sessão de desfiles. Destaca-se o quão jovens são os integrantes das duas bandas de São João del Rei, que continuam a tradição tricentenária da cidade dos sinos. Na sequência, as bandas tocaram, em conjunto, o Hino Nacional Brasileiro e foram recepcionadas oficialmente pelas autoridades locais.


No final da manhã, as bandas começaram a se organizar para formar um dos maiores atrativos dos Encontros de Bandas: o “Bandão”. Marina Luz, da Euterpe Operária de Lavras, nos explicou como funciona: “É formada uma só banda, com todos os participantes, agrupados segundo o instrumento que executa. Toca-se um dobrado pré-escolhido e o Bandão desfila por algumas ruas da cidade”. Foi emocionante. Netos conduziram seus avós para sentirem a alegria proporcionada pelas bandas. Uma bela paleta de cores foi formada: as cores aqui pareciam cantar…

A tarde reservou ainda muita festa na Praça dos Bandeirantes. Ao lado da singela Capela do Rosário foi disponibilizado um espaço para as bandas se apresentarem individualmente. Um público receptivo aguardava o espetáculo que estava por vir. Lembram que lá atrás falávamos dos dobrados? Pois é, no Brasil criou-se o chamado Dobrado Sinfônico: peça escrita para bandas de música e bandas sinfônicas com contrapontos e um plano dinâmico bem mais trabalhado que os dobrados comuns. A primeira banda a se apresentar foi a Sinfônica de Matosinhos, que executou o difícil Dobrado Sinfônico “Janjão”, de Joaquim Naegele. O compositor cantagalense é famoso por escrever peças que exigem muito da bancada de clarinetes, mas isso não intimidou os jovens instrumentistas de São João del Rei.

O que se viu (e se escutou) na Praça dos Bandeirantes foi um festival de bom gosto e ecletismo. Pixinguinha (Carinhoso) foi rememorado pela Sinfônica do Santuário do Matosinhos. A versão dos “Incríveis” e “Engenheiros do Hawaiie” para “C’era un ragazzo che come me amava i Beatles e i Rolling Stones” foi revisitada pelas bandas de Carrancas e Piedade do Rio Grande, mostrando como os arranjos podem ser diversificados. A banda de Perdões relembrou “New York, New York”, clássico imortalizado por Frank Sinatra que trouxe ainda mais gente para a Praça. O Sousafone (Tuba) de Macuco de Minas transmitiu a tensão sonora para o arranjo de Thriller (Canção de Michael Jackson). Lavras trouxe Tim Maia e a Banda de Ibituruna foi abraçada pela sua comunidade que vibrou com a apresentação de seu repertório bastante dançante. A Banda Aquiles Rios, de São Sebastião da Vitória, demonstrou sua técnica com um número músico-teatral: a banda fez uma encenação como se fosse conduzida através das funções de um controle remoto . Cada banda apresentou três peças. Todas, sem exceção, dignas do público.

A festa terminou à noitinha com a apresentação da Banda Salesiana Meninos e Meninas de Dom Bosco, de São João del Rei-MG. Os ônibus que conduziam os músicos iam saindo de volta aos seus lares. Dentro dos ônibus a alegria estava contida, venceu o cansaço. A certeza do dever cumprido e da alma lavada estava estampada no rosto dos músicos. Outros, mais despertos, discutiam estratégias para o futuro encontro de bandas…
O que vimos e ouvimos foi uma bela Sinfonia, dividida em 10 atos. Uma Sinfonia executada com a técnica própria dos melhores instrumentistas. Uma Sinfonia de almas conectadas. Uma Sinfonia da Partilha.
- Cidades representadas no Encontro de Bandas em Ibituruna-MG:
Carrancas
Ibituruna
Itutinga
Lavras
Macuco de Minas (Distrito de Itumirim)
Perdões
Piedade do Rio Grande
São João del Rei (2)
São Sebastião da Vitória (Distrito de São João del Rei)
Edição: Vanessa Maia
Imagem de destaque: O nascer do sol na cidade de Ibituruna-MG, onde seria realizado o Encontro de Bandas de Música / foto: pxHere
