Giulia Sasso e Dezuite Alaniz
A Batalha de Rimas da Estação de São João del Rei, realizada na histórica estação de trem da cidade, tem se consolidado como um dos principais eventos culturais da região desde seu início, em 2019. O movimento, que nasceu de uma iniciativa de estudantes da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e de moradores locais, se transformou em um ponto de encontro para jovens artistas e amantes da cultura hip hop. A cada 15 dias, o local se enche de vida com desafios de MCs, unindo criatividade, expressão artística e uma rica troca de ideias.
Neste último mês, ocorreu o Regional da Batalha da Estação, parte do Duelo Nacional de MCs, que representa mais do que uma competição, sendo um espaço de aprendizado, troca de experiências e fortalecimento de laços entre os participantes.
Para muitos, como Bruno de Souza, conhecido como “Pepeu”, a batalha é uma oportunidade de ampliar horizontes. Bruno, que começou na cultura hip hop pelo rap e expandiu suas habilidades para o break, graffiti e produção musical, encontrou na batalha uma nova forma de expressão.
“Acho importante a oportunidade de trocar conhecimentos com MCs de outras cidades, do Campo das Vertentes e da Zona da Mata, onde muita gente já tem a bagagem de experiência no Duelo Estadual de MC’s”, diz ele.
Patrick, chamado de “Hinoto”, um dos organizadores da Batalha e pioneiros em trazer a seletiva para a cidade, diz que esse tipo de batalha sempre pareceu muito distante para os MC´s locais, uma vez que são as mesmas que normalmente assistimos somente na televisão. O regional consiste em uma preparação: a seletiva ocorre na cidade, coroando um campeão que vai para a seletiva da região, em seguida o Estadual e, vencendo, representando Minas Gerais no Nacional. “Era uma coisa muito distante pra gente”, conta Hinoto.
“Trazer para São João del-Rei é de uma importância muito grande, estávamos com uma expectativa boa com essa nova geração. Estávamos ansiosos para ver como seria, até pra ver esses novos MC´s vivenciando a experiência de sair da cidade para rimar, ficamos bem felizes com esse resultado”.
É o terceiro ano que esse trabalho é levado para a cidade, aproximando-a cada vez mais da cena nacional. Assim, os artistas envolvidos entendem que eles não estão distantes e não são diferentes do que estão assistindo. “Muito pelo contrário, eles estão mais próximos do que imaginam”, segundo Hinoto. “Ficamos muito felizes, muito ansiosos e muito animados de conseguirmos realizar essa seletiva aqui”, continuou.
A importância cultural da Batalha da Estação vai além das rimas e performances
João Vitor, ou “Dasein”, discente em licenciatura de filosofia, destaca como o movimento passa dos quatro elementos tradicionais do hip hop, abraçando outras formas de arte, como desenho e poesia, e criando um espaço acolhedor para todos, especialmente para as mulheres.
“A batalha começa a se desprender dos quatro elementos do hip hop e se consolida como um verdadeiro movimento…a batalha começa a comunicar mais com as outras movimentações de São João del-Rei, tendo um ligamento direto com o movimento negro, começando a entender a formação do carnaval na cidade, começa a fortalecer artistas independentes da rua, se formalizando como movimento precursor da resistência negra afrodiaspórica na cidade, o que traz força pro movimento, buscando a conexão com o que faz nascer mesmo essas rodas culturais na rua. Os artistas também engajam mais e começam a se preparar para estar fazendo esse movimento, ganhando forças para o mesmo”, afirma João Vitor.
A Batalha da Estação é mais do que um evento de hip hop, é um movimento cultural que educa, inspira e transforma. Ela oferece aos jovens um senso de pertencimento e a chance de moldar suas identidades através da arte.
Ao reunir vozes diversas e encorajar a expressão livre, a batalha se tornou uma ferramenta poderosa para a resistência e a afirmação cultural em São João del Rei, provando que o hip hop pode ser um catalisador de mudança social e uma fonte de aprendizado contínuo.
“Pra mim, a maior importância dos movimentos sociais hoje, no Brasil, seja ele dentro ou fora do hip hop, é ressaltar a verdadeira história do nosso país. Dessa forma, os movimentos têm que se consolidar como processo educativo, principalmente, como meio de troca, ensinamento e aprendizagem.”
João Vitor diz que é isso que ocorre hoje dentro da batalha da estação e em diversos movimentos da cidade. É essa força que mantém os movimentos ativos, a necessidade de aprender e de passar ensinamentos para frente.
Edição: Vanessa Maia
Imagem de destaque: @visãodecria032 / arquivo Notícias del-Rei
