Róbson Melo
Cada vez mais esportes de aventura se tornam olímpicos ganhando novos adeptos no Brasil e no mundo. Nos Jogos de Tóquio 2020, três novas modalidades entraram no patamar olímpico: Escalada Esportiva, Skate e Surfe. Ao abrir espaço para os chamados esportes radicais em um evento até então limitado às modalidades tradicionalmente conhecidas como olímpicas, o Comitê Olímpico Internacional (COI) iniciou uma nova era para o esporte olímpico, marcado pela juventude e ousadia.
Tornar uma modalidade olímpica representa um aumento da credibilidade enquanto esporte e facilita o acesso a verbas públicas no caso do Brasil. Atingir esse patamar é consequência do amadurecimento dos esportes de aventura nos últimos 20 anos.
Na edição de Paris 2024, a quantidade de atletas que disputaram nas três modalidades referidas aumentou significativamente, bem como a presença do público tanto presencialmente quanto nas transmissões.
Todo esse cenário ajuda a superar a noção de marginalidade e proibição historicamente associadas a essas modalidades. O surfe, por exemplo, uma das modalidades mais antigas, foi considerado imoral pelos colonizadores ingleses no século 18, talvez por proporcionar uma interação com a natureza de uma forma mais lúdica. Talvez a incorporação dessas ‘novas’ modalidades no calendário olímpico deixe nossa relação com o esporte mais lúdica também, despertando o interesse de mais pessoas praticando esportes de aventura.
Surfe
O surfe é um esporte relativamente recente na mídia nacional por conta do desempenho de surfistas brasileiros no circuito mundial de surfe nos últimos dez anos.
Em 2014, Gabriel Medina foi campeão mundial de surfe – World Surf League WSL – e no ano seguinte, Adriano de Souza (Mineirinho) repetiu o feito de Medina. Em 2018, no mesmo ano em que Gabriel Medina se consagrou bicampeão mundial, 11 brasileiros ficaram entre os 34 melhores surfistas do mundo. Em 2019, Ítalo Ferreira ganhou o Mundial de Surfe em Oahu, no Havaí.
Em 2023, Gabriel Medina conquista seu tricampeonato mundial. Por último, o quarto brasileiro a vencer o principal torneio de surfe no planeta foi Filipe Toledo, que conquistou seu primeiro título na modalidade em 2022, e repetiu o feito em 2023. Com a conquista de sete títulos mundiais desde 2014, o surfe brasileiro consolidou uma popularidade até então restrita a esportes mais tradicionais no Brasil.
Apesar de sua repercussão recente na mídia brasileira, o surfe é uma prática ancestral. De acordo com o historiador Drew Kampion, pescadores de Huanchaco, no Peru, enfrentam ondas com seus caballitos de totora – embarcações feitas de palha – para trazer os peixes pescados há mais de 4 mil anos.
Estes pescadores peruanos montavam em suas pranchas de palha e usavam o impulso gerado pelas ondas para retornar às praias, num movimento semelhante ao surfe que conhecemos hoje.
O historiador Kampion aponta ainda que no processo de exploração e catequização que matou 400 mil nativos havaianos, os missionários ingleses consideraram o surfe imoral e baniram essa cultura por mais de um século.

Skate
O skate nasceu na década de 1950 na Califórnia conforme a cultura do surfe se consolidava. No início foi conhecido como surfe do asfalto, com manobras e atitudes próprias ao surfe, só que fora da água. Além da influência do surfe, o skate carrega também a rebeldia do movimento punk. O espírito transgressor e rebelde do movimento punk influenciou a prática do skate principalmente nos anos 80. O skate chegou ao Brasil por meio de alguns surfistas cariocas no final da década de 60, que o descobriram em anúncios de uma americana chamada “surfer”.
Nos Jogos Olímpicos de Paris os atletas disputaram em duas modalidades: street e park. Os skatistas precisam acertar as manobras mais complexas, além de atender aos critérios de grau de velocidade e variedade de movimentos. A competição do park ocorre em um percurso variado que combina bowls e inúmeras curvas para ganhar velocidade. As provas de street acontecem em um percurso em linha semelhante a uma rua com escadas, caixotes, corrimãos e outros obstáculos montados para remeter ao ambiente urbano da origem do skate.
O processo de reconhecimento social do skate atingiu seu ápice com a estreia no Jogos de Tóquio 2020. Em 2015, o Brasil somava 8,4 milhões de praticantes de skate, segundo pesquisa Datafolha. A indústria nacional ligada ao esporte é considerada a segunda maior do mundo, atrás apenas dos EUA. A forte presença da modalidade entre os brasileiros refletiu no quadro de medalhas do Brasil em Tóquio. Kelvin Hoefler ganhou prata no street masculino, abrindo a contagem de medalhas nacionais naquela edição.
No dia seguinte, Rayssa Leal garantiu medalha de prata no street feminino e se tornando, aos 13 anos, a mais jovem a desportista olímpica a ganhar uma medalha em Olimpíadas até então. Na edição de Paris 2024, Rayssa ganhou bronze no street e na modalidade park, Augusto Akio também ganhou o bronze. A equipe do Brasil foi composta por 12 skatistas em Paris.
A inserção do skate nas Olimpíadas fez um sucesso tremendo entre os brasileiros. Vários famosos e anônimos foram às redes sociais encantados com a nova modalidade que chegou para ficar nos Jogos.

Escalada
A escalada esportiva deu seus primeiros passos como esporte olímpico nos Jogos Olímpicos da Juventude em 2018, em Buenos Aires. Com o sucesso da modalidade entre o público argentino, a escalada estreou nos Jogos de Tóquio 2020, aparecendo oficialmente como um novo esporte no programa Olímpico.
É um esporte jovem e misto – com 39% dos atletas com menos de 18 anos – praticado tanto ao ar livre como em um formato mais urbano em local fechado. De acordo com dados do site das Olimpíadas, existem mais de 25 milhões de praticantes em 150 países.
A escalada esportiva está fazendo sua segunda aparição olímpica, mas Paris 2024 marca a primeira vez em que o evento combinado de boulder + guiada foi separado da velocidade, como é o padrão para o esporte. A grande mudança na escalada esportiva para Paris 2024 foi o aumento de provas, que incluiu duas no masculino e duas no feminino, o dobro de Tóquio 2020.
O que antes era um combinado de boulder, lead e velocidade mudou para dois eventos de escalada por gênero: o combinado boulder-lead e a escalada de velocidade. Nas Olimpíadas, a escalada esportiva envolve três modalidades: boulder, velocidade e guiada (lead).
No boulder, os atletas escalam paredes de 4,5m de altura sem cordas em um período limitado de tempo e com o menor número de tentativas possíveis. A prova de velocidade é uma corrida contra o relógio em rodadas de eliminação, um contra um. Os melhores atletas escalam uma parede de 15 metros de altura em menos de seis segundos para homens e sete segundos para mulheres.
Já na prova guiada (lead), os atletas escalam o ponto mais alto que conseguirem em uma parede de 15 metros de altura em seis minutos sem conhecer o percurso com antecedência.
A escalada contou com 68 atletas neste ano em Paris, 28 a mais do que em Tóquio em 2020. O Brasil ainda não teve um representante da modalidade nas Olimpíadas. Felipe Ho foi o brasileiro que chegou mais próximo à vaga para Paris 2024, ficando dez posições na linha de corte.

Edição: Arthur Raposo Gomes
Imagem de destaque: Getty Images 2024
