Ana Messias, Clara Damasio e Jak Azevedo
São João del-Rei, localizada em Minas Gerais, é uma cidade que carrega consigo séculos de história, e é um verdadeiro tesouro da arquitetura. Fundada no início do século XVIII, ela é um dos principais marcos do ciclo do ouro no Brasil e, ao longo dos anos, tornou-se um dos destinos turísticos mais procurados do estado. Suas ruas de pedra, ladeadas por casas coloniais, igrejas barrocas, e a rica tradição cultural fazem de São João del-Rei uma parte importante do patrimônio histórico nacional.

Mas este encanto que atrai tantos visitantes também traz desafios significativos para a preservação desse legado. Com o crescimento do turismo surgem questões sobre como proteger e manter esse patrimônio, sem comprometer a história e a integridade da cidade.
Turismo: um fator econômico importante, mas desafiador
Nos últimos anos, o turismo em São João del-Rei vem se intensificando, especialmente durante períodos festivos como a Semana Santa, quando a cidade se torna o centro de procissões e celebrações religiosas que atraem milhares de fiéis e turistas. Além disso, festivais culturais e eventos universitários contribuem para um fluxo constante de visitantes durante o ano todo.
Essa movimentação promove um impacto econômico vital para a cidade. Hotéis, restaurantes, lojas de artesanato e guias turísticos são alguns dos setores que se beneficiam diretamente desse movimento.
Alexandre Fernando Guimarães, 43 anos, guia turístico em Tiradentes e São João del-Rei há 14 anos, vê o turismo como uma força positiva: “eu vejo o turismo como algo positivo, isso acaba ajudando a disseminar informações sobre nossa história, além de ajudar na geração de renda. Alguns locais onde ocorre o turismo em massa podem ser prejudiciais, mas não é o caso de São João del-Rei”.
Apesar dos benefícios econômicos, Alexandre também ressalta os desafios que acompanham esse crescimento: “o principal desafio na preservação do patrimônio é a conscientização, inclusive o senso de pertencimento que os jovens não estão tendo. Falta falar sobre isso nas redes de ensino. Precisamos que a rede pública de ensino reforce a importância com os nossos jovens”.
Além da educação, ele aponta para a necessidade de uma ação mais robusta da administração municipal. “A prefeitura também precisa atuar nessa frente, fiscalizando e proibindo construções que alterem a vista da paisagem, e focando na contratação de mão de obra qualificada para o pleno funcionamento dos atrativos turísticos”.

Também entrevistado, Helbert Ignacio Silva, 34 anos, servidor público federal e pesquisador em Políticas Públicas, vê o turismo como um aliado na preservação do patrimônio cultural.
“Não acredito que o turismo prejudique o patrimônio cultural material de São João del-Rei. Pelo contrário; os bens tombados podem se beneficiar da atividade turística. Essa é uma indústria geradora de emprego, renda e de recursos para os cofres do Estado, por meio do recolhimento de impostos”, afirma.
No entanto, Helbert aponta um problema fundamental: a gestão pública. “O real problema é a incapacidade do poder público municipal em promover políticas públicas para a promoção do turismo, que considerem as características do nosso conjunto arquitetônico e que tenham como âncora a sustentabilidade. O turista que visita a cidade quer mergulhar na história, na cultura e na gastronomia local. E se for bem tratado, se constatar que há manutenção regular dos monumentos, das vielas, ele volta. Essa visão do turismo como vilão da preservação está superada”.
Os desafios de preservar o passado em meio ao crescimento
A preservação do patrimônio histórico em uma cidade como São João del-Rei requer um equilíbrio delicado entre manter as características originais e adaptar-se às necessidades modernas. As igrejas, construídas no século XVIII, por exemplo, necessitam de manutenção constante, mas as técnicas de restauração precisam respeitar os métodos e materiais originais para não descaracterizar essas construções.

Helbert destaca a Serra do Lenheiro como um exemplo de área que precisa de maior proteção.
“A Serra do Lenheiro, por exemplo, abriga pinturas rupestres que remontam as origens da ocupação humana deste território há milhares de anos. Além disso, a natureza foi generosa: a serra conta com fauna e flora exuberantes, cachoeiras, formações rochosas… Há, inclusive, um grande potencial para o fomento do ecoturismo. Mas, hoje, a área está sob risco. É necessário e urgente que o poder público local saia da inércia e atue na proteção ambiental da Serra do Lenheiro, alvo de depredações e incêndios frequentes”, advoga.
Iniciativas para proteger o patrimônio
Em uma entrevista com o professor dos cursos de Arquitetura e Urbanismo e Design e diretor-presidente do Instituto Território das Vertentes, Vasco Caldeira da Silva, foi questionado sobre os desafios da preservação do patrimônio histórico.
A resposta de Vasco revela a possibilidade de uma relação equilibrada entre o turismo e a cultura. “O turismo é o que pode salvar o histórico cultural de uma cidade”, ele diz.
De acordo com seu ponto de vista, o turismo e a cultura têm uma relação direta com a escala de investimento, sendo diretamente ligado ao capitalismo. “Se você deixar o mercado cuidando do patrimônio você vai deixar a cultura em lugares comuns”.
Vasco é um forte defensor da atualização dos conceitos de turismo e de patrimônio. Ele destaca a importância de diferenciá-los. E quando questionado sobre o Instituto em que é diretor-presidente, Vasco deixa claro que seu objetivo não é focar apenas na comunidade de São João del-Rei. Segundo ele, “a regionalidade não obedece fronteiras”.
Marcos Frois, secretário de Cultura e Turismo de São João del-Rei, também compartilha sua visão sobre o impacto do turismo na preservação do patrimônio histórico da cidade.
Ele acredita que “o turismo obviamente não prejudica a preservação histórica e cultural de São João del-Rei. As pessoas virem conhecer nosso patrimônio é excelente, porque temos uma variedade imensa de riquezas culturais e arquitetônicas a oferecer. Não existe um turismo sustentável se não cuidarmos da nossa identidade, da nossa cultura, culinária, gastronomia, arquitetura e por aí vai”.
Marcos destaca ainda que “o turismo traz muitos benefícios para São João del-Rei, inclusive benefícios financeiros. A gente tem visto também um crescimento da educação patrimonial, com muitas escolas indo com seus alunos, juntamente com os guias, conhecer nossa cultura. O turismo ajuda tanto na questão financeira, quanto na questão de manter viva a história da cidade”.
Perspectivas da comunidade local
Enquanto especialistas e gestores trabalham para proteger o patrimônio de São João del-Rei, os moradores da cidade vivenciam, em primeira mão, as mudanças trazidas pelo turismo. Para muitos, o crescimento turístico é uma faca de dois gumes: por um lado, ele traz desenvolvimento econômico e oportunidades, mas, por outro, pode alterar o tecido social e cultural da cidade.
Natália Vitória, 18 anos, estudante de Jornalismo e natural de São João del-Rei, acredita que a cidade ainda carece de um turismo mais ativo.
“Eu, na verdade, acredito que falta turismo aqui na cidade. Faltam formas de atrair mais turistas. Se o turismo crescesse, os esforços para preservar o patrimônio iam ser maiores. No Centro Histórico, por exemplo, nada funciona no fim de semana, é um Centro Histórico vazio. Aí o pessoal acaba indo pra Tiradentes, Bichinho, onde eles encontram mais atrações”, comenta.
Enquanto isso, a visão de Henrique Carvalho, estudante de Teatro, e também são-joanense, é diferente. “A Igreja de São Francisco de Assis, é um dos patrimônios mais importantes da cidade, com uma arquitetura e detalhes incríveis. Porém com a grande quantidade de visitantes, a igreja sofre muito desgaste. Seria importante cuidar melhor dela para garantir que continue preservada para o futuro”.
Edição: Arthur Raposo Gomes
