“O PANORAMA PRA NOSSA VIDA É CRIADO PELO CINEMA”, AFIRMA COORDENADOR-GERAL DO “CINECLUBE GALERIA”

Cecília Rodrigues

O cinema é algo inseparável da vida social humana, que já teve seus momentos de glória. A constatação é feita pelo professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e coordenador do projeto “Cineclube Galeria“, João Barreto.

Ao Notícias del-Rei, João explica a proposta do Cineclube, que funciona em parceria com a Galeria Adro: mensalmente, ocorre a exibição de filmes não-comerciais e, após o público assistir o vídeo, acontecem debates sobre os assuntos e os pontos de vista percebidos.

Os filmes, segundo o professor podem ser manifestações audiovisuais diversas – desde documentários e filmes de arte, até produções independentes e realizações de países periféricos. Filmes que marcaram a história do cinema pela temática ou desenvolvimento da linguagem cinematográfica também estão na programação prevista pela coordenação do projeto, que abrange vários docentes de diferentes áreas e departamentos da universidade.

O “Cineclube” é aberto ao público e totalmente gratuito. Todos são incentivados, segundo João, a convidarem algum acompanhante e divulgar o projeto para a comunidade externa. Para mais informações, acesse o Instagram @cineclubegaleria.

O poder do documentário e do audiovisual

O audiovisual no Brasil, para João, por muito tempo foi subestimado por ter uma característica visual de baixa qualidade. Além disso, seu impacto em terras nacionais aconteceu, majoritariamente, pela televisão – como uma progressão do rádio.

Apesar disso, o professor considera o cinema como algo inseparável da vida social humana, que já teve seus momentos de glória. Hoje em dia, é percebida uma fase no qual o cinema é diluído em diversas plataformas digitais, e onde os “sucessos” parecem cada vez mais temporários, pois não há tempo para respiro e debate das obras antes que outra chegue ás nossas telas.

Já sobre o documentário, João Barreto diz que o gênero não costuma ser muito difundido pela preferência das pessoas pela ficção. O que passa despercebido, entretanto, conforme apontado pelo professor, é que a ficção e o documentário são mais parecidos do que parecem, e muitas vezes podem se misturar na mesma obra.

O sistema documental existe para cobrir uma lacuna na cobertura de temas. Na maior parte das vezes, o documentário vem com a função de falar sobre um assunto espinhoso, delicado ou “tabu” demais, que seria evitado pela televisão pelo medo de assustar ou perder sua audiência. Essa lacuna percorre diversos âmbitos, sejam eles intelectuais, temáticos, econômicos, políticos, sociais e culturais, e apenas o documentário tem o poder de trazer esses temas á tona para o debate.

O debate, ou a falta dele, é outro tópico que preocupa o professor João Barreto. De acordo com ele, a crítica sobre a arte era um ponto inicial para conversas – onde uma opinião não era necessariamente levada como verdade absoluta, mas instigava um debate geral sobre diferentes pontos de vista e interpretações diferentes.

Porém, hoje, com o avanço das Inteligências Artificiais, essas críticas vem se tornando cada vez menos humanas, considerando que você pode só pedir para que uma IA analise uma obra audiovisual para você e você receberá a resposta. Isso, para ele, mata lentamente as discussões, já que ninguém gostaria de debater com uma máquina. A IA se torna um ponto final para a análise crítica, ao invés de uma vírgula.

Quando perguntado sobre o poder que o audiovisual exerce em nosso cotidiano sem que percebamos, João Barreto diz que o cinema, a televisão e a internet criam uma bagagem que pode se parecer com as nossas vidas. Ou seja, causam identificação e podem até mesmo servir de guia para o futuro.

“O parâmetro pra nossa vida é criado pelo cinema (…) A narrativa é um farol voltado para trás, iluminando o caminho de quem vem“, avalia João Barreto.

Recomendações e conselhos

Quando perguntado pela reportagem sobre recomendações de filmes e/ou documentários que são necessários para todos, João Barreto ri e diz que sua lista sempre muda, mas recomenda as seguintes obras:

  • “Visage” (2017), de Agnés Varda;
  • “Jogo de Cena” (2007), de Eduardo Coutinho;
  • E “Ilha das Flores” (1989), de Jorge Furtado.

De acordo com o professor, os filmes são suas recomendações por mostrarem formas diferentes de se criar um documentário – até mesmo parecendo pertencerem a gêneros diferentes e mostrando pontos de vista diferentes sobre a vida.

E, para todos aqueles que estão começando no jornalismo e buscam entrar no setor cultural, João deixa um único conselho: “Coloquem a mão na massa”. De acordo com ele, tudo que se aprende deve ser na prática – através de muita produção e erros, risadas, voltas, correções, pesquisas… É importante saber quando deixar pra lá e quando insistir, usar a internet e suas possibilidades para fazer cursos, e, principalmente, ver muita coisa e ouvir muitas pessoas.

Como tudo começou?

Nascido em Vitória, capital do Espírito Santo, João Barreto da Fonseca hoje é professor do curso de Comunicação Social – Jornalismo, lecionando as disciplinas de “Jornalismo Cultural” e “Documentário”. Não só isso, ele também é autor, tendo duas obras publicadas até então: “Carne Crua” (2009), livro de contos, e “Ver e Contar: Cinema, Literatura e Jornalismo” (2006).

João Barreto diz que se lembra de ver muitos filmes desde a infância. Na época onde os cinemas ainda eram de rua, João e sua família conheciam as pessoas que trabalhavam nas salas, que o deixava à vontade para assistir o que quisesse, até mesmo filmes “de adulto”.

João também se lembra de um momento onde sua irmã namorava um dono de cabine do cinema: ele era enviado pelos pais pra vigiar o casal – e ele aproveitava a oportunidade pra ficar lá, assistindo filmes.

Quando o assunto é literatura, diz que sempre gostou de ler, e que, inclusive, seu primeiro trabalho foi ler histórias para crianças que não eram alfabetizadas. Em relação a todas suas paixões artísticas, João declara que não foi uma escolha gostar do que faz, mas aceitou de bom grado o que caiu no seu colo.

Formou-se em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) em 1987, e se tornou professor em 2000, o mesmo ano em que começou seu mestrado em Estudos Literários. Em 2008, terminou seu doutorado em Tecnologias de Comunicação Estética, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Já trabalhou por onze anos como jornalista cultural, e nesse período foi crítico de literatura, cinema e música. Após começar a lecionar na UFSJ, coordenou muitos projetos de extensão antes do “Cineclube”, como o “Observatório da Cultura”, que consistia na manutenção de um blog sobre a cultura de São João del-Rei e região. Também trabalhou com iniciação científica, área para qual está retornando esse ano.


Edição: Arthur Raposo Gomes

Imagem de destaque: Arthur Raposo Gomes

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