Eduarda Bataglia
Desde sua popularização, seja dentro ou fora do país, o futebol sempre foi um meio majoritariamente masculino. Isto é um problema? Talvez não seria, se não tivesse por trás desta “diferenciação” um machismo estrutural que via e vê em muitas situações até os dias atuais mulheres como não aptas a este local de trabalho, ou até mesmo de hobbie.
Estes episódios ocorrem com grande frequência, por mais que, na atualidade, muitas mulheres tenham conseguido alcançar espaços consideráveis no meio futebolístico. Cenas como estas de descriminação, ofensas escondidas de “críticas construtivas” vêm crescendo cada dia mais, e é possível notá-las em muitas das entrevistas ou até relatos por meio das redes sociais.
A atual presidente do Palmeiras, Leila Pereira, foi convidada pela apresentadora Ana Maria Braga para um café em seu programa “Mais Você” (TV Globo) na data de 14/03/2024. Entre os assuntos conversados, Leila relatou um ataque que havia sofrido pelo atual diretor de futebol do São Paulo Futebol Clube (SPFC), Carlos Belmonte, por uma confusão pós-Choque-Rei.
A presidente explicou que tudo começou em uma entrevista, onde relatava os desafios de ser uma mulher de um cargo alto no futebol brasileiro. Leila diz que o diretor de futebol do clube tricolor debochou de suas falas, e a mesma não deixaria a situação “barato”. “Até as críticas que recebo de parte da imprensa e de torcedores, se eu fosse homem elas não aconteceriam. Tem determinadas atitudes de dirigentes homens de um histerismo absurdo, que se é uma mulher, ‘está louca, destemperada”, comentou.
O incidente foi resolvido por meio de um acordo entre o São Paulo e o Tribunal de Justiça Desportiva (TJD). O clube tricolor acertou pagar R$ 205 mil em multas para não levar o caso para julgamento, evitando correr o risco de perder jogadores na sequência do Campeonato Paulista.
Ao ler um caso como o citado acima, reflete em como comportamentos normais do dia a dia, como um estresse causado por trabalho, um comentário ouvido em algum momento do dia (seja ele construtivo ou não) pode ser aceito com facilidade se vindo de um homem. Já que, teoricamente, homens podem ser “estressados”, “grossos”, “autoritários” pois foi normalizado à sociedade que estes comportamentos remetem a uma real masculinidade, e homens que não possuem este tipo de comportamento repentinamente podem ser considerados “menos masculinos”.
Outro caso recente, ocorreu com a comentarista Renata Silveira, que desde o início de seu trabalho, vem sofrendo extremas críticas na maioria das vezes misóginas vindas de comentários em redes sociais. O episódio deu-se após Renata reagir ao comentário de um internauta, que citou a comentarista em uma reclamação do jogo entre Internacional e Corinthians, ocorrido na data de 19/06/2024.
Porém, Renata não acompanhava a partida: “Não sei o que foi pior hoje, o time do Corinthians ou a narração da Renata” apontou o rapaz. Logo, Silveira respondeu com o seguinte comentário: “Deve ter sido o time, até porque não narrei esse jogo. Me esquece”. Com a repercussão ruim da mensagem deixada a respeito da comentarista, o internauta acabou apagando o post.
“Agora fico com vocês lá no Instagram. Vou fechar a conta por aqui. Por lá vou continuar postando a agenda de jogos e trocando mensagens com vocês. Minha conta oficial a partir de hoje vai ser apenas no Instagram”, relatou por meio de suas redes sociais a comentarista após o incidente.
Situações como essas, ocorrem em baixa frequência para homens, tanto no meio profissional quanto no meio casual. Um cenário parecido com a ocasião de Renata, ocorreu por meio de aspas a um comentário feito pelo comentarista Gustavo Villani: “Ê Brasilzão, cadê você nessa final” através de uma narração pós final da Eurocopa na data de 14/07/2024.
O comentário do narrador dividiu opiniões na internet pela contradição de citar o Brasil numa narração referente à final da Eurocopa, competição à qual o Brasil não pertence. Em um post feito pela jornalista Tau Rodrigues no X (antigo Twitter) a internauta reforçou que, se o mesmo comentário fosse feito pela comentarista Renata Silveira, não seria aceito da forma que foi pela internet.
A opinião da jornalista foi questionada por um internauta, que defendeu a fala de Villani: “Ele não falou isso, primeiro ele disse que teria Argentina x Colômbia às 20:30 na Globo, com narração de seu colega. Logo após, preencheu dizendo “Ê Brasilzão, cadê você nessa final?”. Tau rebateu o rapaz em sequência: “Tudo bem, se fosse a Renata no mesmíssimo contexto, ninguém iria querer saber o que ela falava antes”.
Incidentes machistas neste meio não deveriam ser normalizados em nenhuma circunstância, mas sim rebatidos para que não ocorram novamente. É muito triste que, mesmo com a maior ocupação de mulheres em meios “masculinos”, ainda haja situações e desafios que temos de lidar para não desistir de nossas profissões dos sonhos, hobbies/diversões, que são coisas comuns na vida de qualquer pessoa.
Se privar de viver sua vida e fazer o que gosta não deveria ser algo inalcançável apenas por sermos de um sexo diferente. Apenas prezamos por um mundo mais igualitário em diversas áreas para todos.
Imagem de destaque: reprodução / Instagram – Renata Silveira
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