Lívia Godoi
Eu tenho sonhado com você semanalmente desde o dia da sua viagem. Minha mãe fala que é a saudade batendo na porta, mas eu sei que no fundo é uma forma de negação, porque eu me nego, todos os dias a acreditar que sua viagem não tem data de volta, eu vejo suas fotos e me nego mais ainda. “Caramba! Você ainda tinha tanta vida”.
Esperei ansiosamente por dias uma ligação sua, mas o celular parecia estar em modo avião. Passei em frente da sua casinha e estava tudo igual, mas ao mesmo tempo diferente, pela primeira vez em todos esses anos senti o silêncio gritar. Me questiono todos os dias porque o ciclo da vida precisa ser tão cruel.
Mas chega um momento que cansamos de ser fortes, e eu cansei. Em uma noite de domingo, quebrei nossa promessa e chorei, fiquei esperando você puxar o meu pé, você também tinha prometido. O desespero deixa a gente doido. Eu apenas queria te ver de novo e essa era minha única opção, mas você não veio e o peso do “nunca mais” me atingiu como uma dose forte em um estômago vazio.
Tentei culpar o dia, afinal, quem realmente gosta de domingos?
Na verdade a gente sempre acha que teremos mais tempo, e quando caímos em si, o tempo já se findou e nos tornamos pó. Procuramos culpados, buscamos os “e se” para aliviar a nossa própria culpa, mas isso adianta o quê?
O tempo perdido não vai voltar mais; a areia da ampulheta já se esvaiu, e no próximo minuto ela será novamente girada. o ciclo deve continuar, por mais que doa e rasgue a nossa alma.
Você sempre me disse que eu me cobrava demais.
Será que as flores que te dei em vida foram realmente suficientes?
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