Livia Godoi
De acordo com a plataforma de distribuição digital de música ONErpm no rap as mulheres são apenas 8% e os homens 92%. Mesmo com esses números absurdos, as irmãs Tasha & Tracie representaram o Brasil em 2022 no BET hip hop Awards uma das maiores premiações do rap no mundo, sendo as únicas brasileiras no evento.
O rap brasileiro, nascido nas periferias e dando voz às classes marginalizadas e excluídas, tem sido uma importante forma de protesto social. Entretanto, como qualquer protesto cultural, não escapa de reproduzir as mesmas opressões que combate. Uma dessas pautas é o machismo, evidente em diversas músicas e atitudes dentro do movimento.
O rap vem ganhando mais força e reconhecimento no Brasil, contudo quando se fala de rap a referência que sempre surge de imediato é a figura masculina, infelizmente o espaço da cena se mantém majoritariamente ocupado por homens.
Reconhecer a presença do machismo no rap é crucial, sendo este um fenômeno que não se limita apenas no Brasil. No entanto, por aqui, essa problemática se intensifica devido à nossa herança patriarcal e à marcante influência da cultura de massa, que costuma perpetuar padrões de comportamentos sexistas. O rap, ao refletir a sociedade, acaba reproduzindo tais questões. É de suma importância que os homens no rap e na sociedade comecem a se envolver nessa discussão e a consumir conteúdos feitos por mulheres.
Nos últimos anos, tem se observado uma mudança significativa, artistas mulheres como Negra Li, Karol Conká, Ebony e as gêmeas Tasha e Tracie têm ocupado um espaço no gênero diversificando o que está enraizado na cultura. O descontentamento das rappers mulheres tem sido tanto que a cantora Ebony lançou em novembro de 2023 em seu canal do YouTube: “Espero que Entendam” a música segue o costume do “diss”, o famoso “falar mal” das batalhas de rap. Na faixa, Ebony cita, sem filtro algum, os rappers brasileiros BK, Baco Exu do Blues, Filipe Ret, Orochi, L7NNON, Djonga Kyan, entre outros, enquanto expõe a falta de apoio às mulheres da cena.
“Espero que vocês entendam, vida, ahn/ Adoro as músicas, mas preciso provar meu ponto/ Eu tenho o rosto, tenho o corpo e eu tenho a rima/ Se eu tivesse um p*u, os bofes iam tá mamando“, diz o refrão.
O diss em questão trouxe uma visibilidade gigantesca para a artista, na madrugada do lançamento foi parar entre os tópicos mais comentados do X (antigo Twitter), dividindo opiniões a faixa ganhou uma repercussão inimaginável, inclusive entre os artistas citados. Durante a música “Ebony” cita o feat do rapper Baco Exu do Blues com a cantora Luísa Sonza e traz a tona um comentário feito pelo mesmo sobre sua carreira.
“Soube que o Baco disse que eu sou superestimada por ser sudestina / Mas me botou nos melhores para eu ver a rotina / No início achei que era onda / Aí ele foi e fez um feat. com a Luísa Sonza / P*rra, vida, por favor se manca, sustenta tua banca / Eu nem sou tua namorada e me trocou por branca”
Baco embora desconfortável, curtiu a alfinetada respondeu: “Espero que depois de hoje toda essa galera continue consumindo o trampo da Ebony e de outras minas. Foi brabo, me lembrou 2016 “, comenta Baco no X (antigo Twitter), mas depois apagou.
O rap, em sua essência, é uma voz de resistência e mudança, e é através dessa mesma voz que podemos e devemos combater todas as formas de opressão, inclusive o machismo.
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