Róbson Melo
Durante o tempo da minha graduação na UFSJ, a Serra de São José foi um dos lugares que mais frequentei em São João del-Rei. Ao contrário da maioria dos universitários, eu preferia dormir cedo numa sexta-feira para aproveitar o fim de semana caminhando pelas inúmeras trilhas da serra.
Vista de Tiradentes, a Serra de São José se revela uma imponente muralha de quartzito com cerca de 12 km de extensão e mais de um quilômetro de largura. Um lugar perfeito para arejar a cabeça e recarregar as energias para a rotina de trabalho e estudo.
Em uma dessas caminhadas durante o final de semana, encontrei um grupo de pessoas caminhando pela crista da serra com mochilas e bastões de apoio. Após uma rápida conversa com o grupo descobri que estavam fazendo a travessia de toda a extensão da serra, saindo de Prados e encerrando em São João del-Rei. Já tinha ouvido falar sobre essa travessia, mas pouca coisa. A partir desse dia comecei a pesquisar sobre a travessia em blogs de trekking para planejar a caminhada. Durante a semana convidei alguns amigos para encarar essa aventura juntos, mas como ninguém topou decidi fazer a travessia em carreira solo durante os dias 6 e 7 de abril como um desafio pessoal de superação física e mental. No fim, encarar a travessia de 23 km de distância sozinho foi a melhor coisa que fiz.
Após pensar na logística e no orçamento humilde de universitário, o melhor roteiro seria fazer a travessia saindo de Prados e finalizar em São João. Então, o plano era embarcar no ônibus coletivo para Prados às 7:15, onde iniciaria a caminhada próximo da entrada da cidade até chegar no topo da serra, seguindo pela crista na direção sudoeste até o outro extremo, onde está localizada a Cachoeira Bom Despacho, já na divisa entre Santa Cruz de Minas e São João del-Rei para finalizar a travessia em 2 dias e uma noite.
Primeiro dia
Cheguei na rodoviária nova de São João del-Rei faltando cinco minutos para a saída prevista do ônibus da viação São Vicente. Os poucos passageiros no coletivo ficavam me olhando com cara de intrigados, talvez se perguntando onde esse jovem iria com uma mochila desse tamanho nas costas. Paguei R$ 12,50 na passagem e pedi pro motorista parar no bairro Pinheiro Chagas, início da caminhada.
Durante o percurso do ônibus na rodovia 383 dá pra ver toda a extensão do lado norte da serra de São José. A manhã estava fresca e o céu totalmente azul, clima perfeito para caminhar. Às 7h45 o motorista do ônibus parou o coletivo e deu um grito: “é aqui mochileiro!”.
Após desembarcar no bairro Pinheiro Chagas, conversei com um rapaz à cavalo e segui por uma rua de blocos de concreto no sentido contrário do ônibus, na direção da serra. A minha referência era passar pela Casa da Serra de São José, uma das sedes do IEF local que cuida da APA da serra e da RVS (Refúgio da Vida Silvestre) Libélulas da Serra de São José.

Em mais 5 minutos de caminhada e entrei numa estrada de terra para alguns metros à frente passar ao lado de uma gigantesca caixa d’ água da Copasa. Alguns metros adiante e passei pela Casa da Serra IEF, também à margem direita da estrada. É um trecho tranquilo e que não tem como errar, basta seguir pela estrada de terra na direção da base da serra.
Junto a um portal, uma enorme placa de madeira assinala que estava na Estrada Parque Passos dos Fundadores e cada vez mais a base da serra se aproximava. Passei por alguns sítios e trechos de mata atlântica na estrada. Depois de 2 km pela estrada desde Pinheiro Chagas cheguei ao início da trilha. Não há uma placa sinalizando o acesso à base da serra. O ponto de referência é uma casa de tijolos a vista aparentemente abandonada que fica ao lado direito da Estrada Parque. Aqui é preciso pular a cerca de arame farpado para acessar uma área de pasto e depois seguir para o topo da serra por trilha demarcada em meio a mata.
Cruzei uma cerca quebra corpo (em Minas chamam de passador), que impede a passagem de animais, e com 10 minutos desde a estrada emergir nos campos rupestres, marcada por uma pequena casa de pedras em ruínas. Nesse trecho da trilha tem muita pedra solta e o risco de escorregar é grande, já que a subida é íngreme e quase um zigue-zague serra acima. O local era uma antiga pedreira de Prados. A trilha é bem demarcada e em alguns pontos há setas de madeira orientam que caminho seguir. Pequenos poços com água das chuvas surgem nesse trecho, mas não recomendaria o consumo dessa água.
Conforme ia subindo, a cidade de Prados vai surgindo atrás de mim e diversos mirantes convidam para apreciar a vista. Daqui em diante é a típica vegetação de cerrado, com uma árvore aqui, outra ali, arbustos, gramíneas e muita formação rochosa. Quando cheguei no topo da serra o visual se abre sem fronteiras. São nove e meia da manhã e a altitude aqui é de 1350 metros. Mais alguns minutos caminhando e passei ao lado de um lindo mirante, chamado de Garganta do Diabo. É um grande desfiladeiro que convida a observar a densa vegetação no sopé da serra.
A trilha estava bem demarcada e segui tocando pra cima até chegar em um Cruzeiro e uma Rosa dos Ventos pintada em cima de uma grande base de concreto (não deve ter sido fácil e parabéns para quem fez). A vista é voltada para o Distrito de Bichinho em primeiro plano e Tiradentes ao fundo. A mescla entre a densa porção de mata atlântica no sopé da serra e a vegetação dos campos rupestres na crista torna essa travessia especial. O visual é de cair o queixo!

A partir daqui é a parte mais complicada dessa travessia e nos relatos que tinha lido, todos comentavam sobre a dificuldade desse trecho, já que a trilha não é tão demarcada. A ideia era seguir pelos cumes da serra, mas de repente não tinha mais caminho e nem os vestígios dele. A trilha sumiu. Fui seguindo os tracklogs que tinha salvado no celular, descendo a serra. É quase que uma caminhada só no visual, se orientando pela intuição e alguns totens. É um trecho curto, de uns 15 minutos perdendo altitude e depois de contornar enormes rochas encontrei outra trilha mais demarcada.
Finalizado o trecho complicado, já estava bem abaixo da crista e ia seguindo por trilha demarcada sem ganhar muita altitude. É meio dia e o sol castiga. São raros os pontos de sombra durante a travessia. A melhor época para fazer essa travessia é durante o inverno.
De agora em diante a caminhada é em declive por trilha erodida sem grandes dificuldades, alternando com trechos planos. Passei ao lado de uma cerca de pedras e às 13h30 cheguei num grande descampado no meio de algumas árvores, perfeito para acampamentos e para um longo descanso, já que a área é quase toda sombreada.
Breve descanso para beber água e retomei a caminhada, agora subindo a encosta íngreme até chegar na borda do paredão, permitindo uma linda vista à esquerda. Cada vez mais ia para dentro da serra, contornando grandes formações rochosas e muita vegetação de arbustos.
Surge de vez em quando uma ou outra bifurcação, mas mantendo a trilha principal pela crista da serra não tem erro. Na verdade essas bifurcações voltam a se encontrar com a trilha principal mais adiante. A caminhada segue pelo meio da serra, às vezes retornando para a encosta à esquerda, passando ao lado de vários mirantes e bons lugares para acampamentos.
Não muito longe da borda do paredão, a trilha segue em declive por um pequeno trecho de descida por lindos mirantes, onde dá pra ver um grande descampado e a bifurcação com a trilha do Carteiro lá embaixo.
Quase no fim da tarde cheguei na bifurcação com a Trilha do Carteiro, onde várias placas de madeira sinalizam “Águas Santas, Mangue, Cachoeira Bom Despacho, Tiradentes”.
O lugar é plano, com espaço de sobra para inúmeras barracas. Para a esquerda é a trilha que desce a serra na direção de Tiradentes. Para a direita é a continuação da Trilha do Carteiro que leva até a Cachoeira do Gamelão e seus inúmeros poços ao longo das quedas. E seguindo em frente pela crista da serra seria meu destino para o dia seguinte.

Montei a barraca e ainda deu tempo de uma rápida descida no Gamelão para um banho gelado. Revigorado, agora era hora de preparar o jantar e descansar. Macarrão com carne moída foi o menu preparado sob as estrelas. A lua cheia refletia nos paredões de quartzito e na areia branca do chão. Céu totalmente aberto mostrando a Via Láctea, como se fosse uma faixa de luz de ponta a ponta com suas constelações. Me afastei da barraca e caminhei em direção ao mirante para ver as luzes amarelas das ruas históricas de Tiradentes.
O som do sino da igreja Matriz de Santo Antônio badalava suave sinalizando a missa das 7. Ouvir um sino de igreja acampando no alto de uma montanha me fez lembrar que estava em Minas Gerais. Fui muito feliz vivendo aquela noite maravilhosa.

Segundo dia –
Minha ideia era acordar antes do sol para ver o dia nascer, mas o cansaço falou mais alto. Caminhar com o sol rachando na cabeça cansa de um jeito diferente. Às 8:30 saí da barraca pra ver um horizonte sem fim iluminado pelo sol da manhã. Tomei um café da manhã ligeiro e organizei a mochila para começar a caminhar. Vão surgindo inúmeros mirantes junto da borda com vista para Tiradentes e mais algumas faixas de areia branca ao longo da trilha.
Às dez da manhã cheguei a uma árvore destoante com um balanço que fornece sombra. Subindo as rochas atrás dessa árvore há um belíssimo mirante à beira do precipício com vista panorâmica de Tiradentes. Já tinha ido neste mirante da árvore em uma caminhada com um grupo de brigadistas de São João del Rei. Mesmo assim o visual me impressionou de tal forma que resolvi tomar um segundo café da manhã neste ponto para contemplar melhor o visual.

A partir desse ponto a trilha se divide em duas. Uma que segue beirando o paredão, sempre pela crista e outra que segue descendo um pouco a encosta da serra pela direita, na direção do fundo do vale. Como já conhecia as duas trilhas a partir desse ponto, optei por seguir pela crista passando por inúmeros mirantes, já que o visual é mais bonito. É um trecho pequeno em declive acentuado até interceptar a trilha principal mais abaixo, que de agora em diante segue perdendo altitude, sempre pela borda da serra.
Surgem trechos de erosão e outro muro de pedras é cruzado. A vegetação de cerrado ainda se mantém e conforme descíamos pela trilha, cada vez mais nos aproximávamos do fundo do vale.
Passamos por alguns descampados e pouco antes das 13:00 cheguei ao extremo da Serra de São José, onde a trilha principal se encontra com outra trilha que vem da direita e que leva até o Balneário Águas Santas. Mas meu destino é seguir para a esquerda, ao lado do Córrego do Mangue.
Protegido pela mata ciliar, ao longo do rio surgem de vez em quando bifurcações que levam a pequenos poços e numa delas chega a Cachoeira do Mangue. O sol torrava a cabeça. Desci na Cachoeira do Mangue e lá fiquei aproveitando aquele final de tarde de sol por mais de uma hora. A água gelada renova a alma e a vontade de caminhar.

Voltei para a reta final da travessia e com mais 5 minutos de caminhada surge uma bifurcação à esquerda que leva diretamente para a cidade de Tiradentes, sendo conhecida como Trilha do Pacu. Não era esse o nosso objetivo, pois ainda queria dar um mergulho na Cachoeira do Bom Despacho.
Depois de 20 minutos de caminhada cheguei no mirante da Cachoeira dos Anjos ao lado, onde uma pequena quantidade de água escorria pelo paredão. Desse ponto dá pra ver a linha férrea da Maria Fumaça e alguns trechos do Rio das Mortes lá embaixo. Saindo dessa piscina natural o rio segue um trecho através de um pequeno vale até chegar ao topo da Cachoeira Bom Despacho, um pouco mais adiante.
Tirei algumas fotos e desci o trecho final pelo meio das pedras, na lateral da cachoeira para finalizar na sua base, próximo ao totem da Estrada Real, onde finalizei essa travessia.
Na estrada pavimentada com blocos de concreto, junto da entrada para a cachoeira tem um ponto de ônibus e agora era pegar o circular de volta para São João del-Rei e sonhar com essa caminhada.

Dicas e informações importantes:
- Ônibus São João del Rei x Prados: Viação São Vicente: (32) 3371-7855 www.viacaosaovicente.com.br
- Táxi de São João del Rei x Prados: em torno de R$100.
- É altamente recomendável o uso de boné ou chapéu de abas, já que áreas de sombra são raras.
- Protetor solar é item obrigatório.
- São pouquíssimas as fontes de água na serra. Vá preparado para não passar sede.
- Em toda a travessia da serra é possível conseguir sinal de celular.
- É possível completar essa travessia em apenas um dia, mas se aproveita pouco das cachoeiras e vista.
Edição: Arthur Raposo Gomes
Imagem de destaque: Róbson Melo
