ARTIGO: A NECESSIDADE MODERNA DE “DESMARCAR TELAS” – A CRIAÇÃO DE CINEMAS DE URGÊNCIA

Nina Delgado

Com o protagonismo midiático dos novos tempos em que convivemos com a incrédula necessidade de ser visto para ser legitimado como existente na sociedade, a Mídia Ninja, jornal independente que vem ocupando diversos espaços políticos, traz uma discussão interessante acerca do que chamam “cinemas de urgência”.

Diversos sociólogos já citaram o tema em questão, Zygmunt Bauman propõe uma atualização da frase de René Descartes (“penso, logo, existo”), para uma adaptação à emergência moderna: “sou visto, logo, existo”. E uma ferramenta de indiscutível relevância para a construção desse imaginário de presença é o audiovisual, que só cresce em índices de consumo no mundo inteiro.

Segundo pesquisa cooperada entre a Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura (SAv/MinC) e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), “a produção de conteúdo para cinema, televisão e vídeo sob demanda (VoD), dentre outras plataformas – apresentou, durante a última década, um crescimento superior à média dos demais setores produtivos”. Tendo estes dados como prova do crescimento da possibilidade de “se mostrar” pelas telas, juntou-se ao audiovisual moderno a necessidade de “dizer”.

Takumã Kuikuro, cineasta indígena Kuikuro tem em seu trabalho o objetivo de registrar sobretudo a história de seu povo e cunha a expressão de “demarcar telas”. Ele diz, em mesa de debate “Emergências: Cinema de urgência” da SEDA SP: “A câmera, uma flecha. O cinema, uma ferramenta. Lutamos através dela”.

Para pertencer ao imaginário coletivo, precisamos de uma dimensão fundamental na criação de um território imagético: intimidade. O “cinema de urgência” é uma atividade de sensibilidade, procura trazer discussões acerca do clímax político atual para colocar o que é deixado de fora para dentro da esfera coletiva, o que é alcançado pelo uso de estratégicas que choquem e sensibilizem. O “cinema de urgência”, faz uso da provocação de intimidade com temas para perpetuação de narrativas.

E defendo que, se uma história deixada nas margens da sociedade é porque está em caminho de esquecimento, seja ele forçado, como é muitas vezes, ou não.

O fenômeno de esquecimento pode parecer contemporâneo, mas tem raízes muito mais profundas e, como boa parte das feridas deste país, vem desde a colonização. O pensamento injetado e forçado europeu sobre os demais povos do mundo, trouxe consequências para a memória coletiva e algumas histórias foram realmente perdidas para sempre. O motivo disso se dá pela ordem de que “só o registro escrito era realmente válido”, a oralidade praticada por diversas etnias do mundo todo foi desclassificada como legítima na criação de territórios dentro da História.

Hambaté Bá em seu trabalho “Tradição Viva”, em que narra a oralidade como intrínseca ao pensar na construção de diversos povos no continente africano, diz: “o trabalho de coleta [de histórias orais] deve ser intensificado durante os próximos 10 ou 15 anos, após os quais os últimos grandes monumentos vivos da cultura africana terão desaparecido e, junto com eles, os tesouros insubstituíveis de uma educação peculiar, ao mesmo tempo material, psicológica e espiritual, fundamentada no sentimento de unidade da vida e cujas fontes se perdem na noite dos tempos.”

Para a “noite dos tempos” não chegar, foi-se observado o audiovisual como grande aliado nesta coleta, afinal, algo que pode ajudar na urgência de contar e eternizar histórias orais é justamente essa necessidade absoluta de visibilidade. Para fortificar o imaginário coletivo pode- se usar a nosso favor a emergência imagética, por meio dos “cinemas de urgência” que muitas vezes encontram lugar nesse fundamento: registrar a memória.

O audiovisual propõe algo diferente da escrita nestes registros, pois tem possibilidade colocar a pessoa como contadora da própria narrativa, com sua voz, seu rítmico, suas palavras. Quando transportada da oralidade para a escrita, muitas vezes a história passa por um mediador que infelizmente nunca vai conseguir transmitir todas as simbólicas de uma identidade particular.

Em conclusão, esse artigo visa defender a legitimação e presença dos “cinemas de urgência”, como trata a Mídia Ninja, na demarcação do território audiovisual do país, como ato político de preservação da memória e renegação do esquecimento colonialista.


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