CRÔNICA: BANGU, MAS NÃO O DO CASTOR

Eduarda Costa

Em uma pequena cidade entre muitas cidades mineiras, onde as ruas se ligam aos laços familiares, existe uma tradição que transcende gerações: o amor pelo futebol. Nessa família, a paixão pelo futebol é mais do que um simples hobby: é uma conexão que une pais e filhos, avós e netos. 

Minha memória não é muito boa, porém uma das minhas primeiras lembranças, além dos joelhos ralados, é estar no campo do Nacional no dia da final do campeonato vestindo uma camisa do Bangu três números maiores. Com meu tio no campo, meu pai, minha mãe, minhas primas e eu estávamos na arquibancada, compondo um mar de branco e vermelho vivendo as emoções que só o futebol pode oferecer. 

Não me lembro quem ganhou a final, mas me recordo do sentimento felicidade e pertencimento naquele fim de domingo usando a camisa do Bangu. Quando falo Bangu não é o famoso time do Castor de Andrade, mas o Bangu das Pedras – um time do interior do interior de Minas Gerais. 

Localizado no Corrego Das Pedras, bairro rural situado na cidade de Visconde do Rio Branco, o Esporte Clube Bangu das Pedras foi criado para todos os amigos que curtem um bom futebol amador. E o que começou como uma brincadeira entre meu tio e os amigos atualmente completa 25 anos de história e de fato bom futebol. 

Por coincidência, 1998 também foi o ano em que nasci. Talvez pela idade ou pela proximidade, sempre estive cercada por meu tio, os amigos e o Bangu. Muitas das minhas lembranças envolvem um campo de futebol, gritaria, emoção, papel picado voando e o branco e vermelho. 

Existe uma superstição de que bebês devem sair do hospital usando vermelho para proteção e foi assim que meu irmão mais novo encarou o mundo exterior pela primeira vez, usando vermelho. Mas não o do Bangu, mas sim o vermelho Flamengo. E o amor pelo futebol e o vermelho continuam na nossa vida não só através do Bangu das Pedras, mas também do Flamengo. 

Hoje, todos mais velhos, as coisas se acalmaram. Meu tio não joga mais no Bangu das Pedras, nós não estamos todos os domingos nos jogos e meu irmão não é mais um bebê rubro negro. No entanto, o futebol segue estreitando nossos laços e despertando momentos acalorados.

Ainda tem briga no almoço de domingo na casa da vovó em dia de clássico, ainda me assusto com os gritos da minha mãe assistindo ao Flamengo, ainda assisto futebol europeu para conversar com meu pai sobre alguma coisa que não seja trabalho e ainda tenho fotos dos inúmeros jogos do Bangu das Pedras em a família ia toda junta. 

Como irmã mais velha, tenho o papel de relembrar histórias e apresentar coisas para a nova geração e mesmo não sendo mais tão fã de futebol ainda carrego o respeito pela tradição da família. É assistindo Ted Lasso e Welcome to Wrexham que meu irmão e eu encontramos um caminho para estreitarmos nossos laços por meio do futebol. 

Desde aquela final no campo Nacional, minha família teve ganhos e perdas, mas nunca deixou de lado o amor pelo futebol.

Mesmo não morando mais uns em cima dos outros, no mesmo bairro e em ruas diferentes, essa tradição de pais e filhos, avós e netos é um exemplo de como o futebol transcende o campo e se torna parte da nossa história.


Imagem de destaque: Freepik

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