
Ingrid Achiver
Nesta sexta-feira (dia 10), o grupo “Ponto de Partida”, um dos mais tradicionais do país, chega à São João del-Rei para apresentar o espetáculo teatral “Na corda bamba de sombrinha”. A apresentação acontece no Teatro Municipal, a partir das 20h, e os ingressos estão disponíveis pela plataforma Sympla, na CVC e na Gurilândia.
O espetáculo foi criado a partir das músicas e crônicas escritas por Aldir Blanc, considerado um dos principais letristas e compositores brasileiros. Com direção de Regina Bertola, a peça é ambientada nos anos de Ditadura Militar e relaciona jornalismo, humor, drama e poesia.
Interpretados pelos atores Ciro Belluci, Lido Loschi, Renato Neves e Ronaldo Pereira, a história apresenta quatro jornalistas que estão finalizando um dia de trabalho, nos anos 70, até que o chefe pede que o jornal seja completamente refeito. Ao longo da madrugada, muitas situações acontecem com os personagens.
Ronaldo Pereira, em entrevista ao Noticias del-Rei, afirma que as pessoas vão se divertir, mas também se emocionar com as cenas que se relacionam com situações vividas até os dias atuais.
“Os personagens são muito inteiros, as pessoas vão se identificar muito fácil. Eu acho que é um espetáculo que as pessoas vão rir, vão se emocionar e vão sair com esperança”, comenta.
Com a turnê iniciada em 2022, a peça já passou por Barbacena, Belo Horizonte e agora chega à São João para uma apresentação única.
“A gente tá muito feliz de apresentar aí, tem esse Teatro Municipal que é um marco mineiro. Acho que esse espetáculo vai ficar lindo lá”, declara Ronaldo.

“Na corda bamba de sombrinha”
Iniciado em 2021, na época da pandemia, o espetáculo teve sua primeira versão apresentada de forma on-line, com os atores em suas casas. Para produzi-lo, o Ponto de Partida mergulhou na vida e nas obras de Aldir, suas músicas, composições, letras e crônicas.
“A gente queria prestar essa homenagem para o Aldir Blanc que foi um cara muito importante para a música popular brasileira, pra poesia, e que morreu de COVID na pandemia”, conta o ator.
As pesquisas foram feitas pelos próprios atores, que apresentaram uma prévia para a diretora, cada um com seu personagem.
De acordo com Ronaldo, o interessante foi rever a obra de um artista tão talentoso, mas que, por vezes, acaba ficando menos conhecido que o/a intérprete das canções.
“Um monte de música que a Elis Regina cantou, todo mundo conhece e nem imagina que é dele. Então, esse resgate e essa mostra é muito importante”, reflete.
Nesse mergulho na vida de Aldir, o que não faltam são referências presentes no espetáculo. O título é um trecho retirado da música “O bêbado e a equilibrista” e os nomes dos personagens foram escolhidos em homenagem a amigos do compositor: Bosco, que vem do João Bosco, Cristóvão, do Cristóvão Bastos, Carlinhos, do Carlos Lyra e Moacyr, que vem do Moacyr Luz.
Paralelamente a música, o “Ponto de Partida” também realizou uma série de pesquisas sobre a Ditadura Militar, o jornalismo, a censura e a perseguição. Uma das homenagens, inclusive, é para o jornalista Vladimir Herzog, assassinado nos “anos de chumbo”.
O nome da peça foi escolhido porque, nas pesquisas, o grupo percebeu que, na época, os jornalistas viviam realmente em uma corda bamba.
“É uma parte da nossa história muito triste, porque é um lugar de silenciamento da cultura, da comunicação, através da violência, da brutalidade”, lamenta Ronaldo. Para o ator, é essencial “manter essa memória viva para que ela não aconteça mais”.
Apesar de não ser um musical, a música está entrelaçada em toda a história, com trilhas sonoras e até uma gravação com Elis Regina.
”A gente que tá em cena sempre fica emocionado de ter essas referências em outras músicas. Como diz o Belchior, os nossos ídolos ainda são os mesmos. Eles ainda estão presentes. É muito legal poder dar voz ao Aldir e todos os parceiros dele”, conta Ronaldo Pereira.

“Ponto de Partida”
Com sede em Barbacena, o grupo “Ponto de Partida” começou a ser formado nos anos 80 com um grupo de jovens que desejava movimentar culturalmente a cidade, levando shows, escritores e registrando a memória material e imaterial. No entanto, a maior bandeira do Grupo se tornou o teatro.
Com isso, o “Ponto de Partida” passou a realizar um movimento de formação de atores e atrizes, convidando artistas como Sérgio Britto, Fernanda Montenegro e Eva Wilma para ministrar cursos.
Ronaldo, que está há 20 anos na equipe, declara que cerca de 40 espetáculos já foram criados ao longo dos anos, entre eles “Grande Sertão: Veredas” e “Beco: A Ópera do Lixo”, um dos espetáculos de mais sucesso do Grupo.
O reconhecimento não é apenas nacional. Além de cidades pelo Brasil, o “Ponto de Partida” já se apresentou em Portugal, França, Alemanha, Bélgica, Angola e Uruguai.
Além do teatro, em 2004, o Grupo fundou a “Bituca: Universidade de Música Popular”, com o objetivo de oferecer cursos gratuitos e formar novos talentos.
O nome é uma referência ao artista Milton Nascimento, considerado o padrinho da escola. Em 2015, após quase 17 anos de reforma, a Estação Ponto de Partida é inaugurada em Barbacena, onde se localiza a sede, a Casa da Palavra e a Bituca.
“Já faz 20 anos que eu estou aqui nessa história linda. Eu cresci vendo o Ponto de Partida, assistindo e foi um sonho estar dentro”, finaliza Ronaldo.
Edição: Arthur Raposo Gomes
