Rodolfo Silva e Otávio Resende
Luiz Alberto de Souza, o “Beto”, era um menino da comunidade que possuía o sonho de jogar bola profissionalmente, mas que tinha poucas possibilidades na cidade. Morando longe do centro e de onde aconteciam os jogos de futebol, começou a “brincar de bola” aos 13 anos, graças a um projeto que levava as crianças para jogarem bola no quartel aos finais de semana.
No fim do ano de 1994, quando Beto tinha 14 anos, um campeonato de rua começou a acontecer em seu bairro, o Senhor dos Montes. E aquele velho ditado que diz que “sorte e competência andam juntos” fez sentido para o garoto: uma família da capital mineira, Belo Horizonte, estava passando férias no bairro. O time da rua em que Beto morava ganhou do time onde os visitantes estavam, por 1 x 0, com gol dele.
Com o resultado, o casal que estava passando férias em seu bairro, conversou com ele e disse que o levaria para fazer teste nas categorias de base do Cruzeiro. E assim foi. Em 1995, a moça o levou para fazer a chamada “peneira” no clube celeste e foi aprovado.
Com a aprovação, se mudou para Belo Horizonte e morou na casa dos tios até completar 15 anos, quando pôde ficar no alojamento da equipe, local no qual se hospedou por seis anos.
Do Mineirão à Arena da Baixada
Apesar de ter construído toda sua base no Cruzeiro, o são-joanense não foi muito aproveitado pelo time belorizontino. Emprestado para outros clubes, foi parar no Ipatinga, onde afirma ter vivido o melhor momento de sua carreira.
No Tigre do Vale Do Aço, Beto era titular e por lá encontrou seu futebol. A equipe era repleta de jogadores “renegados” pelo time celeste. Dessa forma, um rótulo surgiu para o time que ficou conhecido como “filial” do Cruzeiro.
E não é que a filial venceu a matriz no ano de 2005? O Ipatinga, que foi formado a partir da cessão de 17 jogadores pelo clube da capital, chegou à final do estadual e bateu o Cruzeiro no Mineirão, sangrando-se campeão estadual pela primeira e única vez em sua história.

(Foto/Reprodução: Globoesporte.com)
A histórica campanha do time fez com que o são-joanense se transferisse para uma equipe da Série A, o Athletico-PR. Logo após o estadual, Beto viajou para o Paraná para jogar pelo clube da Arena da Baixada.
Por lá, atuou no Brasileirão de 2005, até ser emprestado para o Paulista de Jundiaí – que havia ganhado a Copa do Brasil no anterior e se classificou para a Libertadores.
Durante sua carreira ganhou o apelido de Beto Canhota, por sua habilidade com a perna esquerda.

(Foto/Reprodução Gazeta Press)
Em 2006, Beto jogou o primeiro semestre lá e retornou ao clube paranaense. No entanto, uma grave lesão o afastou dos gramados – quebrou a perna e estourou os ligamentos do tornozelo. E quando estava prestes a atuar novamente, outra lesão o afastou outra vez dos gramados.
Recomeço no Tigre
As graves lesões afastaram o jogador do Atlético-PR, e ele retornou ao Ipatinga em 2007. Naquele ano, livre de lesões, Beto teve sequência no clube, que alcançou ótimos resultados:
- Chegou às quartas de final da Copa do Brasil – eliminando Palmeiras e Sport.
- Vice-campeão da Série B do Brasileirão
No entanto, a lua de mel acabou no ano seguinte. 2008 não reservou boas surpresas para o Ipatinga, que foi rebaixado no estadual e no Brasileirão, retornando à Série B.
Adeus Ipatinga – A outra parte da trajetória do canhota
No ano de 2009, o Ipatinga reformulou seu elenco e o Canhota não fez parte dessa reformulação.
Depois disso, o atleta começou a “rodar” pelo futebol brasileiro, passando por equipes como ABC-RN, Nacional de Nova Serrana, Democrata-GV, Tupi, Tombense entre outras equipes até retornar ao Figueirense de São João del-Rei em 2015 – seu último clube como atleta.
A carreira como treinador
Depois de sua carreira como jogador, Beto não pensava em continuar no futebol, mas essas características, aliadas aos conselhos de um amigo de infância, o histórico treinador do Athletic Club, Cicinho, Beto começou a repensar seus passos e acabou seguindo este caminho.
“Se não fosse o Cicinho (Cícero Júnior) eu não seria treinador. Até porque eu não tinha vontade nenhuma de ser. Ele com esse negócio de me ver como o perfil de capitão nos clubes que passei, foi me falando para ser treinador.”
– argumenta Beto.
Por ter fama de “paizão”, já foi prejudicado em alguns clubes, onde alegavam que ele protegia os jogadores e não estava ao lado da diretoria.´

(Reprodução: Arquivo Pessoal)
Beto teve uma carreira de altos e baixos como treinador, mas ela é marcada principalmente pela superação.
Em 2017, treinou o Figueirense de São João del-Rei na categoria sub-20 e fez história: chegou a fase final e foi terceiro colocado no estadual, à frente de equipes como Cruzeiro e América.

Tabela: Reprodução / Federação Mineira de Futebol (FMF)
Pelo Figueira, foi campeão na Holanda: vencendo a Copa Heemseerk, torneio sub-19. E um detalhe: o time foi campeão vencendo o Brugge, tradicional equipe belga que possui 18 títulos nacionais. O êxito na competição atraiu olhares de clubes estrangeiros para os jogadores são-joanenses.

(Foto/Reprodução: Figueirense EC)
Apesar do sucesso com a base, no profissional amargou situações difíceis. Em 2019, foi para o Tupi de Juiz de Fora, e saiu de lá após seis partidas, não obtendo vitórias.
Esse ano não foi bom para o treinador, que após a saída do Tupi, comandou o Figueirense na Segunda Divisão do Campeonato Mineiro, mas não conseguiu passar da primeira fase do estadual.
Seu último trabalho foi como treinador da categoria sub-20 do Athletic em 2022: foram cinco jogos no campeonato mineiro da categoria, sendo uma vitória, um empate e três derrotas – essas contra os times da capital

(Foto: Fernanda Trindade / Athletic Club)
Após algumas divergências internas com a diretoria, Beto acabou se desligando, mas garante estar sem mágoas ou pendências com o clube.
Hoje, Beto faz diversas funções na academia “Infinity”, em São João Del-Rei, e recentemente foi promovido a treinador da equipe sub-11. Logo de cara, mais um desafio para a carreira do treinador: a Copa do Brasil da categoria.
Ele também auxilia jovens jogadores que vão fazer testes em clubes do estado ou jogadores da região (como do próprio Athletic) que buscam melhorar a parte física ou performance nos jogos. Beto não pensa em comandar uma equipe profissional ainda, mas as portas seguem abertas para quem quer acreditar no seu trabalho.
“Eu sou treinador de futebol com experiência profissional e curso CBF. Só que hoje eu estou bem feliz onde estou […]. Para eu sair daqui tem que ser algo muito concreto. Tenho que trabalhar do meu jeito e tenho que respeitar o currículo do clube, como ele tem que entender meu jeito de trabalhar.”
– afirma Beto.
Treinador, jogador e presidente
O multifuncional Beto é o atual presidente do Cruzeiro de São João del-Rei. Localizado no bairro Senhor dos Montes, a equipe ficou muito tempo parada, deixando a comunidade sem lazer.
Vendo essa situação e sabendo da paixão por futebol de seu neto, a avó de Beto pediu para ele reerguer o clube. Após muito estudo, ele entrevistou as “provas vivas” que passaram pelo clube e então começou os trabalhos para reestruturar o Cruzeiro, se tornando presidente.
Na sua gestão, melhorou o campo de futebol, inaugurou uma quadra de futebol de areia e futevôlei, voltou com os jogos infantis e para os mais velhos, organizou torneios internos e ainda colocou o clube de volta em competições, como o campeonato de veteranos e o torneio de inverno, no qual ainda jogou como atleta e foi campeão.
O trabalho de Beto foi abraçado e é muito bem visto pela comunidade da cidade, que participa de tudo que é oferecido pelo clube e também quer reestruturá-lo da melhor maneira possível.
Sem muitos recursos disponíveis, o Cruzeiro do Senhor dos Montes está de portas abertas para receber doações e apoio financeiro.
Edição: Ana Laura Queiroz
Imagem de destaque: arquivo pessoal
