Crislaine Campos
Em um relato comovente, o sobrevivente Sálvio Humberto Penna, que foi preso e torturado durante o período da ditadura militar no Brasil, compartilha suas experiências e reflexões sobre aquele período sombrio da história do país.
O regime militar, liderado pelo general Emílio Garrastazu Médici, é amplamente conhecido por sua repressão implacável contra dissidentes políticos. Sálvio foi detido em dezembro de 1971, quando trabalhava na Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira, e passou por uma série de atrocidades que marcaram sua vida.
Ao Notícias del-Rei, durante entrevista exclusiva, Sálvio descreve a dura realidade da perseguição política, prisão e tortura sob o regime da ditadura, lançando luz sobre um capítulo sombrio da história brasileira.
A Dura Realidade da Ditadura Médici
Sálvio inicia a narração a partir de uma contextualização do momento histórico em que foi preso, durante o governo do general Médici.
Ele descreve esse período como um dos mais cruéis da ditadura, caracterizado pela perseguição implacável, tortura e assassinato de opositores políticos. Sálvio também ressalta que a ditadura Médici marcou uma época de repressão intensa, onde qualquer tipo de oposição política era sufocada.
Foi muito difícil a ditadura Médici. Aqueles que protestavam e que tentavam, de alguma forma, trabalhar contra o regime, ou era preso ou tinha que cair na clandestinidade e passava por perseguição.”
– relembra Sálvio.
A prisão
Sálvio Penna revela como foi preso de maneira surpreendente e injusta durante o regime militar. Ele detalha a situação na qual as forças de segurança se aproveitaram da proximidade com uma companheira que precisava de seu endereço, o que resultou em sua prisão imediata.
Ao chegar em casa, encontrou a própria residência ocupada pela repressão: a então esposa Ana e o filho recém-nascido Rodrigo estavam sob intensa pressão.
Durante o período na prisão, Sálvio frisa a importância da solidariedade – tanto interna, quanto externa. Ele enfatiza o papel vital desempenhado por advogados, famílias e setores progressistas da igreja na denúncia da tortura e na luta pelos direitos humanos.
Ele explica como os presos políticos organizaram atividades coletivas, cursos de política e esportes para manter viva a esperança e a resistência.
Nossos advogados também, a partir de um certo momento, nos ajudaram a pressionar a repressão até que pudemos ter papel e caneta para carta. As cartas eram entregues aos guardas penitenciários, passavam por uma censura e só então eram expedidas.”
– discorre Sálvio Penna.
Os efeitos duradouros da tortura
Sálvio discute o impacto emocional e psicológico que a tortura e a prisão deixaram em sua vida. Ele aponta como a tortura deixa marcas profundas e irreversíveis, que persistem ao longo dos anos.
Ele também menciona a resistência à dor, que se manifestou durante tratamentos médicos subsequentes. O sobrevivente aponta que algumas dessas feridas psicológicas são difíceis de curar completamente.
Era uma constante tortura moral, psicológica, punições… por qualquer motivo.”
– resume.
Ele acredita que a tortura deixa cicatrizes permanentes na vida das pessoas: a convicção se baseia em sua experiência pessoal. A tortura costuma incluir perseguições, a perda de amigos e, em alguns casos, afeta a família, como ocorreu em sua própria vida.
Luta pela memória e pela justiça
Penna destaca que, apesar dos desafios e cicatrizes deixados pela ditadura, a luta pela memória e justiça continua. Ele cita homenagens a companheiros que foram mortos ou sofreram tortura durante a ditadura, enfatizando ainda como é importante que se mantenha viva a memória desse período sombrio da história brasileira.
Sálvio Penna é hoje um exemplo vivo da resiliência humana diante das adversidades. Sua história, permeada por sofrimento e esperança: é um lembrete poderoso de que, mesmo nos momentos mais obscuros, o espírito humano pode perseverar e, eventualmente, triunfar sobre a opressão.
A provocação é para o não esquecimento do passado e que sirva de incentivo para a busca por um futuro caracterizado pela justiça e liberdade.
A trajetória de Sálvio Penna demonstra que a resistência incansável tem o poder de derrubar as barreiras do ódio e da violência.
Edição: Arthur Raposo Gomes
Imagem de destaque: Riva Moreira – arquivo pessoal
