Lucas Magelle de Paula Ferreira
O Teatro Municipal de São João del-Rei está prestes a ser palco de um espetáculo que promete encantar o público de todas as idades. No dia 26 de novembro, o espaço abre suas cortinas para receber uma apresentação que combina a magia de esperançar do circo com a força e destreza do pole dance.
O evento é uma parceria entre a Escola Circense Fly e o Studio de Pole Dance Lorraine Senna, um dos mais renomados da cidade. A ideia será uma apresentação de mais de 40 artistas que irão misturar tecidos acrobáticos e danças com um único propósito: sonhar.
Apelidado de “Dröm: os sonhos de Maria”, o show terá como seu principal objetivo o de despertar sensações para o público e para os artistas do palco, sejam boas ou ruins.
Veja a seguir como está sendo todo o processo de criação deste evento que promete encantar aqueles que estão com curiosidade para assistir e entender mais sobre a arte circense em São João e também para os novos artistas que irão para trás dá cortinas pela primeira vez e contam mais sobre a preparação do show.
A fundadora da primeira escola
Ao Notícias del-Rei, a fundadora da primeira e única escola circense de São João del-Rei, Alicia Almeida, compartilha um pouco sobre sua história e motivações em relação aos seus projetos e empolgação com sua primeira apresentação autoral como criadora.
A ginasta e dançarina de 25 anos conta que faz tecido desde seus 8 anos e que vê seu pai paraquedista como maior referência para trilhar seus passos.
A primeira apresentação dela foi logo em um circo, aos 17 anos, no qual foi chamada até mesmo para fugir com eles para turnê. No entanto, o ingresso da graduação fez Alícia permanecer em São João del-Rei.
Fascinada pela área, mesmo realizando faculdade, começou a dar aula de tecido e ginástica e sempre procurou aprender mais sobre em institutos e aulas on-line.
Junto com a pós-graduação em Educação Física, ela iniciou processo de criar seu próprio estúdio de arte circense em casa. A primeira sala tem 3 metros de altura e 6 de comprimento, mas pela procura e interesse de alunos, liberou espaço externo para conseguir dar mais aulas.
Ao criar o Fly, Alicia tinha apenas nove alunos. Após dois anos de criação, tinham mais de 50, obtendo uma explosão de crescimento de mais de 200%. Nesse momento, Alicia viu que estava pronta para dar mais um passo e criar sua apresentação e dar mais uma motivação para as turmas.
Falando mais sobre a apresentação no Teatro Municipal, Alicia é questionada pela reportagem sobre o primeiro evento como Fly Studio, e a ginasta se mostra empolgada em relação aos sentimentos de organização:
A ideia começou pensando em como passar a intensidade de se estar no palco para o público, se for apenas colocar uma roupa bonitinha e uma maquiagem e se apresentar não fazia muito sentido, por mais que tenha gente que gosta. A gente queria levar a ideia das sensações, do que o pessoal pode sentir. E aí conversando com o pessoal, veio o pensamento de sonhos e pesadelos”
– revela Alicia Almeida.
O espetáculo
O intuito é ter mais de 40 alunos se apresentando em diferentes blocos que irão narrar uma história no mundo dos sonhos, no qual cada um irá criar seu próprio personagem, trazendo para o espaço urbano um evento único.
A professora Alicia ainda comenta sobre a diferença de sensações em estar atrás das cortinas para o evento e o de assistir como público, mostrando as diferenças entre emoções.
“Pra falar a verdade, eu me sinto em casa em ambas as situações (risadas). Eu amo o circo, gosto da alegria do palhaço, da adrenalina do globo da morte que você fica totalmente nervoso só de assistir, o medo de estar assistindo a pessoa em cima do tecido e o frio na barriga de pensar que ela pode cair. E o sentimento é o dobro quando você está em cima do palco”, avalia a docente.
Ela completa indicando que, “quando você treinar para estar na apresentação, tem toda a questão do autoconhecimento que é preciso ter, se for necessário é possível até montar um personagem que fale sobre você e desvendar toda a questão da expressão artística por trás dele”. “O fato é que eu amo todos os papéis e sei que esse é meu objetivo principal de vida“, reflete.
O pole dance como paixão e profissão
Para o Notícias del-Rei, a organizadora Lorraine Senna, professora e pioneira do pole dance com mais de 15 anos de experiência na área, é questionada sobre o interesse pela dança e o processo de trazer a modalidade para a cidade, considerando o preconceito tido pela modalidade. Confira a depoimento!
“Conheci o pole dance como esporte em 2009 através de uma entrevista da atriz Flávia Alessandra que atuava como uma pole dancer em uma novela. Nessa reportagem, ela explicou que precisou fazer aulas para aprender mais sobre e também falou sobre as escolas de pole. Eu estava na casa de uma tia rodeada de primas e ficamos super interessadas na modalidade, foi aí que eu tive o insight de procurar mais informações.
Assim conheci minha professora Vanessa Costa (presidente da Federação Brasileira de Pole Dance) e fui pro Rio (de Janeiro) com apenas coragem e um sonho. Chegando lá me apaixonei e não parei mais. Fiz vários cursos de capacitação profissional, 30 workshops, inclusive com atletas de outros países e continentes, além da participação de inúmeros campeonatos.
Atualmente todas as professoras de pole dance que atuam em São João del-Rei foram ou ainda são minhas alunas. Mas esse processo não foi muito fácil no início.
Pra começar, eu precisava praticar, mas naquela época não existiam nem as empresas fabricantes de barras que existem hoje no Brasil. As barras importadas eram absurdamente caras pra mim e por isso a única forma que encontrei de treinar foi frequentar um motel da cidade. Foi assim por uns 2 meses até meu pai encontrar uma empresa que que trabalhava com tubos de inox em BH (Belo Horizonte) e eu acabei conseguindo ‘montar’ minhas próprias barras.
E fora tudo isso, o pole dance até hoje, infelizmente, sofre muito preconceito. Agora imagina como era há 15 atrás?
A questão é que existem várias vertentes, inclusive a que leva pro lado sensual (e tá tudo bem), mas o que as pessoas precisam entender é que não é “só isso”. Pra mim por exemplo, o pole dance é um esporte, uma arte e também uma profissão.”
Experiência motivacional
Ao falar sobre como está sendo a preparação do evento, Alicia comenta com a reportagem que Maria, filha de Lorraine, vai ser a protagonista de toda a peça. Ela é perguntada então, sobre como estava sendo esse turbilhão de sentimentos para a organizadora, respondendo entusiasmada:
“Minha filha como protagonista está sendo motivacional pra mim. Pra falar a verdade, acho que pra nós! Ela está muito empolgada e se dedicando ao máximo para dar o seu melhor. Maria cresceu nesse meio e tenho certeza que vai brilhar.
E por incrível que pareça eu estou bem tranquila quanto a isso. Quando se trata de apresentações em geral, meu maior problema sou eu mesma. Fico bem nervosa, melhor nem falar muito (risadas).
Estou focada em preparar coreografias super acrobáticas e divertidas com minhas alunas, explorando vários temas, com alunas de vários níveis idades!“
Entendendo mais sobre o “Drom”
A professora de de Flex da Fly Studio, Francine Lebar, também é uma das organizadoras do espetáculo. Para a reportagem, ela disserta sobre a ideia de toda a apresentação, além de descrever como está sendo todo o processo de criação do show.
(Foto: arquivo pessoal)
“Eu já participei da montagem de vários espetáculos porque cresci fazendo isso, mas nunca estive tão responsável pela produção como em DROM. Pra te falar a verdade é muito satisfatório passar horas atrás de um computador ou dos cadernos estudando e definindo cada detalhe.
Eu amo arte e só sei fazer isso, apesar de ser trabalho não me sinto realmente trabalhando. Só sinto por causa do cansaço, mas a emoção é totalmente positiva.”
Francine lembra que muitos ainda estão em sua primeira apresentação, e o sentimento de nervosismo e tensão é comum em suas aulas, mas salienta também a emoção que está sendo toda essa primeira etapa:
“Eu pego bem pesado nas aulas. Sou meio militarizada, e posso acabar gritando e ficando um pouco (na verdade, bastante) brava durante os ensaios e montagens. Mas depois que a aula acaba gosto de ser sincera com meus alunos dizendo com carinho o que precisa ser melhorado.
Também não me proponho a colocar aluno pra fazer nada fora do seu nível em cima de palco, assim na hora de entrar a frase é sempre a mesma: “você ensaiou, você se dedicou, você fez o que podia ser feito até aqui. Agora é ir lá e mostrar o que você sabe fazer. O público não entende de técnica, então vai lá e mostra a arte”.
E como as alunas estão se sentindo?
A estudante de Jornalismo e designer gráfica, Sofia Teixeira, é uma das mais de 40 alunas que irão se apresentar no Teatro Municipal. À reportagem, ela expõe como está o sentimento de fazer a performance de arte circense.
“Pra falar a verdade, eu estou muito ansiosa e aflita (risadas). Eu fico muito nervosa, você não tem noção. Eu tenho um problema de duvidar um pouco, embora eu pratique isso todos os dias. Porém, eu to muito orgulhosa e muito feliz em fazer parte desse momento da escola, eu estou lá desde o início, então me emociona muito pessoalmente e também em grupo. Vai ser muito bom para guardar em minhas memórias.”
Perguntada sobre o motivo de ter iniciado nas artes circenses e o que inspira ela a continuar praticando diariamente, Sofia responde:
“Eu queria praticar uma atividade que fosse diferente, estávamos começando o período de flexibilização da pandemia e eu sempre quis fazer ginástica. Acho que não tinha aulas para pessoas da minha idade na modalidade aqui na cidade, até eu conhecer o tecido acrobático. Foi a minha primeira paixão, e acabei tentando ir.
Eu me sinto muito bem, sempre tive isso de me desafiar e, quando estou lá em cima, eu acabo esquecendo um pouco dos meus problemas, então eu me sinto maravilhosa durante as aulas. Virou uma grande paixão na minha vida e só me fez bem”.
Serviço
A apresentação “Dröm: os sonhos de Maria” já conta com ingressos disponíveis para a venda.
É possível adquirir através do Instagram da Escola Circense Fly e também pelo studio de pole dance Lorraine Senna. Para saber mais, clique aqui.
Edição: Arthur Raposo Gomes
Imagem de destaque: Lucas Magelle
