Bianca Andrade
Acordamos e vamos para a rua, subimos em um ônibus e vamos ao trabalho. Esse caminho é neutro? Uma memória que merece ser esquecida, ou nem mesmo processada? Creio que sim e que não, ao mesmo tempo.
- Sim, porque normalmente é o início do dia. O sono ainda domina o corpo e implica em como as informações entram.
- Não, porque ali existe uma reflexão efêmera e crua, pela falta de raciocínio. O sentimento é de ser um animal que vive apenas paz e irritação. Nada mais.
Digamos que estamos em uma área em que o barulho começa cedo e as ruas não são estruturalmente as melhores. Há energia gasta com a caminhada desviando de lixo. Franzimento do rosto ao sentir um mau-cheiro. Espirro decorrente da poeira da rua e do ar.
Esse instante é o de revolta. E também pode ser de livre associação com o fato cruel de acordar cedo para trabalhar.
Já o horizonte dali pode te contar uma outra história. E assim nos conceder um breve alívio. Alguns pequenos morros cobertos de mato intocado. Outros grandes morros com uma natureza singular. “Mas esses vão logo sumir atrás de prédios”, pensamos.
Dessa vez é bom ainda ser capaz de ver beleza e raios de paz.
Agora, pense nas lojas, em comprar um chocolate ou um remédio. Pense em tirar um xerox, ou comprar um pijama. Pense em comer um hambúrguer de franquia.
Talvez seja melhor apenas pensar no atraso do ônibus. Em onde está o passe. E quem sabe em qual música ouvir no caminho.
Depois, entramos no ônibus, desejamos um bom dia ao motorista e à cobradora.
Imagem de destaque: arquivo / Luciano Nascimento
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