Giovanna Fuccio
Especial para o Notícias del-Rei
Os documentários têm o poder de nos transportar para diferentes mundos, revelar histórias surpreendentes e provocar reflexões profundas sobre a realidade que nos cerca. Nesta lista, o Notícias del-Rei reúne cinco documentários que se destacam por suas histórias envolventes e perspectivas únicas.
Desde grandes clássicos até obras contemporâneas, estes documentários proporcionam um olhar autêntico e provocativo sobre a complexidade do nosso universo.
Seja você um apaixonado por documentários ou esteja apenas começando a explorar este gênero, essas cinco produções merecem um lugar na sua watchlist.
1 – “Reminiscências de uma Jornada à Lituânia“
“Reminiscências de uma Jornada à Lituânia” mostra a volta dos irmãos Jonas e Adolfas Mekas à sua terra natal, Lituânia. Eles deixaram o país no final da Segunda Guerra Mundial e sofreram várias dificuldades para chegar aos Estados Unidos, incluindo anos de exílio em campos de trabalho forçado na Alemanha. Até o momento deste filme documental (1972), eles nunca tinham voltado.
O documentário apresenta uma narrativa singular e subjetiva, explorando as vivências pessoais do realizador Jonas Mekas, ao mesmo tempo em que aborda diversos elementos relacionados à experiência coletiva do ser estrangeiro.
Com sinceridade e de forma genuína, Mekas compartilha abertamente sua própria condição de refugiado e imigrante, bem como denuncia essa mesma realidade experimentada por milhares de indivíduos.
A sensação de desenraizamento, solidão, perda de referências familiares e a busca incessante por um senso de pertencimento estão a todo momento presentes na obra. Utilizando o cinema como sua poderosa ferramenta de expressão, o autor faz ressoar sua voz em relação a uma condição que aflige muitas pessoas.
Embora permeado por uma sensibilidade melancólica, “Reminiscências de uma Jornada à Lituânia” não se deixa envolver pela tristeza. De maneira extremamente delicada, Mekas captura a alegria presente nas belezas e nos momentos felizes do cotidiano.
Ele não utiliza o passado como justificativa para o presente, mas como uma janela para outra faceta da memória – aquela que se alinha com a “memória por excelência” bergsoniana, composta por fragmentos irrepetíveis e singulares. A função essencial dessa memória é nos inspirar a sonhar, e enquanto estamos imersos nesses sonhos, experimentamos a liberdade e a verdadeira vivacidade da vida.
Onde assistir: “Reminiscências de uma Jornada à Lituânia” não está, infelizmente, disponível em nenhuma plataforma de streaming. Anteriormente, esteve acessível na plataforma MUBI, mas não se encontra mais em exibição. Contudo, é uma obra notável e recomendamos que você a acompanhe para ver se retorna ao catálogo da MUBI. Por enquanto, assista o trailler desta produção!
2 – “Fire of Love“
Katia e Maurice Krafft, renomados vulcanologistas franceses, compartilharam uma paixão intensa e singular que definiu suas vidas e carreiras por duas décadas. Este casal destemido encontrou-se irresistivelmente atraído por uma dualidade apaixonante: sua mútua devoção um ao outro e sua fascinação por vulcões.
“Fire of Love” emerge como um relato cativante da trajetória de duas almas apaixonadas que se entregaram ao amor e à exploração vulcânica. A aparente insanidade desse empreendimento logo revela sua beleza intrínseca: Katia e Maurice compreenderam plenamente que essa paixão por vulcões poderia muito bem selar seu destino final ou, até mesmo, representar o único destino possível para eles. Decidiram, corajosamente, abraçar uma vida breve, porém repleta de intensidade, ao invés de uma existência longa e banal.
Essa escolha de viver com paixão e dedicação é, sem dúvida, um testemunho inspirador da maneira como Katia e Maurice Krafft conduziram suas vidas. Sua história não apenas reflete a interseção única entre amor e vulcanologia, mas também nos incita a refletir sobre a coragem necessária para abraçar nossa verdadeira paixão e seguir aquilo que nos move.
Onde assistir: “Fire of Love” encontra-se disponível na plataforma de streaming Disney+, e, a seguir, você pode conferir o link do trailer para ter uma prévia desta produção.
3 – “Talking Heads“
São formuladas apenas três indagações aos participantes da entrevista:
- Em que ano você nasceu?
- Quem é você?
- O quê você mais deseja?
O processo começa com um entrevistado que acabou de vir ao mundo e essas mesmas questões são repetidas em sequência até alcançar a última entrevistada: uma senhora de mais de um século.
Com notável simplicidade, Krzysztof Kieslowski verdadeiramente nos transporta para o interior das experiências humanas. Isso não ocorre apenas por meio das palavras proferidas, mas nos permite imergir na linguagem corporal e nos olhares que, em muitos momentos, transmitem esperança, tristeza ou sabedoria por parte de cada indivíduo presente.
Certamente, “atemporal” é a descrição que melhor se ajusta a esta obra, um trabalho destinado a ser apreciado tanto nos momentos de alegria quanto nos de adversidade.
É surpreendente como esse curta-metragem de apenas 14 minutos tem o poder de fazer o espectador interromper sua rotina, se desligar da esfera do ego e do mundo muitas vezes superficial e fugaz em que vive.
Ele genuinamente instiga a reflexão sobre questões de extrema importância que, frequentemente, são negligenciadas. É singelo e muito inspirador.
Onde assistir: “Talking Heads” é um documentário curta-metragem, disponível no YouTube.
4 – “Sans Soleil“
“Sans Soleil“, dirigido por Chris Marker em 1983, é um documentário que se destaca por sua narrativa única e inovadora. Essa produção pode ser descrita como uma colagem cinematográfica de memórias: ao invés de seguir uma narrativa linear, o documentário apresenta uma série de pensamentos e reflexões interligados, explorando a complexidade da condição humana e como as culturas pelo mundo abordam as questões de tempo e memória.
A estrutura narrativa do documentário se desenvolve à medida que uma mulher assume o papel de narradora, lendo e comentando as cartas de Sandor Krasna, um cameraman freelancer que funciona como o alter-ego do autor.
Krasna embarca em expedições ao redor do globo, registrando imagens e vivências em diversas localidades. Com maestria poética, essa obra consegue transparecer a beleza que reside na banalidade da existência humana.
“Sans Soleil” brilha através de suas narrativas e observações envolventes, mantendo o espectador cativado e imerso na experiência cinematográfica. Krasna habilmente tece elementos políticos, filosóficos e poéticos na tela, centrando-se nos detalhes mais ínfimos, nas lembranças esquecidas, nos mistérios obscuros e nas efêmeras nuances da vida cotidiana. É uma visão apocalíptica que pulsa com a vivacidade da existência humana.
Onde assistir: o documentário pode ser conferido completo no YouTube. Logo abaixo está o link para o trailer, proporcionando uma breve introdução à obra.
5 – Retratos Fantasmas
”Retratos Fantasmas” é um documentário de imenso valor histórico para o cinema nacional e de rua. Kleber Mendonça Filho oferece ao público uma obra que ilustra o cinema como um ambiente de emoções e conexões humanas profundas, documentando de forma essencial a vida e a arte.
A narrativa inicialmente parece pessoal, porém, à medida que se desenvolve, amplia-se em sua ambição, explorando de maneira mais profunda o seu tema central. Inicia-se dentro da residência de Kleber, mas logo mergulha na análise da rápida transformação urbana e na descaracterização de locais que desempenharam um papel crucial na formação cultural de muitos, agora reduzidos a ruínas ou convertidos em estabelecimentos comerciais de franquia e igrejas.
As memórias dos cinemas de rua de Recife – que floresceram entre as décadas de 1950 e o início dos anos 2000, onde uma variedade de filmes, desde blockbusters de ação até comédias e produções de arte, que cativaram públicos diversos – agora repousam em silêncio e encobertas pelo tempo, restando apenas seus fantasmas em tela. O diretor não encara esses vultos com melancolia, mas sim com profundo afeto, revelando como o cinema têm a capacidade de ressuscitar essas figuras para uma audiência que talvez nunca tivesse conhecimento de sua existência durante suas vidas.
Em uma época em que a cultura tem sido negligenciada por anos e em que a experiência cinematográfica está constantemente sob ameaça, “Retratos Fantasmas” emerge como um lembrete crucial de que é imperativo lutar pelo apoio às artes.
As artes não são apenas formas de expressão, mas também extensões das pessoas envolvidas em sua criação, curadoria, distribuição e consumo. A perda desse vínculo é, de fato, uma perda de parte de nossa própria identidade.
Onde assistir: “Retratos Fantasmas” ainda está em exibição nos cinemas, portanto, ainda não está disponível em serviços de streaming.
Imagem de destaque: reprodução / Freepik
Edição: Arthur Raposo Gomes
