Ingrid Achiver e Maiara Sousa
Dizem que “Tiradentes andou pela ‘Rua da Cachaça'”, que “existe uma São João del-Rei subterrânea”, que o “sino Jerônimo já provocou um assassinato” e que a “Mãe do Ouro” já foi vista na cidade. Tudo isso, e muitas outras manifestações, fazem parte das histórias e das identidades são-joanenses.
A cultura popular é tida como o conjunto de saberes e crenças que surgem da interação social dos indivíduos, transmitida de geração em geração como uma expressão identitária. Registrar esses acontecimentos é fundamental para a preservação da memória popular e seus imaginários.
Pensando nisso, o jornalista e pós-graduado em Turismo, Emílio Costa, criou o almanaque digital “Tencões e Terentenas de São João del-Rei“.
O portal foi fundado em 2011 e reúne mais de 800 publicações. O objetivo é promover a conscientização patrimonial e ser instrumento didático-pedagógico utilizado nas escolas.

Além de Emílio, outras pessoas também se propõem a escrever e registrar a história são joanense.
Esse é o caso do “Bordando a História”, um projeto desenvolvido pelo Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei (IHGSJ) há 5 anos.
O projeto é coordenado pela professora Maria Lúcia Monteiro Guimarães – conhecida como Lucinha – e pelo professor e presidente do Instituto, Paulo Lima. São aproximadamente 12 pessoas envolvidas nas produções que usam o bordado como uma ferramenta para contar e marcar as histórias são-joanenses.
O grupo realiza bordados individuais, mas atualmente também possui dois volumes do livro “Histórias Bordadas”. A produção é a versão em livro papel dos bordados realizados por elas e cada volume apresenta duas histórias.
- O primeiro é dedicado à pioneira nos estudos do folclore brasileiro, Alexina de Magalhães Pinto, junto da história do memorialista são-joanense, Geraldo José da Silva;
- Já o segundo volume registra a lenda da “Mãe do Ouro” e do líder da Revolta da Chibata, de 1910, João Cândido, conhecido como “Almirante Negro”.

O almanaque
O interesse pela temática começou quando Emílio, que é natural de São João del-Rei, realizou um projeto na capital federal envolvendo artes, exposições e objetos de fixação.
“Essa experiência me levou a ter um interesse maior pelas formas populares de comunicação”, aponta.
A criação de posts foi iniciada a partir da relação de relatos históricos, as próprias lembranças do autor e conversas que Emílio ouvia e detalhes que percebia sobre as diferentes manifestações culturais da cidade.
Isso tudo está na nossa cara o tempo todo, mas a gente não pára pra olhar e não reflete”
– alerta o jornalista Emílio Costa.
Com uma linguagem simples e lúdica, o almanaque busca auxiliar na construção de um imaginário. E afinal, por que o nome “Tencões e Terentenas”? O próprio Emílio explica: “porque são nomes dos toques dos sinos mais conhecidos aqui”.
Além do almanaque, o escritor foi autor do projeto comemorativo do bicentenário da Inconfidência Mineira, dos 30 anos do Museu Regional e das primeiras iniciativas de retomada da tradição dos tapetes de rua confeccionados na Semana Santa.
A página, desde sua criação, já teve mais de 360 mil acessos. No entanto, mesmo com esse trabalho de difusão do patrimônio material e imaterial, Emilio Costa relata que o retorno vem em maior quantidade de pessoas fora da cidade, do que dos próprios são-joanenses. E isso, na visão dele, tem uma razão: a comunidade em geral não tem dimensão da diversidade e variedade cultural presentes aqui.
Por esse motivo, ele acredita que vem ocorrendo uma perda de identidade, causada tanto pelas mudanças do mundo, as mudanças sociais e os avanços tecnológicos quanto pela própria não-transmissão.
“A modernidade considera essa cultura popular, esse imaginário, essa fantasia como uma coisa atrasada”, critica.
“Bordando a História” e o primeiro livro
Em 2022, o grupo “Bordando a História” publicou o primeiro volume do livro bordado em formato de papel, o “Histórias Bordadas”.
A obra apresenta as “Cantigas Colligidas” que reúne algumas das cantigas da são-joanense Alexina de Magalhães Pinto (1869 – 1921) que foi professora, pioneira nos estudos do folclore brasileiro e uma das primeiras a utilizar o potencial educativo da cultura popular na educação infanto-juvenil.

Ainda na primeira edição, as bordadeiras apresentaram o “Pelos fios da memória” que conta a história do memorialista são-joanense Geraldo José da Silva – personagem marcante da cidade e grande conhecedor da história e da cultura de São João del-Rei.
O livro reúne os principais pontos da vida de Geraldo, como: infância, família, trabalho e a sua forma de pensar.

Geraldo chegou a fazer parte do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei como confrade, depois da publicação do livro, mas faleceu em 2021.
Livro ganha segundo volume
O último volume do livro se dedica a contar a história do Almirante Negro, João Cândido, líder da Revolta da Chibata, que aconteceu em 1910, depois de um levante de marinheiros negros contra os castigos físicos impostos pela Marinha Brasileira.
Na ocasião, ele liderou a tomada de quatro navios de guerra na Baía da Guanabara. João Cândido, desde então, é símbolo da resistência negra e dos direitos humanos.

O “Histórias Bordadas 2” resgata ainda outra história: a lenda da “Mãe do Ouro“. A origem da lenda teria sido no ciclo do ouro no Brasil, no século XVIII e está presente em alguns estados pelo país, como Minas Gerais, Bahia e Goiás.
A crença principal é que essa figura aparece, por vezes, como uma bela mulher, de cabelos longos e dourados, usando um vestido branco de seda. Já em outros relatos, ela surgiria na forma de uma bola de fogo como uma guardiã do tesouro perdido.
A Lenda da “Mãe do Ouro”
Segundo a lenda, a mãe do ouro teria morrido ainda criança e após a sua morte teriam colocado sobre ela uma correntinha de cruz em prata. Contudo, ela não poderia ser enterrada com as joias e o seu corpo teria desaparecido.
Em São João del-Rei, acredita-se que ela possa ser avistada como uma luz na Serra do Lenheiro e aquele que conseguir encontrá-la e retirar as jóias, as ganha como recompensa.
Por conta da lenda, muitos também acreditam que sua proteção esconderia jazidas de ouro não exploradas e desconhecidas aos olhos humanos.
Em algumas versões da lenda, a mãe do ouro seria responsável também por cuidar de mulheres vítimas de maus-tratos por parte do marido, ou infelizes no casamento. Nessa versão da estória, a crença é de que eles seriam levados para sempre para dentro de cavernas.
Produção do livro

Segundo Lucinha, existem poucos registros escritos da lenda. Até mesmo um dos livros mais famosos sobre as lendas da cidade, o “Contam que …”, escrito por Lincoln de Souza, em 1920, não registra a história. E são trabalhos como esses que trazem a possibilidade de levar a cultura da cidade para outras pessoas e outras gerações e, enquanto elas tecem a história, elas também são construídas por ela.
A lenda tem uma relação quase que pessoal com Lucinha. A professora chegou a ser procurada por um historiador, por conta do pai, Geraldo Guimarães, que em 1939, em um café no centro da cidade, teria avistado uma luz que remetia à “Mãe do Ouro”.
Até os dias atuais existem relatos de testemunhas que avistaram o fenômeno, e são esses relatos, junto de livros, professores e jornais de época que ajudam no registro da história.
As riquezas (in)visíveis da cultura popular
Emilio acredita que é necessário um maior engajamento da escola e da sociedade na preservação dessas tradições.
Além disso, ele alerta que os intelectuais, cientistas e acadêmicos não decodificam suas produções em uma linguagem popular de modo que seja transformadora e que cause efeitos na sociedade.
“A cidade perdeu a memória? Não, quem perdeu foram as pessoas. Foram os cidadãos que perderam a memória, porque não zelaram dela”, finaliza.
Edição: Sarah Castro
Imagem de destaque: arquivo pessoal


