“OLHO PRA VOCÊ, TUDO VAI NASCER”: A POTÊNCIA DE TUDO QUE MARINA SENA É

Geovana Nunes e Anna Carolina da Glória

Os longos cabelos escuros. Desordenados. Vivem como querem e querem o que vivem. Os olhos grandes cheios de brilho do ser. Um olhar que ofusca. Que diz quem é quem, e quem fará o quê. São os olhos que foram acesos por dentro e às vezes um sorriso apagado pelo sofrimento.

No fim de semana (10/9) do feriado da Independência, foi o último dia do primeiro “The Town”. O festival foi realizado pelos criadores do Rock in Rio, mas sediado na cidade de São Paulo. A proposta era trazer os elementos da cultura paulistana, como batalha de rima, por exemplo. Iniciativas de energia sustentável também eram parte da proposta do festival, parecido com o “Rock in Rio”. Palcos foram feitos de aço reciclado e painéis solares foram instalados.

Neste dia, a cantora mineira, Marina Sena, foi atração e cantou “Meu nome é Gal” com um timbre e flexões na voz que lhe renderam críticas.

As semelhanças entre ela e Gal vão além dos cabelos, o sorriso largo e os olhos provocadores. As duas nasceram no dia 26 de setembro. Marina começou sua carreira em uma banda e ficou muito conhecida como vocalista de outra. Gal também teve seu nome impulsionado na turnê “Doces Bárbaros”, onde canta ao lado de Maria Bethânia, Gilberto Gil e Caetano Veloso. As duas começaram suas carreiras ainda jovens.

A última gravação de Gal em vida, foi a música “Para Lennon e McCartney”, com Marina Sena. A mineira comentou em seu Instagram como se sentiu honrada pela presença de Gal em sua vida.

“Eu, uma entre as milhões de pessoas perdidamente apaixonadas por Gal, realizei meu sonho de gravar uma música com a minha maior inspiração da vida, não posso crer que existe uma canção em que nossas vozes se encontram, me emociona ter vivido isso, e ter isso eternizado é surreal pra mim”, diz Marina.

Vencedora da categoria “Melhor Videoclipe e Melhor Música” pelo “Prêmio Rap Brasil”, com a música “Se Eu Não Lembrar“, a carreira de Marina é marcada por ritmos regionais e vários usos de sua voz. A cantora não foi a única artista a ser desaprovada: o próprio festival e sua organização foram alvos de críticas do público.

Ao longo de sua trajetória, que começa bem antes da música “Por Supuesto” viralizar, em 2021, Marina Sena já esteve no Campo das Vertentes: a cantora se apresentou em São João del-Rei e Lavras

Carregado de toda a sua regionalidade, o trabalho de Marina foi comentado por duas artistas da região. Mas antes… o que Marina Sena canta?

A nova MPB: quer me conhecer ou não quer?

A Música Popular Brasileira (MPB) se renova de acordo com as mudanças sociais e artísticas de uma época. No entanto, mantém sua principal característica: explorar os ritmos brasileiros populares. Como bossa nova e samba.

Nos últimos anos, uma nova geração de músicos desse gênero começou a surgir. Anavitória, Marina Sena, Gilsons e Rubel são alguns dos artistas que compõem essa nova cena da música brasileira.

As possibilidades que a Internet proporciona remexem a forma como a produção musical funciona. Em uma via, artistas independentes já não dependem mais de serem descobertos por grandes gravadoras para lançar seus trabalhos. Hoje, eles conseguem subir covers e músicas autorais pelo YouTube e até mesmo pelo Spotify.

Foto: Fernando Tomaz

O vasto mundo digital também aproxima o artista do seu público, porque hoje todos aparecem o tempo todo em diversas redes sociais. Então, a sensação de ser uma pessoa do cotidiano fica maior. Por outro lado, a dinâmica dos conteúdos virais e muito breves, coloca o artista em uma posição de “o que será de mim sem hits”.

Outro fator importante é que mesmo influenciados pela MPB tradicional, esses artistas também buscam explorar novos ritmos, como o indie, folk e o rock. Essa pluralidade sonora, garante uma readaptação de um estilo musical tipicamente brasileiro, sendo influenciado por ritmos estrangeiros.

Foto: Divulgação / Instagram – @amarinasena

Marina Sena nasceu no dia 26 de setembro de 1996 em Taiobeiras: uma cidade no norte de Minas Gerais. O norte do estado é muito marcado pela influência do Nordeste, principalmente da Bahia. Tanto na cultura como também no clima e na vegetação.

A cantora cresceu ouvindo MPB e ouvir música sempre foi o seu momento. Era a forma mais intensa que ela se encontrava dentro de si mesma. Ouvia também música internacional, mas sua grande influência e inspiração sempre foi Gal. Desde bem jovem.

Se perceber artista, e com isso ser muito além do que se espera da imagem e do comportamento, foi muito importante para que Marina pudesse se sentir mais confiante. Com sua aparência, sua personalidade e com toda a sua extravagância.

Com o tempo, parou de tentar parecer o que quer que achassem que ela deveria. Assim como Gal canta em “O Quereres“, composição de Caetano Veloso, Marina levou a sério a subversão do que se espera e hoje “onde buscas o anjo, sou mulher”.

Foto: Patrícia Devoraes / Brazil News

Outro incômodo que Marina transformou em arte foi justamente sua voz. O cantar anasalado de seu timbre único era uma insegurança. Mas, como vários outros pontos de sua vida, se conectar com o lugar de onde veio ajudou para que ela se fizesse ainda mais em arte.

O jeito típico que as mulheres lavadeiras do Vale do Jequitinhonha falam, remete à voz de Marina Sena. Hoje, ela sente e reconhece que seu corpo, sua identidade, sua personalidade, sua voz e suas origens fazem dela mais do que artista. Mas arte em movimento. Com toda a potência e a beleza de ser quem é.

Marina em… a outra banda da lua

Foto: Thiago Botelho

A carreira musical de Marina começou aos 18 anos, em 2014. Foi natural para ela, que já cantava e compunha. “A Outra Banda da Lua” passou a contar com uma nova voz a partir de 2015. A banda de Montes Claros tem claras influências do Tropicalismo e da MPB como um todo.

A foto na qual Marina Sena, vocalista, aparece de argolas e o rosto com reflexo dourado remete à capa do álbum “Tropicália”. O disco não foi só música. Tudo que compõe a imagem e todo o movimento era a proposta de uma nova estética e principalmente: uma nova cultura.

Imagem: reprodução

Todos os movimentos de contracultura que marcaram as décadas de 60 e 70 no Brasil, são uma manifestação de liberdade e novos costumes para uma era. O tropicalismo bebia das fontes modernistas brasileiras ao pegar influências estrangeiras e colocar nas cores e nos sabores do nosso país.

A pegada musical da “Outra Banda da Lua” é essa. A de Marina também. Em 2017, se apresentou no bar “Conversa Afinada”, em Lavras. E de acordo com o estudante de História Ian Pablo Furtado, a voz dela já era um grande destaque.

Ela cantava principalmente um repertório de covers de uma MPB que estava fora do circuito comercial, além de algumas músicas autorais da Outra Banda da Lua”, afirma.

– afirma o estudante Ian Pablo, que acompanhou apresentação de Marina Sena em Lavras.

E mesmo com seu desligamento em 2021, Marina ainda apresenta influências do tropicalismo como um todo.

Marina em… Rosa Neon

Foto: Sarah Leal / Divulgação

Pois a segunda e última banda da qual Marina vai fazer parte também sofre influências do tropicalismo. Foi durante uma viagem com “A Outra Banda da Lua” que ela conheceu os outros integrantes da banda “Rosa Neon”.  A música “Ombrim” foi um sucesso no Brasil e marcou a voz de Marina com toda a sua singularidade. 

Com a banda “Rosa Neon”, Marina Sena se apresentou em São João del-Rei. Com o primeiro álbum, que leva o nome da banda, em 31 de outubro de 2019 eles cantaram na “Casa do Amor”, república estudantil universitária.

Em 2021, os integrantes se despediram da banda que era uma iniciativa em paralelo com a vida de todos eles, já que eles também cantavam em outros lugares. E então, Marina Sena lança sua carreira solo.

Marina em… carreira solo

“Me Toca” foi a primeira música lançada por Marina Sena. O álbum “De Primeira” conta com dez músicas sendo uma delas “Por Supuesto”, um dos maiores sucessos de Marina.

Mesmo sem shows, por conta da pandemia, sua carreira foi deslanchando em sucessos com músicas “soltas” e seu segundo álbum solo, “Vício Inerente”.

Imagem: reprodução

Lançado esse ano, o álbum traz letras que celebram a sensualidade e sexualidade livre da mulher moderna. Que não só é uma herança do tropicalismo nas músicas, mas na forma de Marina se testar e se experimentar musical e pessoalmente.

A última música que Marina lançou foi uma colaboração com Chicão do Piseiro, Roni Bruno, MTS no Beat, ou seja, bem regional como Marina costuma ser. O clipe lançado há três dias ressalta a maneira com que ela faz arte. Mas ainda assim, as polêmicas relacionadas ao “The Town” ainda não murcharam completamente.

Após sua apresentação, muitos comentários foram feitos nas redes sociais. Um dos tweets com mais visualizações sobre o tema rendeu muito ódio sobre a voz e a cantora em si.

As críticas chegam, inclusive, até no preciosismo de Gal.

Até mesmo as finalidades e a importância da “Lei Rouanet” foram questionadas, ainda que a lei nada esteja relacionada ao evento.

Para destrinchar a performance, a carreira e a singularidade de Marina, a reportagem do Notícias del-Rei conversa com a cantora Alice Vieira, do Trem Lampejo em São João del-Rei, e a artista independente de Barbacena, Giovana Martins.

“Mesmo sem te ver, eu sei que eu tenho sua atenção”

Foto: Paulo Tauil e Webert Belicio / AgNews

Giovana Martins é musicista e cantora independente há seis anos. Nasceu e mora em Barbacena até hoje. Para ela, o início da carreira é a parte mais difícil, pela falta de incentivo. 

“É o artista pagando para trabalhar. Sem contar que, há uma cultura não só em quem é do interior mas em muitos brasileiros, de admirar e bater palma apenas para o que vem de longe, o que vem de fora, e muitas vezes, o tesouro que há tão perto é ignorado e descartado”, comenta sobre todo esse cenário desanimador.

Sobre o eixo cultural estar concentrado no Rio e em São Paulo, ela comenta que as oportunidades não vem apenas pelo tamanho. Mas “sim por uma tradição de querer, e sentir também que tem que seguir os passos dos artistas consolidados no passado”. Ela diz também que é preciso não desanimar, segundo ela, a arte é um amor imediato que ninguém pode te tirar.

Cantora barbacenense, Giovana comenta a trajetória de Marina Sena. (Imagem: divulgação)

Ao caso da Marina Sena, Giovana considera covers uma forma de homenagem e não como uma ação desrespeitosa.

“Eu acho que quando um artista faz uma homenagem para alguém ou alguma obra, ele tem que colocar um pouco dele ali. É essa a magia das homenagens e das releituras”, considera.

Sobre a musicalidade da Marina, a artista barbacenense fala sobre o timbre da cantora e possíveis deslizes.

“O timbre da Marina é muito agudo, então qualquer deslize fica mais evidente e nas apresentações ao vivo tem todo um nervosismo que faz a voz ficar mais frágil. O que às vezes sinto é a falta de um estudo adequado das melodias e notas para algumas canções, principalmente as que são mais altas, como as da Gal”, comenta.

Ainda disse sobre comentários de ódio que se relacionam com a desvalorização do que é popular.

“A moda é curtir o que não está na moda. O novo “cult”. E isso é extremamente infantil. É muito legal quando saímos a procura de algo novo no meio do Lado B do Spotify, mas desvalorizar o que é popular e que um dia foi Lado B não te faz mais inteligente, culto, elegante e  isso tudo, diz muito mais do internauta do que do que ele escuta”, encerra.

Alice Santos Vieira é musicista e psicóloga. De Itanhandu, ela está na carreira musical há quinze anos. Além de cantar, ela compõe e é violinista. Mora na “cidade dos sinos” há oito anos e faz parte tanto do “Trem Lampejo” quanto do “Forró das Deusas”. 

Alice se apresenta, principalmente, em São João del-Rei (Foto: reprodução / Instagram)

Para ela, arte é beleza e “a conexão que pode existir quando a música passa por mim e assim pode chegar em alguém”. 

Artista independente desde 2021, ela comenta: “acho que facilita as coisas estar no eixo Rio-São Paulo mas não é uma garantia. Temos visto algumas mudanças interessantes nesse sentido. Quando existe uma cena crescente fora desse eixo, como em BH, sinto que é possível quebrar um pouco esse movimento.”

Alice concorda com Giovana quanto a não desanimar. “Muita gente tá trabalhando duro, investindo pesado no trabalho mesmo com tanto descuido e desamparo sofrido pela classe artística. Tenho esperança de que essa insistência coletiva tenha retornos no futuro”, defende.

E para ela, homenagear um artista é demonstrar seu amor por ele. E não imitá-lo ou se aproximar tão fielmente. Quanto a isso, Marina Sena comentou em seu Twitter.

“Não vejo sentido em implicar com isso. Interpretações são singulares e podem ser polêmicas mesmo. Enquanto artista acho interessante a reflexão sobre o que é feito ao escolher cantar uma música de outra pessoa, o cuidado é necessário. É uma sutileza que ajuda a chegar num resultado consciente do que se quer transmitir com a própria voz”, continua Alice.

Sobre a voz de Marina e toda sua carreira Alice pontua muitas coisas interessantes. Como a experimentação, “ela está se descobrindo, desenvolvendo… Acho que é sim tecnicamente competente mas vira e mexe abre mão disso pela diversão de experimentar, soar esquisita, errar”, diz. 

Além disso, para Alice todo o ódio, ou hate, em cima de Marina não é sobre a competência dela.

“Acho que essa repulsa tem mais a ver com a não aceitação da excentricidade de modo geral. Sentir atacado, ofendido pelo diferente. Acho ok ouvir e não gostar, achar muito pop, achar que ela mudou muito [..]. Mas esse hate […] tem muito a ver com o fato de ela ser uma cantora que se permite ser ao mesmo tempo estranha e sensual”, afirma.

Continua, ainda, dizendo que é sensacional esse movimento. “E ela pôde escolher isso, afirmar a esquisitice e também afirmar o lado muito pop que tá levando ela pro caminho que ela sempre quis. Acho sensacional esse incômodo geral”.

Foto: Divulgação / Instagram – @amarinasena

Sobre o ambiente digital, Alice faz considerações interessantes que se conectam com o vídeo do Chico Buarque publicado por uma página no Twitter dedicada a vídeos do cantor.

“A internet é um lugar muito estranho, melindroso. Viabiliza e limita ao mesmo tempo. Nem acho que deve ser analisada como fator positivo ou negativo, mas como uma ferramenta que deve ser usada com cautela pelos artistas”, reflete a cantora e violinista.

Encerrando a entrevista, Alice comenta sobre a nova MPB. 

“Tenho visto esses memes de “sucessora natural” como a Marina da Gal, e eu acho que é isso mesmo. A nova MPB está em construção e assim… ainda não é o momento de julgamento, mas de liberdade pra experimentar o som que vem surgindo e pode surgir. A Marina está com os holofotes mas tem tanta gente boa colocando o pé na profissão… pensa bem, o Tranquilo em BH, aqui em São João, tantos compositores incríveis. Isso tudo é a renovação, seja nacional ou local”, completa.

A flor do cerrado…

Imagem: reprodução / MultiShow

Gal Costa tem uma música nomeada de “Flor do Cerrado”. É, de fato, o nome de uma planta, mas Taiobeiras, cidade natal de Marina Sena, também é marcada pela vegetação do Cerrado

Na foto, ela está chorando logo após cantar em homenagem a, segundo suas próprias palavras, a melhor cantora do mundo. E sua performance não só emocionou Preta Gil, cantora e afilhada de Gal Costa, como foi defendida pela página da cantora no Instagram.

Eles postaram, no último dia 13, uma fala que Gal disse a Marina em sua gravação juntas: “e a gente nasceu para ter poder e conseguir transformar as coisas'”. É com certeza que Marina sente orgulho da promessa na qual ela se firma a cada dia mais.


Edição: Ana Laura Queiroz

Imagem de destaque: Gal Costa e Marina Sena na última gravação de Gal em vida. / Foto: Alile Dara Onawale

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