TOQUE DOS SINOS EM SÃO JOÃO DEL-REI: UM LEGADO QUE ECOA

Dávila Martins

São João del-Rei é famosa por suas práticas culturais diversas e sua herança histórica. Uma das tradições mais marcantes e icônicas da cidade é a cultura dos sinos, que remonta ao século XVII e permanece viva e ressonante em suas ruas e igrejas. O município é também o lar do primeiro Museu dos Sinos do Brasil, conhecido como “Sentinelas Sonoras”. 

O Museu dos Sinos “Sentinelas Sonoras”

Localizado na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, o Museu dos Sinos foi idealizado pelo arquiteto local André D’ângelo, que conduziu uma extensa pesquisa sobre a história dos sinos e o significado de seus toques.

O museu oferece uma experiência fascinante dividida em quatro eixos principais:

  • História dos sinos: Aqui, os visitantes podem explorar a evolução dos sinos ao longo da história ocidental e sua importância cultural;
  • Fabricação dos sinos e seu papel: Neste eixo, destaca-se o processo de fabricação dos sinos e sua utilização como instrumentos musicais, revelando sua versatilidade;
  • Os Sineiros: Uma parte fundamental da cultura dos sinos, este segmento do museu explora as vidas e os esforços dos sineiros locais, cujo ofício desempenha um papel crucial na cidade;
  • A Linguagem dos Sinos: Este é um dos aspectos mais intrigantes da cultura dos sinos. Aqui, os visitantes podem aprender sobre a linguagem única dos sinos e como eles transmitem mensagens que influenciam a vida cotidiana em São João del-Rei.

Além disso, o museu apresenta uma exposição de sinos de bronze única no Brasil, que enriquece ainda mais a experiência dos visitantes. E a visitação ao museu fica disponível de segunda a sexta, de 08h às 16h e sábado de 08h às 13h.

A Linguagem dos Sinos

A comunicação por meio dos sinos é uma característica única da cultura local. Cada toque – seja um dobre simples, dobre duplo ou repique – carrega mensagens que influenciam o dia a dia dos moradores da cidade. 

Essa linguagem peculiar é compreendida por muitos são-joanenses, como o músico Márcio André Carmo, que cresceu na cidade e vive próximo à histórica Igreja de São Francisco de Assis.

Para ele, “a linguagem dos sinos é uma parte natural de sua vida, e, embora não possa decifrar cada mensagem como seus avós e tios, ele gradualmente aprendeu a entendê-la”.

Os sinos desempenham um papel fundamental na comunicação de eventos religiosos, desde missas e novenas até funerais e festas em homenagem aos santos. Essa tradição não é exclusiva da cidade, mas São João del-Rei se destaca com cerca de 30 exemplares espalhados por toda a cidade, representando mais de 40 toques distintos. Veja mais sobre esta linguagem na matéria do G1.

A preservação

Desde 2009, a linguagem sineira é reconhecida como patrimônio imaterial brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Embora a tradição tenha evoluído ao longo do tempo, ela continua a ser uma parte essencial da identidade cultural da cidade.

Os sinos não são apenas objetos, mas guardiões da história e da tradição, transmitindo mensagens que conectam o presente ao passado. O Museu e o reconhecimento pelo IPHAN desempenham um papel crucial na preservação desta herança cultural.

Os sineiros: guardiões da identidade são-Joanense

Por trás dos sons, há pessoas que mantêm viva a tradição. Os sineiros desempenham um papel crucial na preservação dessa cultura. Sua tarefa de tocar os sinos é formalizada como uma atividade regular, com carteira assinada e até adicional de insalubridade devido aos riscos associados a subir em torres altas.

A profissão de sineiro é altamente valorizada na cidade, e em 2018, a Câmara Municipal aprovou o projeto de lei que estabelece o “Dia do Sineiro” como uma data de comemoração. 

Essa data é celebrada no quarto domingo após a Quarta-Feira de Cinzas, coincidindo com a Solenidade do Senhor Bom Jesus dos Passos e o tradicional evento “Combate dos Sinos”. Essa iniciativa visa valorizar ainda mais essa profissão e envolver agentes culturais e religiosos em suas atividades.

Aprendizado do ofício

A habilidade de tocar sinos é passada de geração em geração, envolvendo observação e prática. As torres das igrejas frequentemente estão cheias de espectadores ansiosos para aprender o ofício.  Veja mais sobre este trabalho no site da Diocese.

A Linguagem dos Sinos

Os sinos de São João del-Rei possuem uma linguagem única, com toques específicos para diferentes ocasiões. Aqui estão alguns exemplos:

  • Dobre Simples: um toque com uma única pancada em cada movimento do sino.
  • Dobre Duplo: duas pancadas em cada movimento do sino.
  • Repiques: movimento dos badalos sem o sino em movimento.
  • Eventos e Significados dos toques: os sinos também desempenham um papel importante na comunicação de eventos específicos, como missas, novenas, funerais e festas religiosas dos escravizados que chegaram à cidade no século XVIII. Eles trouxeram consigo elementos da tradição africana, como os ritmos de tambores e atabaques, que foram incorporados aos seus repiques rítmicos.

Saiba mais sobre os toques específicos para cada ocasião no site.

O repique “Senhora é Morta”

Um dos repiques mais marcantes da cidade é o “Senhora é Morta”, executado por dois sineiros comandando os sinos da torre esquerda da Catedral Basílica do Pilar. Este repique, delicado e triste, marca o início da “Festa da Boa Morte”, uma das celebrações mais significativas de São João del-Rei.

O estudo, feito por estudantes da Universidade Federal de Minas Gerais, apresenta esta análise cultural da “cidade onde os sinos falam”.

A cultura sineira é uma herança cultural brasileira. “Os sinos não são apenas instrumentos musicais; são mensageiros que contam a história da cidade e de seu povo. Enquanto o tempo avança, São João del Rei continua a abraçar a linguagem dos sinos como uma parte vital de sua identidade cultural, enriquecendo a experiência de quem visita esta cidade encantadora”, acrescenta Patrick Anderson, sineiro há muitos anos na cidade.


Edição: Marina Santana

Imagem de destaque: Dávila Martins

Deixe um comentário